Dancinha

Dancinha

domingo, 28 de junho de 2009

As rodas e os passos dessa vida

Eis aí a minha amiga Tchela, amiga que só agora, aqui, conheço em movimento. Explicando-me. Tchela e eu nos encontramos na internet, lá se vão muitos anos. Batemos muitas e muitas bolas sobre a vida, e, em especial, sobre as coisas desse mundo encoberto e sombrio da chamada deficiência física. Mundo de sofrimentos e realizações pessoais, de exclusões preconceituosas e vitórias interessantes sobre o medo, a inércia e o desânimo. Cenário de muitas histórias, e elas foram sendo contadas em nossos blogs respectivos (o Maré, blog da Tchela, foi um grande best-seller nesses primórdios da vida blogueira) durante, sei lá, quatro anos ou mais. Publicamos também crônicas, artigos e depoimentos em todo espaço de divulgação sobre a deficiência que se abria pela frente, em especial, talvez, no Saci, site sobre inclusão albergado pela USP. Ajudamos a engrossar as fileiras dos que hoje militam em favor da inclusão social, recorrendo também às letras e seus encantos. Acho que, lá pelas tantas, bateu um cansaço, apesar de acharmos, os dois, creio que ela me autoriza a fazer tal afirmação, que a vida dos deficientes físicos ficou um pouco menos penosa de lá para cá. Hoje sou leitor atento de vários novos blogs e sites sobre o assunto, e vou retomando uma coisinha ou outra. A Tchela não demora a voltar a campo, com sua sensibilidade e seu talento raros, e preciosos. Fiquei emocionado em ver a Tchela em ação, abrindo suas grandes asas rolantes sobre o Benê e sobre a dupla de pimpolhos. O amigo velho, aqui, se desmanchou em carinho e orgulho.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nova pandemia?

Você que tem visto, e principalmente ouvido, os jogos da Copa das Confederações, realizada na África do Sul, venha se juntar a nós. Especialmente se você integra, como eu, a imensa legião dos portadores de zumbidos diversos nos ouvidos. Estamos recorrendo à Fifa, à ONU e a quem mais de direito e dever contra o uso indiscriminado, e torturante, das vuvuzelas. Elas produzem sons muito mais perturbadores que vozerio em shopping-centers, que guerrilha de pernilongos, que briga de vizinhos quando se está morto de sono. Quem sabe se possa oferecer ingresso gratuito aos sem-vuvuzela, quem sabe condenar os produtores e distribuidores da cornetinha malígna à sessões de torturas acústicas, espetáculo politicamente incorreto para os intervalos das partidas. Algo tem que ser feito antes que o zumbido se alastre em pandemia. Exigimos os mesmos procedimentos preventivos hoje mobilizados contra outra praga contemporânea, a gripe suína. Vida breve às vuvuzelas!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vai assombrar a mãe, se é que você teve isso...

Fui selecionado mais uma vez para o rodízio macabro e desalentador. Hoje, quase hora do almoço, eu sozinho em casa, o telefone toca. Ligação a cobrar, coisa já em si incômoda, não raro portando problema ou arte de oportunistas. Toca a musiquinha, na dúvida decido esperar.
- "Ô, pai, me ajuda, pai... me roubaram tudo e estão com um revólver na minha cabeça... pai, o cara vai me matar..."
A voz desesperada lembrava a de meu filho, o que nessas horas não é difícil de acontecer. Respirei fundo buscando manter a calma. Joguei umas cascas de banana, fazendo o possível para ver se o vagabundo escorregava. Falei de suposta viagem, e que eu só esperava o retorno de meu filho para amanhã ou depois. Perguntei se tinham roubado, também, um carro fictício. Enrolei no que deu, sempre pedindo calma ao adversário. Inimigo aqui soaria mais adequado.
- "Porra doutor, você tá conversando demais. Daqui a pouco vai estar chorando, e não fale que não avisei", experiente, o filho de uma jumenta (conto com o perdão dos eqüinos) sentiu que tinha que retomar a ofensiva. Veio uma nova sessão de gritos, e o interlocutor afirmou que agora só falaria em resgate, e fim de papo. Pediu R$ 10 mil, sem demora. Eu disse, enquanto me organizava, que mais de dois mil seria impossível levantar com rapidez. Como ele topou, senti alívio que obviamente não era financeiro. Senti que, assim cordato, ele errara grosso diante de meu lance. Respirei. Fomos em frente.
Teoricamente ando convencido da incompatibilidade entre seqüestro e assassinato imediato. O bandido não pode perder seu trunfo, e não terá como atender certas exigências e comprovações. A morte, no geral, estaria vinculada a uma demora no pagamento de resgates, ou ao reconhecimento que a vítima possa futuramente fazer dos quadrilheiros. Tudo isso transitou pela cabeça, mas adrenalina e raciocínios lógicos são poções que não se misturam.
Com o telefone preso pelo ombro, saí caçando o celular para tentar a checagem da hipótese mais provável: meu filhote deveria estar vindo da aula, tranqüilo como é de seu estilo, convivendo, quando muito, com a perspectiva do almoço. Achar o celular, estando tenso, rodando numa cadeira de rodas, foi tarefa quase cômica nas trapalhadas. Achei, digitei, chamou e chamou... atendeu, ufa!
- "Filho, tudo bem com você?"
- "Tá, pai, porque? Estou no ônibus, quase chegando em casa".
- "Nada não, filho, eu só queria saber".
Tirei a mão que tampava o bocal do outro aparelho, e deixei que o sacana ouvisse o final da conversa. Ele só disse um "pôrra", e desligou.
Não demorou, o Ique entrou aqui no meu escritório (no fundo da casa), curioso com o tom de meu telefonema. Ainda me encontrou meio trêmulo e humedecido por suores frios. Deu até pra rirmos um pouco, que aparentemente esse ainda é um método adequado para tentarmos conviver com tais tormentos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ouvido não é penico


Vendo, pela TV, a Copa das Confederações, na África do Sul, sou salvo pela transmissão da Band e do Sportv (tudo em HD, na nossa televisãozona, artigo de necessidade para um viciado que nem eu). Além de achar que o caipira Neto é o nosso mais divertido comentarista televisivo de futebol, ainda me vejo poupado das patriotadas de um certo narrador, sentimento eternizado numa foto feita, não por mim, infelizmente, durante a Copa do Mundo de 2006.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ah!, o amor...









Parece até conversa de político sem assunto, nem causa. Criou-se dia de tudo quanto é coisa, das pensáveis às impensáveis, das com algum fundinho que seja de justicativa às que são pura fermentação do oportunismo mais barato, majoritárias essas últimas, sem dúvida. Dia das mães, dos frentistas, das secretárias, dos avôs, das avós, dos pais, do contador, dos mortos (dia dos vivos ninguém ousa propor...), do meio-ambiente, do índio, e segue uma lista com ambições ao infinito.
Mesmo se meio precariamente vivendo em sociedade, envolvido que estou num aperfeiçoamento como ermitão (minha pós, diria, fosse eu ainda mais esnobe), não fujo aos rituais, obrigações e emoções inerentes a algumas dessas datas. Que mãe não se sente a última dentre as últimas se lhe falta a lembrancinha, mesmo um alô, dada pelos pupilos no dia que apregoam como o seu. Os pais também foram se adestrando nesse rastro. A secretária esbanjará mau humor, os mortos, coitados, esses já não estão nem aí, embora a reverência a eles persista, inda que decadente. Questões intrincadas, coisas pra pensadores com tempo e largos saberes.
Hoje é o dia dos namorados, e os pobres amantes foram tocaiados em todos os caminhos e vielas. Guerra aberta e despudorada, sem presente não há amor, sem presente não haverá perdão, dizem as propagandas, e seus ecos. Habitualmente sou mais romântico que a Katinha, a quem chamo de Flô, embora em suas introspecções, sei sem saber, sua alma romântica me derrote por goleada. Lá pela hora do almoço, ela me apareceu com um bem fornido buquê de flores (vide foto). Derramado nas emoções (que andam meio autônomas em minha cabeça), perguntei: são pra mim, Flô? E ela, bem ela, sem perder o tom de mulher moderna, não fraquejou: pois é, comprei pra nós! Me exultei na certeza de que seremos sempre namorados.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Feriado de Corpus Christi, dia lacônico em si mesmo. Na TV, pessoas repetindo as receitas da fé. Um friozinho maneiro, vontade de comer mingau de fubá (gordo não toma jeito...). Henrique se meteu com o amigo Gabibão pelos interiores progressistas de São Paulo, ambos conferindo a eficácia de paqueras internáuticas. Katinha está curtinho o xodó de sobrinhas num parque de diversões. Eu, entre ôco e nostálgico, vi, revi e revi essa preciosidade:


sábado, 6 de junho de 2009

As razões e os porquês

Lá pelo meio de março tive a crise braba. Lutei pra ficar vivo, e vou tendo relativo sucesso. Agora, três meses passados, o concentrador de oxigênio só tem funcionado, praticamente, durante o sono. O Bipap deve me acompanhar ainda por um tempo longo, sempre talvez. Penso e sinto, e cada vez tenho mais certeza sobre as principais razões e os principais porquês de minha determinação. Aí estão: Katinha, mulher-amada com quem me casei há 31 anos e alguns meses, e Henrique, nosso filho há quase 19 velozes anos.
A miudinha que se intrometeu no meio é a Giulia, primeira neta de meu mano, primeira bisneta na família.

Era feliz, e sabia



David Carradine, ator filho de um grande ator, foi encontrado enforcado num hotel na Tailândia. É bem provável que tenha se suicidado. Senti o golpe, mais um de meus heróis expunha sua falibilidade. Seu misterioso Kung-Fu daquele seriado dos anos 70, século passado, me enchia de fantasia e de estranha potência. Como explicar? Uma bem ancorada percepção, convicção talvez, de que a superação dos meus limites estava em mim mesmo. Como se não existisse arma mais possante que a determinação. Sóbrio, avesso aos medos e às injustiças, meu estranho herói saíra fugido da China e então vagava por um conturbado oeste norte-americano, no tempo do faroeste.

Quando nos obituários televisivos revi cenas do seriado, perdidas na memória, só aí realizei a importância daquelas aventuras no meu ânimo vital, e até nas minhas maneiras de olhar o mundo. O passar do tempo foi me roubando a concentração e a pouca objetividade que consegui acumular, os golpes secos, mesmo se mentais, perderam-se no cansaço e no desânimo. Daí talvez a saudade, e não existe sentimento mais traiçoeiro.