Dancinha

Dancinha

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Deficiências na memória

Hoje, um dia comum, carrega, como outros dias comuns, comemorações daquelas que a midia repercute menos, ou mais, dependendo da conjuntura e dos humores diversos. Além do Dia da Árvore, hoje foi também uma data de apoios, meios difusos, às lutas dos deficientes físicos.
Noutros tempos, talvez, eu estivesse mais envolvido com as comemorações e com as reflexões concernentes. Fiquei vendo as referências dispersas na midia, e até a citação que o Manoel Carlos introduziu em sua nova novela global. Nostálgico, quem sabe, pus-me a escavar os fundos de meus HDs, buscando algo que não me deixasse assim em silêncio.
Pesquei um texto memorialístico que postei num antigo blog, e que o fantástico site SACI publicou em dezembro de 2003. Vamos a ele:

Memórias. Corria o ano de 1981. O general Figueiredo governava o Brasil, distribuindo coices e promessas de abertura política. A economia transitava entre o milagre e a nova crise que se desenhava. Casado havia três anos, e com a carreira de professor bem encaminhada, eu não gastava esforços com pessimismo ou queixas. Minhas energias pareciam bem distribuídas, os focos estabelecidos. Mas, quem controla a própria vida? O amanhã só tem graça por estar sempre prenhe de surpresas. "Previsível de verdade só a morte", insinua a sabedoria popular.

Já desisti de tentar saber a origem primeira do convite que, naquele ano distante, iria bulir com minha existência e meus interesses. Fui convidado para dar uma palestra no grande evento que marcaria aquele como o ano internacional das pessoas com deficiência, promovido pela ONU e outras entidades. O evento seria realizado no monumental, mas hoje finado, Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Aceitei por instinto, a tremedeira deixei para depois. Porque eu? De deficiente eu só tinha a longa, e bem sucedida prática (modéstia à parte). Nunca sistematizara, ou fizera teoria, sobre o que este aspecto secundário de minha vida impusera à minha consciência e à minha sensibilidade. O tema que me encomendaram era algo como "barreiras arquitetônicas" e urbanísticas com que se deparam os deficientes. A ansiedade quase que só me deixou rabiscar umas idéias gerais.

O tempo correu lépido e distraído. Logo eu estava lá, instalado num luxuoso apartamento com vista para a praia de São Conrado. O Centro de Convenções, no próprio hotel, parecia um aeroporto internacional ou a portaria da ONU: gente de todo tipo, línguas e roupas para qualquer gosto. De cara, fui atacado pela pulga atrás da orelha: tinha deficiente de menos naquela festança. Não estaríamos os deficientes aptos, ou preparados, para expor nossos planos e experiências? Mas logo eu descobriria que realmente não estávamos. Desde a abertura dos trabalhos, ficou claro que o clima de tutela seria preponderante, e não por malvadeza ou picaretagem dos organizadores, mas porque simplesmente não havia, naquele tempo, outro caminho. Um pensamento "dos" deficientes só foi construído daí para frente, e duramente.

Vi duplicada minha responsabilidade. Eu estava condenado a fazer bonito na minha apresentação, talvez pelo fato de que eram raros os deficientes palestrantes (e, no caso, eu ainda me supunha um palestrante deficiente). Eu sentia muitos olhos me examinando, por vezes curiosos. Então chegou minha hora, no segundo ou terceiro dia do Encontro. Calculei minha cara mais inteligente, enverguei a camisa nova, segurei junto à muleta a pasta com minhas anotações, e lá fui.

No grande auditório não havia cadeira vaga. No palco, havia uma longa mesa ornada, ainda vazia, mas com os microfones já a postos. Encostei-me perto da porta, nervos controlados, aguardando socorro da intuição. O coordenador abriu a sessão, fez algumas considerações, e, logo, passou a convocar os palestrantes que, se não me engano, seriam quatro naquela tarde. Chamou o primeiro, logo depois o segundo. Eu seria o próximo, mas um calor se antecipou em meu peito. A intuição se intrometeu, me dando a grande pista. Bingo!!! Ouvi meu nome e desloquei-me em direção ao palco. Olhei, de um lado, a escada. Caminhei até o outro extremo. Escada também. Lá de baixo, ao nível das cadeiras, dirigi-me ao coordenador e disse algo assim: "em reverência política ao ano consagrado aos deficientes, e em protesto contra a falta de adaptação de um ambiente com tal destinação, vou me recusar a ser carregado. Estou reivindicando a descida da mesa para este nível, como ato simbólico de apoio à causa e às necessidades dos deficientes físicos". Evidentemente, essa foi uma fala emocionada, e sem a clareza bem articulada que aqui se apresenta com a escora da escrita e a auto-complacência da memória.

Um desajeito no ar, algum constrangimento, e logo aplausos e palavras de apoio. Muitos se apresentaram para ajudar na mudança da mesa e dos equipamentos. Criara-se um clima interessante, bom para se plantar coisas novas. Senti que tinha acertado num alvo que eu ainda não conseguia distinguir. Esse gesto também ativou em mim o impulso de militância. Eu que tinha tido até então, aqui e acolá, uma persistente mas discreta militância política, pressentia que nova frente de luta se abria naquela hora. Deficientes, seus direitos, sua cidadania, tais coisas dariam estofo para boa e digna luta? Ali tive certeza que sim, e sem planejar, me dispus a ela, dentro de minhas parcas possibilidades.

Duvido que alguém tenha saído daquele auditório mais tocado do que eu mesmo. Usei o ocorrido como gancho, e palestrei com o coração, com uma história que eu não suspeitava contida ali dentro. Contatos, trocas de endereços, os primeiros convites para encontros e outras palestras. Topei a briga, fiz do verbo a arma, circulei e falei muito nos 15 anos que se seguiram. Durante um bom tempo o episódio da mesa que desceu vinha à tona quando me apresentavam num evento ou numa reunião. Mais recentemente, quando a saúde andava trôpega, sobreveio desânimo e ceticismo. Falar mais o quê? Para quem? Meu tempo passou, soava clara a sentença. Mas o tal veneno é perene em seu contágio. Foi a conta de abrir um pouco a guarda, com a descoberta do blog, e ele se infiltrou sem disfarces. E me deixa aqui, assim, meio menino, brigando pela atenção de cada caro leitor.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

De coronel e demagogo, todo mundo tem um pouco

O ilustre jornalista Luis Nassif postou ontem, em seu super concorrido blog, um texto a que deu o título de "O 'Coronel' é mais sofisticado que a mídia. Clique aqui se desejar lê-lo.
O Coronel no caso é o senador José Sarney, e a criticada é a midia nacional, em especial os jornalões, que teriam ouvido com má vontade o discurso do senador no plenário, retirando dele detalhes que o caracterizariam como inimigo da imprensa. Hoje, Nassif agregou ao blog a íntegra do denso e longo discurso de Sarney.

Postei o comentário que reproduzo aqui: "Caro Nassif, acho que em nome de uma obsessão com uma tal de mídia golpista (e sem dúvida ela é conservadora e concentrada), você, com o brilho de sempre, acaba conduzindo a discussão rumo a idealizações improdutivas. Só posso analisar a mídia a partir daquela existente, condicionada em termos históricos e ideológicos. E, com a devida vênia (diriam os magistrados), não posso me permitir a leitura das reflexões de Sarney sem considerar algo essencial: a família Sarney é uma grande proprietária de veículos de comunicação, quase monopolista no infeliz Maranhão. Eles estão entre os apaniguados da ditadura, ali onde se consolidou a grave concentração da mídia em poucos, em geral familiares. Sendo sociólogo e professor, talvez por vício profissional tenho dificuldade em absorver a súbita golfada iluminista do presidente do Senado. De todo modo, a discussão é relevante, e você tem o perene mérito de não deixar essas bolas cairem. Receba minha admiração."

Poucos minutos depois, demonstrando, inclusive, a atenção que dedica a seus leitores, Nassif retrucou: "Imagine se fosse exigir currículo de cada análise feita. Até o Ali Kamel pode produzir belas análises. O grande desafio intelectual é avaliar a análise em si."
Algumas horas mais tarde, tendo eu lido, e relido, o discurso, e a resposta que recebi, não me contive e voltei à arena do debate. Disse eu: "Não, caro Nassif, não se trata de currículo. Se encontrasse hoje um texto de Hitler sobre a bondade humana e suas virtudes, eu não poderia lê-lo me atendo à simples análise. Os homens públicos têm história, e respondem por ela. Sarney não tem legitimidade, nem história, para produzir análises isentas sobre o caráter anti-democrático da mídia etc. Pode ser uma ótima análise, mas não posso considerá-la sem levar em conta a vinculação intelectual e moral do eventual autor. Sarney é conservador, proprietário de mídia, tem uma postura política feudal em seus “dois” estados, e, certamente, não é esquizofrênico para conseguir produzir um discurso deslocado de suas posturas e posições pessoais e sociais. Está meio complicado, né, mas o tema é árido. E, por favor, não veja nisso sombras daquilo que um dia meus contemporâneos chamaram de patrulha ideológica. Um abraço."

E nada mais se disse, por enquanto.

Charme materno

Nessa matéria, da TV Globo MG, a dona Regina, segunda entrevistada, cadeirante que nem eu, é minha mãe, minha ídola, minha musa... e, dá-lhe Édipo!

Quando o tempo parece não passar

A emissora é governamental, mas, pelo jeitão dos apresentadores, parece que erraram de convidado. Não é de agora, mas permanece impagável...







quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O povo adora ele

Katinha, minha mulher, garimpou um texto que escrevi em 14 de abril de 2006, e postei num antigo blog, hoje hibernado, mas que já teve seus dias de ânimo. Ela sugeriu, e agora executo, sua republicação, talvez por seu tom algo profético. O texto é de 2006.

Outro dia, faz pouco, na portaria da clínica, enquanto as pupilas não se adequavam aos tamanhos exigidos pela doutora, estiquei a conversa com o porteiro solícito e de conversa boa. A vista já não conseguia decifrar o jornal repleto de previsões sobre a iminente queda do Palocci. E de fato, horas depois ele tombaria, puxado pelo tamanho e peso do nariz pinocchiano. Disse o porteiro, fala mansa, fino analista:

- “Estão querendo derrubar o Lula. Não adianta, o povo adora ele. Nem se derrubarem o Palocci, o Lula cai.”

Atiçado pela firmeza do comentarista político de balcão, tentei saber mais, enquanto a doutora não me chamava. Perguntei:

- “E o PT, como fica?”

Retrucou ele, sem pestanejar:

-“Nem me fala, moço, é igualzinho os outros. Está cheio de ladrão, de cara que só quer o dele...”

Interferi:

- Mas o Lula é do PT?”

Ele, sem perder o rítmo, sentenciou:

- “O Lula não está nem aí pra eles, ele não precisa. É o povo que vai dar a reeleição para o Lula. O senhor gosta dele?”

Uma campainha o convocou para suas tarefas. Não tive tempo de responder, e foi melhor assim. Recostei a cabeça, fechei os olhos cansados, mas ainda e sempre surpresos. Fiquei pensando na largueza do mundo, na precariedade perene de nossas análises.