Dancinha

Dancinha

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dicas para ser um non (ou pouco) sense

...ter problema de auto-imunidade e aceitar beijo no coração...
...fazer a dança da chuva para nuvens de poeira...
...insistir em sexo oral com tubarão...
...coçar o saco com mãos de tesoura...
...beijar a morte e morrer de tesão...
...apostar sozinho na roleta da vida...

Azedou o caramelo.



A mídia se atropela em busca de furos, ou, ao menos, de um destaquezinho na cobertura da tragédia na área serrana fluminense. Tragédia de verão, como aquelas que há anos vêm quebrando o galho dos jornais, TVs e rádios nessas épocas de tradicional vácuo noticioso. O mico-mór dessa temporada, imbatível até agora, ficou por conta do tal cachorro Caramelo, aquele que teria ficado zelando pelo sono eterno de sua dona, deitado ao lado da sepultura cavada às pressas.


Rodolfo Júnior, voluntário que ajudava na tarefa urgente de se abrir as covas, levantou seu protesto. O cachorro que aparece na foto que comoveu o mundo é, em verdade, o John, fiel companheiro que o acompanha por toda parte, e ali estava só observando o seu trabalho. Parece que Caramelo até existe, mas sua história é outra. No Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim levantou o mico. Postei lá um comentário que reproduzo aqui:


Proponho um debate entre um representante da OAB, um das igrejas, um jornalista global, talvez o Merval, o governador Cabral (se prometer não fazer aquela ensaiada cara de choro), uma nutricionista (hoje quase não existem matérias sem a opinião da classe, e não me perguntem o porquê), e talvez um emocionável representante da tal comunidade. O tema? Caramelo é, ou não, portador de uma personalidade exibicionista? Caso o seja, que tipo de punição exemplar deveria ser imposta ao animal farsante? O momento é grave, a mídia não pode dar guarida aos que só querem aparecer.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Tema para uma insônia

"As ideologias nos separam.
 Os sonhos e as angústias nos unem"
                          E. Ionesco 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A hora é essa

Tutuca , dotado de raro espírito público, me avisa e convoca. É, enfim, chegada a hora. A luta dos cadeirantes chega a novo patamar. Chega de ver nossas vagas especiais usurpadas, acabou de vez essa sacanagem de insinuar que temos necessidades especiais. Seremos implacáveis com os pais babacas que se irritam com as criancinhas quando elas nos perguntam porque andamos assim, e passaremos com as rodas sobre os calos daqueles que se dirigem a cadeirantes como se conversassem com bebês, e dos mais retardadinhos. Negaremos gorjetas aos garçons e garçonetes que se dirigem a nossos acompanhantes perguntando o que vamos querer, e desprezaremos aqueles e aquelas que responderem a nossos olhares desejosos com sorrisos complacentes.


É apenas um começo.


Às armas irmãs e irmãos de rodas!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Revendo um velho amigo

Auspicioso 2011. Estava eu num domingueiro passeio pelo Diamond Mall quando, de repente, não mais do que de repente, bati o olhar sobre um amigo querido. A gente não se via de há muito, mas foi só chamá-lo, e os olhos de amizade rebrilharam, desconhecedores que são das ausências, mesmo as longas. 


Logo achegou-se a Laise, sua mulher, boa amiga, gente fina. Conheci Clara, sua neta, partilhei a mesa ainda com sua filha e seu genro. Foi um delicioso e comovido pequeno pedaço de tarde. Saí feliz com o reencontro, a cabeça revirando velhas histórias. Foi pouco? Parece. Hoje recebi email de uma amiga comemorando o texto que lera na última página do caderno de cultura do Estado de Minas. 


Ali, o poeta Fernando Brant, o tal querido e velho amigo, homenageava nossa amizade, e comovia esse velho admirador que ora vos fala com palavras de sua apurada lavra, pondo em encantado perigo esse coração que anda passando por provas, nem sempre tão doces. Orgulhoso da vida, reproduzo abaixo o texto da coluna publicada hoje:

REVENDO UM VELHO AMIGO



Estava de bobeira na esquina de um shopping, depois de dar uma olhada nas prateleiras de uma livraria e não me interessar por nada, quando ouço meu nome. Volto e dou de cara com a simpatia absoluta, o jeito de sempre, do Paulinho, movendo-se com naturalidade a bordo de uma cadeira de rodas. Ficamos às vezes um tempão sem nos encontrar com pessoas que valem à pena, que seguiram seu rumo, mas vivem na mesma cidade. Se não me engano, a última vez que abracei essa querida pessoa, foi durante a campanha presidencial de 1989. Lula foi à minha casa para ter uma conversa com o mundo cultural de Belo Horizonte. Houve Lula e eclipse da lua naquela noite.

Paulinho estava em minha lista e apareceu. Havia um porteiro que não queria deixar que ele entrasse. Ele dizia seu nome, Paulo Roberto, e não havia nenhum Paulo Roberto na lista. É que eu colocara ali o carinhoso, e estranho para muitos, apelido que lhe déramos: “Paulinho que acha ridículo andar de carro.” Vou explicar a alcunha. Observador, ele via as pessoas passando por ele, dentro de automóveis, e abstraía a existência do veículo. Assim, era engraçado imaginar os homens e mulheres falando e andando sentadas, passando diante dos pedestres e seguindo viagem. Com os ônibus era mais chocante. Dezenas de passageiros conversando, olhando a rua, se espremendo no espaço exíguo. Sem a carcaça do veículo era um espetáculo risível.

O fato é que ficamos ali, ele e sua mulher, eu e alguns dos meus, rememorando pessoas e fatos passados há muitos anos. Ele conserva o mesmo bom humor que o aproximava de todos. As dificuldades de locomoção que tem, ele as superou sem nunca se lamentar. Ao contrário, sempre fez o que projetou para si. Estudos, universidade, mestre durante anos na UFMG. Dele foi o primeiro carro que conheci (logo ele que achava ridículo etc) adaptado para quem não tinha todos os movimentos.

Encontrá-lo e abraçá-lo neste começo de ano, me deu força e alegria. Êta vida boa, meu Deus. Se o Paulinho existe, e se tantos amigos e amigas existem, se a cultura está aí para embelezar e pacificar a existência de todos, estamos salvos.

Confesso que guardo uma impressão de shoppings como lugar de encontro de outras gerações, não a minha. Tenho mania das esquinas ao ar livre, mas preciso admitir que isso foi caindo de moda, por causa da insegurança, poluição sonora e outros males das metrópoles. Para que tanto carro, tanta violência? Naquele começo de tarde, revendo e abraçando o amigo, eterno no sorriso e no bom caráter, vi que todo lugar é propício ao encontro. Necessário é que haja pessoas que valha a pena encontrar. Nisso eu sou rico.