Dancinha

Dancinha

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bloguinho semi-novo, em estado de recuperação

O caro leitor desses precários bytes e bits talvez já tenha presenciado a cena de uma égua, movida pelos impulsos da maternidade, empurrando, com o focinho, seu filhote para os desafios da existência. Mais empreguiçado, ou menos, o potro acaba por se mexer, vacila, cambaleia, e acaba indo em frente.

Pois é o que meu valente xará (vide A Saga de Valente ) anda fazendo comigo, tentando empurrar, pra ver se pega no tranco, o meu emperrado blog. Nesse ano que vai chegando na curva, o blog ficou meio de enfeite, silencioso, guardando vaga no disputadíssimo espaço do converseiro cibernético. Motivos sempre haverão, mas o que conta, no fundo, é como e porque reagir a eles. E agora me vejo engajado, no susto que seja, entre os blogueiros em recuperação... na pior das hipóteses, em recuperação de blogs adoecidos.

Ainda na semana passada, uns apuros novos, e meio brabos, com a saúde, sacudiram meu sossego e minhas frágeis ilusões de eternidade. Como soe acontecer, do episódio arrancam-se coisas de aprender, coisas de rir e coisas de chorar. Poupado, como me encontro, nos hábitos do escrever, vou lançar mão, no relato que se seguirá, de trechos de dois emails que enviei, logo que saí do hospital, a um amigo, renomado médico. Preservarei com iniciais, por razões várias, as referências mais diretas.


Oi, tudo bom? Andei passando por uns apertos esses dias, e cheguei a pensar em te ligar em busca de uns conselhos. Mas, como a situação estava confusa, e parecia sobre controle, o tempo foi passando.
No domingo, 12/12, acordei ensopado por um suor gelado e tomado por uma sensação estranha. Passei a mão no meu oxímetro (que uso para monitorar minhas questões respiratórias) e me espantei ao ver que a frequência cardíaca não passava dos 22. A Unimed mandou rapidinho sua ambulância CTI, mas, como aquele menino pirracento que ensaia e ensaia, e na hora da festa emburra, quando eles me submeteram, aqui em casa, ao eletro e outros exames, os parâmetros pareciam normais. O médico achou melhor não me remover para o hospital, fez um diagnóstico de reflexo vagal e me aconselhou repouso. O dia correu normal.

Na 2ª feira, após o café-da-manhã, estava eu conversando com a Katinha e o Henrique (meu filho) quando, de repente, apaguei. Desmaio que parece ter demorado mais ou menos um minuto. De volta, vi que o oxímetro registrava 27 de frequência cardíaca. Dessa vez, mesmo com o trânsito mais apertado, a ambulância já veio com ordens de me rebocar de imediato. Dei entrada no Hospital Madre Teresa, onde trabalha o Mauro Vidigal, meu pneumologista, e que vem monitorando minha saúde. No P.A., onde minha frequência cardíaca ficava em torno aos 14, para admiração do médico, eu ainda falava muito, dava palpite e queria saber de tudo. Juntaram uma comissão por ali, e logo, logo, eu estava no bloco cirúrgico implantando um marcapasso provisório.

Um detalhe, que não tenho intenção de explorar, mas que me chateou ao ver a minicorporação médica local tentando abafar. Já terminando a implantação feita sob anestesia local, e coordenada pelo Dr. F. R., eu estava conversando com ele quando, sem mais nem menos, a vida apagou. Voltei, creio que logo depois, com o auxiliar me massageando o peito e dizendo "volta, Paulo... volta, Paulo". Foi quando o Dr. F., muito gentil por sinal, estava com 2 fios nas mãos e me disse algo assim: "desculpa, eu deixei encostar esses dois polos, e você teve uma ligeira parada cardíaca, mas está tudo bem", e logo, meio chateado, enrolou os fios num bom tanto de esparadrapo.

Fiquei feliz de ter retornado inteiro, e pra mim tudo estava de bom tamanho. O que me aborreceu foi que ao comentar isso, sem críticas, com outros profissionais, vi que queriam fazer de mim o doidinho da festa. "O que é que isso? Pode ter sido impressão devido ao estresse? Uma coisa assim o Dr. F. teria me comunicado"... e coisas do gênero. Chato, né?

Mas, voltemos ao que mais importa. Fiquei 5 dias na UTI, e me submeteram a um bom tanto de exames. Na 6ª feira, à noitinha, voltei à sala cirúrgica, então sob a coordenação de um tal Dr. A. (meio de sacanagem, já que senti que o assunto circulara por ali, pedi para separarem bem os fios, e que, se precisasse, eu podia ficar segurando um dos polos). Correu tudo muito bem, com muito carinho e eficiência, e saí dali com o marcapasso definitivo que agora carrego do lado esquerdo do peito, sob o escudo do meu glorioso América. Como diagnóstico final, pelo que consegui arrancar, eu estava com uma bradicardia intermitente, e com bloqueio elétrico total (minhas palavras leigas fazem sentido?). De meu marcapasso saem 2 eletrodos, um ligado ao átrio e outro ao ventrículo.

A ambulância me trouxe de volta na tarde de domingo, e aqui cheguei feliz e contente, sentindo-me muito bem. A limitação que ora se impõe está ligada a meu braço esquerdo, com o qual não devo fazer maiores esforços por 15 dias. Para um cadeirante, isso é quase o mesmo que o amarrar num poste, mas, tudo ótimo. O suspense restante, que parece ótimo para testar corações semi-novos, que nem o meu, está sendo feito pela Unimed (e como me internei através dela, o pedido do marcapasso não poderia, pelo que disseram, seguir outro caminho). O pedido ficou por bem uns 3 ou 4 dias com a auditoria da Unimed, e sem resposta. Decidi, então (e parece que muita gente anda tendo que fazer o mesmo), assinar um contrato pessoal de risco com o Hospital, assumindo todos os custos caso o pedido não seja aprovado. Foi o jeito para receber o marcapasso e cair fora da UTI. Até agora não existe resposta sobre a aprovação, ou não, do pedido, mas ficaram de me avisar. É uma bela grana, coisa de uns 10 mil reais, mas não creio que haverá problema com a aprovação... pode ser só um terrorismozinho burocrático. Sinceramente, só não entendo o que a Unimed pode lucrar com tal entrave, mantendo o paciente à espera na UTI, com diárias caríssimas. Vá saber, né?

Era tal a minha historinha pré-natalina.

O amigo, grande cardiologista que é, matou com acerto a charada: eu tivera um bloqueio AV total, e o marcapasso parecia mesmo o caminho certo. Constatou, ainda, em resposta, que as intercorrências do episódio foram lamentáveis, e discorreu sobre a complexidade atual da tecnologia, da atividade hospitalar e da corporação médica (que está meio perplexa com o contexto moderno da área da saúde). Quis ele saber, também, porque eu me referia seguidamente à Unimed, se somos, ambos, associados e fundadores da Casu (plano de saúde dos servidores da UFMG, dentre outros).

Foi o que tentei explicar no email seguinte:


Em primeiro lugar obrigado pela atenção e pelo carinho.

Perfeita sua definição. O que mais senti foi uma perplexidade, naquele universo intensivista da saúde, diante do novo, além do extraordinário elenco de opiniões e diagnósticos contraditórios, por vezes paradoxais. Nas prescrições sobre o uso do marcapasso, exemplificando, dependendo do conselheiro o candidato pode ir do inutilizado ao super-homem, num instante. Tento entender, e sempre me fascino com os redemoinhos que atravessam a vida atual dos profissionais da saúde, levantando poeira e embargando a visão do instante. E, como ensinou mestre Rosa, no meio dos redemoinhos mora o diabo.

Exemplo de meu fascínio: durante a implantação do marcapasso definitivo, tendo conseguido afastar um pouco o pano que me cobria a cabeça, fiquei espreitando na greta algo que não vou esquecer. No monitor, ao lado da mesa cirúrgica, aqueles fiozinhos se intrometendo no meu coração pulsante até serem ancorados no posto de suas missões, que espero longas e tranqüilas. Emoção sobre emoção.

Outra historieta hospitalar, essa tristemente engraçada, até folclórica. Na internação inicial, ao citar os remédios que vinha tomando, citei o Glifage XR, remédio para diabetes que minha médica otorrino vem prescrevendo na tentativa provisória de modificar minha curva de insulina, algo por aí. Mas não sou diabético, e nunca fui diagnosticado assim. Mas, vai provar. Fui mergulhado numa barafunda kafkiana, e, apesar dos tantos apelos e argumentos, acho que só deixei de ser considerado diabético na hora em que entrei na ambulância que me trouxe de volta. Não é brincadeira. Saí com as pontas dos dedos cheias de furos, pelos exames de glicemia bem umas 6 vezes ao dia; aguentei uma dieta mais insossa que a normal, as bandejas sempre etiquetadas "DIABETES", o dia terminando com um ralo e misterioso mingauzinho de aveia; e até uma injeção de insulina me foi aplicada na barriga, para meu espanto, já que só me informaram o conteúdo quando o embolo, apressadinho, terminara sua corrida.

Mas, o que me deixaria rindo de nervoso, ainda estava por vir. A técnica em enfermagem que cuidava de mim, e que me dera banho, entrou no meu box, quase descontrolada no seu riso. Descobriu os meus pés, olhou, e custou a parar de rir para me contar o ocorrido. No relatório da fisioterapeuta que me examinara se lia: "o paciente teve o pé esquerdo amputado". Não precisei de muito tempo, nem de especial acuidade dedutiva para matar a charada. Com o falso diagnóstico de diabetes estampado em minha ficha, a jovem fisioterapeuta se deixou impressionar por estatísticas que deve ter ouvido na escola, e decidiu dar por ausente o pé esquerdo que, aliás felizmente, estava só enrolado no lençol, e repousando sob a coxa da outra perna. Posso te assegurar que eu trouxe o pé comigo, e que, apesar de pouco eficiente, ele ainda está aqui, compondo meu leiaute. Perigo mesmo é me tornar, involuntariamente que seja, personagem heróico da regeneração orgânica, via células-tronco, ou congêneres.

Agora, abusando de sua paciência generosa, vamos ao caso UNIMED. Há uns três anos, talvez mais, vi se agravar um impasse diante do catálogo da CASU. Grande parte dos profissionais estavam localizados nas redondezas da área hospitalar, e o acesso, tanto para estacionar o carro, quanto para chegar aos consultórios, foi se fazendo mais e mais complicado. Não foram poucas as vezes em que, tendo marcado a consulta, e tendo ouvido das secretárias que o acesso se faria sem problemas etc, tive que voltar para casa sem ser atendido. Houve caso até mais pitoresco, como no consultório do Dr. F. C., urologista. Chegando lá, deparei-me com uma maca muita alta (a justificativa, que nunca entendi muito bem, e que a maca era também usada pela mulher dele, fisiatra se não me engano, que tinha necessidades específicas), naturalmente não consegui escalar o obstáculo, não havia quem desse uma mãozinha, e acabei saindo de lá com meia consulta feita, por exemplo sem toque retal e outros procedimentos.

Tentei, acho que em duas oportunidades, mas talvez carente de ousadia e habilidade, levar esse problema à CASU. Estive lá, deixei recado, prometeram retorno, o tempo foi passando, não deu em nada, e me acomodei. Eu tinha algumas sugestões a propor, como fazer constar no catálogo o símbolo internacional de acessibilidade diante dos consultórios e clínicas aptos a receber cadeirantes e outros pacientes com dificuldades de locomoção etc; como fazer constar nos contratos a necessidade de se buscar a adaptação ambiental; e outras coisinhas, algumas já banais em mundos mais desenvolvidos, onde o usuário já reuniu mais poder de fogo e reivindicação. E aqui é essencial controlar-se a ansiedade, mal que me assola e consome, pois tenho vivência bastante para saber que a lerdeza parece inerente a tais processos.

Daí, a idéia de associar-me TAMBÉM à Unimed, que tinha catálogo bem mais amplo e diversificado, foi se infiltrando como forma de amortecer o impasse, inclusive porque, à época, minha saúde passava por quadro de relativa instabilidade. O PIC propôs um pacote de associação coletiva à Unimed, com preços bem mais baixos que os praticados na venda a varejo. O corretor veio me visitar, e apesar de seus insistentes conselhos para que eu pintasse um quadro róseo sobre minha saúde no protocolo de adesão, fiz um relato extenso e detalhado sobre meus males passados e presentes, discriminei todos os medicamentos, não deixei nada em branco. A punição, como eu esperava, veio pesada. Eu pressentia que eles fariam de tudo para eu tomar a iniciativa de desistir do contrato. Viu-se bem que eles não conheciam esse caboclo pirracento que dona Regina, minha mãe, empurrou pro mundo.

Fui visitado, pouco tempo depois, por uma assistente social que me comunicou uma carência de dois anos, impedindo meu acesso a uma lista de procedimentos que cobriam um relatório de 32 páginas (isso mesmo, trinta e duas). Paguei penosamente as caras mensalidades, fazendo a contagem regressiva. Minha intuição não me deixava desistir, algo me dizia que aquilo era um investimento, e necessário. Tiro e queda. Em especial após aquela crise de hipoventilação e retenção de CO² que me levou ao CTI do LifeCenter, em março de 2009, tive que recorrer a serviços especializados e caros. Só o Bipap, ao qual passei a recorrer por bem umas 12 horas diárias, custava R$ 750,00 - hoje não se consegue por menos de R$ 1.000,00! - a título de aluguel MENSAL. Mais fisioterapia respiratória, mais acompanhamento etc.

Já caminhando o tratamento, e provando que o Universo conspirava a meu favor, como ele veio a me dizer depois, pousei nas mãos do pneumologista Mauro Vidigal (que posteriormente descobri ser filho de uma amiga que tive na adolescência... Oh!, Minas Gerais), e tudo começou a mudar. Ele atende no Hospital Madre Teresa, e também no Núcleo de Atenção à Saúde da própria Unimed. Após algumas tentativas generosas, e respectivas auditorias, ele fez com que a Unimed me encaixasse no Programa de Atenção Domiciliar, e facilitou minha vida. De cara, há uns 7 ou 8 meses, uma equipe multidisciplinar veio à minha casa ver minha situação e dimensionar minhas necessidades. O efeito mais imediato, e de maior impacto, foi que eles assumiram a responsabilidade técnica e financeira sob meu Bipap (minha economia com o fim do aluguel mensal era maior do que a mensalidade do plano de saúde). Fora isso, compareço a consultas bimensais com o Dr. Mauro e equipe multidisciplinar, recebo telefonemas regulares da assistente social, tive atendimento sem complicações do serviço de ambulância, e não sei o que mais pode vir, ou não, por aí.

Como o Dr. P. R., que se tornara meu cardiologista de uns 2 meses pra cá (e a quem procurei em especial porque ele atende as consultas no próprio hospital, onde consigo estacionar, subir de elevador etc), e atende pela Unimed, reservou para mim vaga na UTI do Madre Teresa naquela manhã brava, e como entrei na emergência através da ambulância da Unimed, o processo passou a correr naturalmente sob a chancela do plano. Te confesso que pensei nisso tudo, e me sentindo meio vingado pelos anos pagos em carência quase total, enquanto a ambulância zoava em disparada Avenida Antônio Carlos a fora.

Foi assim que cheguei ao fim da novela aguardando a autorização da Unimed. Hoje mantenho os dois planos. Fico, com mulher e filho, na Casu para o cotidiano, e na Unimed vou surfando nessas ondas que foram se abrindo além de minhas expectativas.

Peço perdão por estender tanto a conversa, mas, no fundo, a culpa é sua. Encontrar alguém que se deleita com a dificílima arte de saber ouvir, que anda sumida mesmo nas relações de amizade, vai se  fazendo coisa tão rara, mas tão rara nesse mundo ansioso e egocentrado, que quando a gente encontra uma vítima (e você sempre me parece um mestre nessa arte), acaba abusando.

O diagnóstico final que recebi, como mais provável, fora mesmo bloqueio total AV.
Obrigado,
grande abraço,
Paulinho

sábado, 20 de novembro de 2010

Imagem perdida

                                            Retrato
                                                                         Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Favor dirigir-se ao lado...

Fuçando umas quase velharias, aqui nos porões do meu desktop, encontrei uma mensagem que enviei, em 14/03 (embora pareça tão antiga) para o blog "Sonhos de Luciana", aquela mui interessante personagem tetraplégica da novela global "Viver a Vida". Eu andava curtindo a dinâmica inovadora daquele blog ficcional dentro da trama. A conversa da hora era a dificuldade de profissionais de atendimento ao se dirigirem a portadores de diferenças diversas, no caso cadeirantes. Dei meu palpite:

Pois é, grande Lu, entendo bem sua perplexidade e estranheza. Sou cadeirante, paraplégico desde bebê, tenho 61 anos e aposentei-me como professor universitário. Vivo em Beagá. Minha mulher, a Katinha, tem 51 anos, e vive brigando com garçons, balconistas no comércio, atendentes em geral, para que se dirijam a mim, e não a ela, como ocorre em 80% das vezes quando querem saber o que desejo ou o que estou achando das coisas. E olha que cultivo uma longa barba branca, e sei fechar a cara quando necessário. Minha mulher costuma brincar: "ele tem cara de besta, mas pensa, fala e tem vontade própria". E, quando sobra humor, costumo fazer uma pequena preleção para esses profissionais, tentando fazer com que eles vejam o ridículo da situação preconceituosa, com que eles percam o temor de abordar o diferente e a diferença. Não somos invisíveis, e temos que deixar isso bem claro. O fundamental é não abrir mão do humor, e nem se deixar abater por essas bobagenzinhas da vida. Beijão, e parabéns pela talentosa representação da "categoria".

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Lalau em Belô

Na década de 1960, Beagá foi honrada com a visita do Festival de Besteira que Assola o País (o Febeapá, de tão saudosa memória, por tão atual), crônica do inesquecível Stanislaw Ponte Preta, também dito Sérgio Porto.


Tire a Vaca do Elevador 

Em BELO HORIZONTE, ultimamente, têm acontecido coisas muito estranhas.  Ora é um movimento político, ora uma festa de caridade, ora um projeto-de-lei proposto pelos deputados mineiros. enfim, acontecem coisas estranhas. às quais a Pretapress dá o devido registro, na medida do possível.  Agora mesmo a leitora Vera Gomes envia recorte publicado no jornal "Estado de Minas", no qual o comandante da Limpeza Urbana, ou seja, o Diretor do Departamento de Limpeza, Sr.  Teófilo Ezequiel Adjuto Campos, faz saber , "Prefeitura de Belo Horizonte - AVISO AOS DONOS DE ANIMAIS EM BAIRROS E VILAS - Cientificamos aos senhores proprietários de cavalos, cabras, carneiros, bois e vacas, cuja criação é feita de maneira irregular, soltos pelas ruas, que sua retirada ou segregação deve ser feita no prazo máximo de dez (10) dias, sendo que a qualquer titulo é proibida a manutenção desses espécimes de animais em edifícios de apartamentos".  E segue-se a assinatura do zeloso diretor acima referido.  Isto, caros leitores uagaenses. prova que Belo Horizonte vai entrar nos eixos, em questão de animais.  Não pode mais ter boi, cavalo e vaca na rua e - o que é mais importante - a ressalva é clara ; sendo que a qualquer titulo é proibida a manutenção desses espécimes de animais em edifícios de apartamentos portanto, leitores belo-horizontinos, se algum de vocês mantém algum cavalo (ou mesmo égua) na área de serviço do seu prédio, se você tem algum boi sendo criado - digamos - no seu banheiro, ou alguma vaca no elevador, trate de se desfazer desses bichos. ainda que sejam de estimação.  A lei é para todos.  

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Um homem e a sua vida

Yehuda Amichai (1924-2000)
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro


Um homem não tem tempo na sua vida 
para ter tempo para tudo. 
Não tem momentos que cheguem para ter 
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes 
está enganado acerca disto. 

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante, 
de rir e chorar com os mesmos olhos, 
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras, 
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor. 
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer, 
de planear e confundir, de comer e digerir 
que história 
leva anos e anos a fazer. 

Um homem não tem tempo. 
Quando perde procura, quando encontra 
esquece, quando esquece ama, quando ama 
começa a esquecer. 

E a sua alma é erudita, a sua alma 
é profissional. 
Só o seu corpo permanece sempre 
um amador. Tenta e falha, 
fica confuso, não aprende nada, 
embriagado e cego nos seus prazeres 
e nas suas mágoas. 

Morrerá como um figo morre no Outono, 
Enrugado e cheio de si e doce, 
as folhas secando no chão, 
os ramos nus apontando para o lugar 
onde há tempo para tudo. 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

E poupai nossos tímpanos... amém!


Acurada pesquisa histórica acaba de demonstrar que a praga das vuvuzelas é muito mais antiga do que até agora se imaginava. No flagrante vê-se o tormento de um velho senhor frente a um ataque do malfadado cornetão.

domingo, 20 de junho de 2010

Mineirices

"Mulher com fome é um trem difícil". Frase mineiríssima de meu filho, hoje, em conversa à toa.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Claro que é amor

Concordo com quem disse que o Twitter, e por desdobramento o Facebook, é um serial killer do tempo ocioso. Mas, fazer o quê se ora ando me comovendo por seus dentes pontiagudos, penetrantes. Bom, num desses bate-bolas, no FB do Marcinho Borges, surgiu, a partir de antiga foto no Colégio Estadual, colégio da vida de muitos de nós, uma conversa sobre o Éder Simões, mestre-mór de não poucos. Raquel, sua filha e minha amiga, diz acreditar que seu pai teve com a gente uma relação que "pode ter sido amor". Marcinho, com quem partilhei aqueles tempos, confirma. Eu mato essa bola no peito, e tento chutar pra gol. Transplanto de lá o que escrevi, para registro:

Claro que é amor, posto que ainda pulsa e, agora mesmo, me cutuca naquela área das emoções máximas, não carentes de razões para existir. Vou no embalo. Se não abracei a escrita como ofício, foi porque não acatei o estímulo do mestre Éder.
Entreguei, meninote, ao Éder, uma redação de tema livre, a que dei o título de "Guevara: herói ou mito?" Li, e ouvi, como avaliação, palavras que abriram rumos, nortearam passos, e até hoje ecoam. Não compete aos mestres, e felizmente, saber o alcance de suas sentenças, nem se responsabilizar por elas. Viva a sabedoria!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu e as brisas


Corredores da Fafich-UFMG, bolsinha de pano pendurada, quase jovem professor, ainda na era das fieis muletas. Finais dos anos 70, por aí.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Comendo do bom e do melhor

Gosta de uma fodinha quente? Ou é mais chegado a um tique-taque no redondo? São opções, na certa gostosas, no cardápio do restaurante Os Telhadinhos, situado no Minho, Portugal. A informação foi pinçada no Blogstraquis, do Moacir Japiassu:

Cardápio do restaurante Os Telhadinhos, de Ponte de Lima, Minho:

- Fodinhas quentes (pataniscas de bacalhau)
- Escarrapachadas quentes (codornizes)
- Biquinhos de amor (caprichos do mar)
- Tique-taques no Redondo (coração de frango no prato)
- Vanico de Ronca (orelha de porco)
- Perigoso na Racha (Fígado de cebolada no meio do pão)
- Corno na Racha (prego no pão)
- Com Sola na Racha (panado no pão)
- Mamadeiras Quentes (coxas de frango)
- Mentirosos Quentes (bolinhos de bacalhau)
- Corninhos de Marcha Lenta (caracóis)
- Chupões de Molho Verde (polvo em molho verde)
- Cu de Galinha Recheado (atum, cebola e salsa)
- Saquinho Cheio (rissol)
- Charuto da Avó (pão misto com salsicha)
- Cociguinhas feitas à mão (punheta de bacalhau)
- Meia Queca (meia tigela de vinho)
- Queca Cheia (tigela cheia de vinho)

As fodinhas podem ser embrulhadas (no guardanapo), na racha (pão) ou no redondo (prato).
Todo o menu pode ser acompanhado por uma Putinha(malguinha) de "bom vinho de lavrador", garantiu a proprietária Márcia Abreu.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Salve Brasília! Salvemo-la...

Millôr Fernandes havia dito, n'A Bíblia do Caos: "Brasília é o desnecessário tornado irreversível". Acho e não acho. Dou a Brasília meu repúdio pelos danos que ela causou ao exercício do poder político entre nós, mas dou-lhe, ao mesmo tempo, minha paixão por aquele projeto urbanístico onde eu adoraria viver, talvez um olhar viciado de cadeirante, iludido pela planura e pelos amplos espaços públicos.

Há exatos 50 anos, lembro-me, menino, excitado com aquele dia da inauguração de uma cidade meio maluca que ocupava todos os assuntos e revistas ilustradas, como O Cruzeiro e Manchete, das quais eu era viciado leitor. Arquitetura revolucionária, Juscelino, festas badaladas da mais fina elite, lamúrias por um Rio de Janeiro usurpado em seus sentidos e vocações, cenas de um cerrado então exuberante, entrevistas com brasileiros que haviam acorrido de todos os rincões em busca da nova vida que a cidade prometia. Entre os tantos encantos da data, um, no entanto, amarrava especialmente minha atenção.

A TV Itacolomi (dos Diários e Emissoras Associados), canal 4, prometera integrar Minas Gerais ao link para a primeira transmissão de um evento que se ambicionava mostrar, de modo simultâneo, a pontos diversos de um país então imenso, por inalcançável à mesma imagem televisiva. Num ousado projeto, daqueles à la Chatô, aviões ficariam sobrevoando áreas diferentes no espaço aéreo entre o Planalto Central e as principais capitais do sudeste. O sinal da transmissão passaria por antenas situadas nesses aviões até pousar nos precários links já existentes. Vai dar certo? Chega, ou não chega? De repente, imagens meio piscantes, naquele preto e branco embaçado, inundaram nossas casas. Brasília estava sendo inaugurada ao vivo. Era a emocionante vitória de uma modernidade que desde sempre me envenenou.

Brasília vingou como cidade e como monumento tombado pela admiração mundial. Mostrou-se profundamente brasileira ao gestar nos seus entornos um cinturão de pobreza, mesmo de miséria, depósito daqueles a quem se reservou só despojos do sonho imenso. Nos rastros de sua breve história se arrasta uma dúvida insanável: o que teria significado a nova capital para nossa convivência política, para nossa vida republicana, se metade de sua existência não tivesse se passado sob os tacões da ditadura militar, com suas regras tão próprias para a organização do poder, para a distribuição de benesses e para cevar "lideranças" viciadas e carcomidas?

Penso Brasília como sonho e pesadelo. Linda sob aquele céu azul, emoldurada pelo infinito de seus horizontes, nela floresceram fartos espaços sombrios, aparentemente adequados à política safada e aos negócios escusos. O que lhe falta, não como cidade, mas como capital do Brasil, já que esse era seu desenhado destino? Porque, ali, parte preponderante dos agentes políticos sentem-se tão desobrigados dos temores devidos à pressão popular numa democracia que se queira moderna? Quando ela se tornar secular, quase adulta, os de vocês que porventura ainda pelejarem por aqui, talvez tenham arrancado dessa Brasília de todos nós alguma resposta, quem dera até alguma transformação positiva. Por enquanto, creio, o melhor a fazer é amá-la com cívica paixão, é ficar do bom lado nas lutas que ali se derem. Parabéns!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Memórias do amanhã


Hoje eu acordara meio enviesado, encarando a vida com olhar de "perro herido", como dissera o Neruda. Lembranças instáveis e vácuos esganando desejos e planos, tal uma madrasta malvada moída por ciúmes. Ando meio assim. É a fase, diriam uns; coisas da idade, rebateriam outros. Meu médico, descompromissado com meus devaneios sem valia, recomendaria um reforço no uso da maquininha que me ajuda a contrariar os truques malévolos do CO² preguiçoso que andou abusando da hospedagem que lhe dei.

Foi quando me chegou um email do amigo Pedro Paulo Cava, acompanhado de uma foto, pedindo ajuda na identificação dos personagens, coisa de um livro virtual de memória que ele pretende fazer. Putz, pensei, mais recuerdos, mais memórias num dia assim, desses que parecem sem amanhã. Mas, não. O coração deu uma sacudida de energia, a consciência estranhamente se alinhou rumo ao horizonte, o corpo reconheceu a postura do querer. Frágil mistério. Logo percebi que ali estávamos nós, naquele 1969, absolutamente certos de que o futuro dependia de nós. E era exatamente o onde e o como meu filho, Ique, hoje se encontra. A chegada da vida universitária prenhe de perguntas e esperanças, e acho que imbuído daquela mesma velha certeza sobre o futuro. Senti o quanto não devo, o quanto não tenho o direito de embaçar esse brilho em seus olhos.

domingo, 14 de março de 2010

Houve o dia do não ir

Armanda Alves

Pois é, desses aniversários comuns, dos quais me lembro em cada julho, já acumulei uns 61. Desses que se contam desde aquele dia, maldito para tantos, não pra mim, em que uma mãe sentencia: "chega, cansei, vá à luta". Vem o choro, e o calendário começa a piscar, implacavelmente. E a vida corre, em ritmos diversos, sob canções várias, até que a cortina despenque ante a cena. Aplausos? Sempre sobra algum.

O aniversário que comemoro hoje é de outra espécie, meio paradoxal, posto que começa de um fim imaginado, mais que isso, de um fim pressentido. Aniversário menos compulsório, desejado, não carente de comemorações. Aniversário que se basta na constatação. Há exatamente um ano a vida ameaçou parar. A respiração perdeu seus rumos, o CO² em ataques certeiros se apossou dos miolos e das entranhas. Pane e veneno. CTI às pressas, e a grande e longa batalha: vai, não vai... vou, não vou... vai, não vou... Meus amores na ante-sala pescrutando olhares e palavras de quem se dispusesse a contrariar as aflições. Não fui, fiquei, como se pode constatar com certa habilidade e percepção.

E esse ano, com jeitão de bônus, passou rápido, com brilhos novos. Vida meio replanejada, restrições que não chegam a aborrecer muito, o Bipap, maquininha fantástica, de aluguel caríssimo, velando por meu sono e por algumas horas do dia, insuflando-me ar nos pulmões, levando alento ao diafragma combalido. Hoje, qual uma mula vivida cerceada por antolhos, reaprendo a olhar em frente, a caminhar rumo ao adiante. E que assim seja. Ponto.

Alguns episódios daquele dia, e dos que seguiram,estão contados nos primeiros "posts" desse blog.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ave Glaucus!!!


Ai de mim! Ai de nós! Fim de meus devaneios eróticos, sempre girando em torno aos peitos de dona Marta, agora que ela morreu. O assassino babaca que hoje matou o Glauco ( e seu filho Raoni), matou muito mais do que conseguiria imaginar. Matou um bocado da nossa graça.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Delírios de uma paixão


Tutuca, velho sacana, sua obra-prima de 3º grau drenou as últimas gotículas que me restavam de auto-estima. Estou arrasado. Dei instruções à família para adicionar tal delírio gráfico ao que restar de mim na hora, que vou adiando, em que autoridades mais ou menos competentes, em consonância com suspiros derradeiros, derem a sentença: "cara, a festa é finda, chegou a hora da fogueirinha ..."

Em tempo: eu nunca, nem assim decadente, aceitaria posar com um top naquele tom de rosa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Nevada nas Geraes

Minas se aperfeiçoa nas trilha do provincianismo personalista, talvez se espelhando nas virtudes do Maranhão de Sarney. Se for embarcar no Aeroporto Presidente Tancredo Neves, você passará ao lado da Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Mas, no caminho, se sua saúde der pane, não se preocupe: você poderá ser atendido no Pronto-Socorro Risoleta Neves.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Levante sua Voz

Aos que carregam a ânsia de serem mais que meros consumidores de informações e opiniões alheias, aos que julgam valer lutar pelo que acreditam, aos que já descobriram que só numa sociedade democrática e justa encontraremos paz para viver, esse vídeo é mais que ilustrativo, é indispensável.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

De retenções e arrepios

Gosto muito de dirigir, em especial quando o chão é uma estrada. Sou motorista há quase 40 anos, época em que entregar uma carteira de motorista a um deficiente físico não era fato comum, tratado com a quase normalidade de hoje, conquistada com muita briga. Acumulei experiência, aprimorei o tino para a arte de conduzir o carro, sentindo-o como extensão tecnológica do corpo. Para mim, quase sempre, dirigir é liberdade e prazer.

Por razões diversas, há dois anos eu não enfrentava um bom trecho de estrada. Temi por minhas condições físicas atuais, cheguei a trocar uma idéia com o médico sobre a questão, mas bastou meia horinha de asfalto para me restituir a confiança. Sempre fui bom motorista de estrada, quando menino ser caminhoneiro era o sonho profissional que mais me estimulava. E lá fomos, Katinha, Ique e eu, para uma dezena de dias em Teófilo Otoni, nordeste de Minas, na dita "Pensão Ideal", também conhecida como casa de meus sogros, Seu Carrin e Dona Filhinha. Viagem tranquila, gostosa, apesar da estrada lotada e de uma retenção de uma hora, sob o sol do meio-dia, diante da obra de um gasoduto, coisa assim.

A volta se dava no mesmo ritmo e jeito, as retenções tendo passado de uma para duas. E foi na segunda delas que se deu o episódio que ainda me arrepia. Uma boa meia hora antes, numa subida forte, eu havia ultrapassado uma carreta, tipo cegonha, placa DPC-4846, que, sem carga, trafegava de modo tresloucado rumo a Belo Horizonte. Depois disso, era olhar no retrovisor e, quase todo o tempo, vê-la em sua desabalada carreira. Tentei, e consegui, abrir uma boa distância. Mas, aí, vem a segunda retenção, e me vejo posicionado, na fila parada, pouco depois de uma curva. Fui parando, mas todos os instintos se acenderam. Sem visibilidade de minha retaguarda, acho que fui movido pelo chacoalhar distante daquela carroceria vazia. Pedi à Katinha para acionar o pisca alerta, abanei o braço pela janela, na tentativa vã de sinalizar o perigo. Tudo num fiapo de segundo. Aumentou o chacoalhar do caminhão, enfiei o carro pelo acostamento estreito, onde havia algumas pessoas, e só deu para escutar a frenagem violenta, os pneus arrastados no asfalto.

Olhei para trás, a carreta estava quase atravessada na estrada, e ocupava exatamente o lugar onde estaríamos se não fosse aquela saída de emergência. Troquei olhares amorosos com minha mulher e meu filho, aliviados. Sabíamos que uma grande desgraça batera na trave. O motorista de outro caminhão, que estava ali parado, veio praguejar contra o colega de profissão e elogiar minha perícia na situação. Observou que meu carro era adaptado, e quis saber, solidário, se o tremor de minhas mãos se devia ao ocorrido, se eu estava em condições de seguir viagem etc. Agradeci, e disse que aquele tremor era meu mesmo, normal, o que era só uma meia verdade. Sempre tremo, ao menos um bocadinho nas horas calmas, mas ali minhas mãos refletiam o coração, que ainda parecia palpitar no gogó, perto da boca. Ainda sinto uns arrepios, só em contar o caso.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Lamas da memória num Ano renascido

Se existe, como existe, a memória afetiva, certamente existirá algo como uma, digamos assim, memória efetiva. O estímulo externo se intromete despretensioso, e, como se do nada, torna-se um soco no peito. Não produz o abafamento tão conhecido pelos apaixonados ou saudosos, mas traz de volta uma aflição medonha, como se um fato vivido, ou presenciado, ameaçasse se repetir, e sem nenhuma razão objetiva ou aparente. Algo como um pesadelo relâmpago que nos surpreende acordados ao ver, como no presente caso que me toca, imagens na TV e nos jornais.

Meados da década de 1960, lá fui eu com uns amigos de colégio, e adjacências, encontrar o mar. Não me lembro se foi meu primeiro ou segundo contato com o reino de Iemanjá, só sei que meu amor pelo mar se tornaria eterno e infinito, apesar dos tão, e cada vez mais, raros envolvimentos. No compartilhamento daquele final de adolescência, o grupo era puro ânimo e muita gentileza. Na certa, generosidade também não faltava, posto que minhas muletas e meus aparelhos ortopédicos certamente exigiam dos parceiros algumas constantes intervenções de apoio naquele ambiente adverso, e estranho para meus hábitos e treinamentos. Minha família não era afeita a férias e viagens, eu não tinha traquejo para tais convivências e enfrentamentos ambientais.

Ficamos instalados num velho casarão, secular, de largas paredes de pedra, porões, e piso de longas tábuas corridas que produziam aqueles ruídos singulares, ecoando os passos. As paredes brancas, as janelas e portais azuis, compondo a distinção devida naquele vilarejo habitado por pescadores e eventuais, mas não muitos, turistas. À pequena distância do mar, erguido numa pequena elevação, o casarão produzia na imaginação dos que por ali passavam reflexos de sua própria história. Logo atrás no vilarejo, a beleza da serra do mar num paredão íngreme, invadida por algumas extensas plantações de bananeiras, que, aliás, davam algum fôlego econômico à vida simples do lugar. Diziam que Monsuaba era uma corruptela do francês "bon soir!", e que fora assim que o lugarejo herdou tal nome, já que sua posição geográfica, como se na curva de pequena península, fizesse do sol da tarde o espetáculo inesquecível, e não do sol matinal, como na maior parte do nosso litoral.

O que aqui relato só brota dessa memória subitamente despertada em choque, na qual a imaginação e a fantasia podem ocupar lugar maior que o pretendido e desejado pelo relatante. O município que albergava tal paraíso era Angra dos Reis, RJ, e a tal localidade era bem vizinha dos estaleiros da Verolme, um monstro que parecia bem estranho aos pacatos rítmos da dita Monsuaba. Naquele verão, as chuvas intensas e persistentes arrasaram o vilarejo, as águas subiram, cobrindo e arrastando as construções em sua parte mais baixa, fazendo da praia um lamaçal, ao qual se misturavam restos de casas e de plantas, em especial de bananeiras que escorreram junto com parte do morro. Com a queda das pontes de acesso, o vilarejo ficou em completo isolamento, moradores e turistas dividiram, amontoados, espaço nas casas e lojinhas mais altas, e a comida ficou racionada até que ajuda mais efetiva chegasse, um ou dois dias depois, por mar. Lembro-me que todos lamentavam muito a morte de uma senhora, muita querida, vitimada por uma viga de sua casa desmoronada.

Naqueles dias de sol que antecederam a catástrofe, o que mais se ouvia no rádio era outro explosivo sucesso de Roberto Carlos, "A Namoradinha de um Amigo Meu". Porque me lembrar disso? É que, justamente, a música fazia uma crônica cruel do que se passava comigo, envolvido que eu estava, meio clandestinamente, com a namoradinha caiçara do amigo que me convidara para tais dias inesquecíveis. Ela, menina bonita e sestrosa, filha de pescador, que via no verão a chance de se ampliar no mundo; eu, com os charmes específicos que a deficiência física sempre fora ensinando, ostentanto um rabo-de-cavalo raro para a época, e usando um sorrisão como arma secreta, usufruindo do tempo extra de vagabundagem que eu gastava por ali mesmo, à sombra das árvores, enquanto a turma fazia passeios e caminhadas que não me eram acessíveis. Acho mesmo, e me perdoem a arrogância, que o ambiente encantado do lugar se compatibilizava mais com minha quietude que com a desperdício exacerbado de energias daquela rapaziada, mas, a chance de ser puro despeito não deve ser desprezada.

Era na casa de tal cobiçada donzela, a noite já tendo imposto seu manto, que eu estava quando a tempestade caiu de vez. Casa simples, de alvenaria, construída na beirinha da areia, quase sem diferença de nível com o mar. A água se infiltrando por debaixo das portas, e as imagens revêm com nitidez, marcou o primeiro alarme. Raios, estrondos, as águas não paravam de subir. Senti a barra ao ver o nervosismo na face daquele homem experiente, forte, domador dos medos da pesca. Ele decidiu que levaria a mulher e os filhos para a parte mais alta do lugar, e que voltaria com ajuda para me resgatar. Eu explicara a ele a dificuldade de meu deslocamento em tal situação, inclusive pelo peso dos aparelhos metálicos que me envolviam as pernas, e de minhas inseparáveis muletas, à época Sucupira e Rosa Amélia (posteriormente elas foram rebatizadas algumas vezes, inclusive homenageando mães de amigos). Tomou ele, ainda, a iluminada providência de me deixar em pé sobre a cama de casal, onde eu teria ao alcance das mãos umas peças de madeira para me sustentar, caso a coisa piorasse. E foi o que aconteceu.

É inacreditável como as catástrofes podem evoluir como se elidindo a dimensão do tempo, em especial para quem se surpreende diretamente no alvo. Os clarões que os raios produziam lá fora me faziam ver o quanto e quão rápido as águas e a lama subiam. A base da janela do quarto já sumira sob tal maré. A água envolvia minhas pernas, eu nem via mais a cama sobre a qual me mantinha. Achei que era o fim, e pelo que me lembro, talvez aqui a memória se predisponha mais ainda a dar ares dramático ao roteiro, senti-me calmo, ao menos desespero não havia.

Para os que, como eu, não transitam no sobrenatural, conto em paradoxo: vozes de anjos invadiram aquela solidão em que me encontrava. "Ei, companheiro, aguenta firme... fica calmo... a gente veio te buscar", e, felizmente, não eram vozes de nenhum além. Eram dali mesmo, de gente corajosa e solidária. Entrou o primeiro cara pela janela, amarrado a uma corda, e com outra para me amarrar. A gente só se via quando os raios faziam luz. Logo um outro se postou no vão da janela, estendendo a mão. Ao todo eram quatro ou cinco homens, gente dali. Quando ele passou a corda em volta do meu peito, pois não havia outro modo para enfrentar correnteza tão feroz, abracei-me às muletas com um dos braços, e deixei o outro ser puxado. Vem aqui, nesse ponto da lembrança, um tremendo turbilhão: os caras gritando entre si, água entrando boca e nariz adentro, as costas se escalavrando, sem profundidade, numa cerca de arame farpado que boiava entre grandes folhas. E puxa, e puxa, e vai, e grita, e puxa... e eis que de repente, não mais do que de repente (parafraseio o poeta...) terra mais ou menos firme sob o corpo. Fiquei um pouco deitado na escada de uma casa, sob chuva, agarradinho às muletas, sentindo-me mais inteiro que nunca. Aqueles homens comemoraram, me abraçaram, se abraçaram, e logo me carregaram para uma espécie de bar/mercearia, onde já estavam meus amigos de viagem, aflitos, e boa parte da população do lugar.

Mas a alegria, que era só minha, quase obscena em meio a tanta desgraça, não terminara. Pouco tempo depois, não sei quanto, eu ali me refazendo, tendo tomado uma pinga, comido algo que me deram, uma voz me conclama apavorada: "porra, olha lá o que virou...". O próximo relâmpago revelou a cena. Pelo que dava pra ver, apesar da distância não ser longa, daquela casa onde eu estava só sobrara a base, os alicerces. A luz no amanhecer seguinte tirou qualquer dúvida. Demorassem mais algum tempo, na certa pequeno, aqueles anjos caboclos a me buscar, e na certa me encontrariam nas misturas daquele lamaçal que só dias depois passou a ser revolvido. E essa lembrança agora me emociona, muito, me deixando em estado de fusão solidária com os que agora comemoram seus sobreviventes, ou buscam e choram seus mortos, talvez ainda sob a lama que invadiu a mesma Angra dos Reis, ou aquela que rasgou trágica cicatriz num dos paraísos da Ilha Grande. Na certa a entrada do Ano Novo, e esse tão especial pra mim, agravou esse aperto que agora sinto no peito.