Dancinha

Dancinha

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

No reino das presunções...


Vai se desenhando, como previsível, a condenação, pelo #STF, de Genoíno e Zé Dirceu, por corrupção ativa.

Como democrata que tento ser, respeitarei a decisão, embora a lamente por julgá-la equivocada e, portanto, injusta.

Caso nada de novo venha a ocorrer, darei meu singelo apoio às medidas que, por meios legais e públicos, tentem reverter ou contestar as sentenças que ainda serão decretadas.

Espero, como cidadão, que a jurisprudência aí gerada, sirva para desengavetar processos similares, e sirva, principalmente, para orientar uma inadiável reforma política e partidária.

Fundamental é ver que o jogo democrático, mesmo sempre carente de aperfeiçoamentos, é virtuoso e, visto de hoje, insubstituível.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A mana e a Schutz

Lembrança gostosa que relatei, hoje, num comentário no Facebook da Pá Andrés:

No dia em que os homens se tornarem sapatos (nada a ver com o destino de serem pisados), a humanidade flutuará em perene love. 

Uma historinha inesquecível: Angela, minha irmã mais velha, estava nas últimas, vitimada por fulminante leucemia. Fui vê-la pela derradeira vez no hospital em Petrópolis, onde ela vivia. Fiquei segurando sua mão, sem aparente contato. Ela me olhava com olhar semi-aberto, profundamente distante. 

Saiu, à beira da cama, uma conversa, puxada por sua filha, sobre a sandália nova que eu estava usando. De repente, não mais do que de repente, não sei de que ponto daquela fragilidade, a voz da mana soou clara e firme: "SCHUTZ, ADOOORO!!!". Foi a última coisa que ouvi dela, e hoje, basta ver um Schutz pra sorrir dessa história, e pensar no quão imprevisível sempre serão as mulheres.

sábado, 15 de setembro de 2012

Boa de estratégias.


  
foto feita há mais ou menos uma década

Ontem, ao visitar meus velhos na Acolher, residência de idosos, onde vivem, logo vi que minha mãe tinha algum assunto excitante pra puxar o papo.

Passou a mão no caderno "Informática", do Estado de Minas, que estava sobre a cama, e veio com jeito: - "interessante essa tal de nanotecnologia (e disse-o bem pronunciado). Me explica umas coisas aqui..."

A conversa demorou o tempo necessário pra eu demonstrar minha quase ignorância sobre o tema. Ela suspirou, pensou, constatou a sorte dos netos, dos meninos de hoje que, disse ela, vão aproveitar as vantagens que virão dessas invenções.

Aparentemente, mas só aparentemente, mudando de assunto, ela disse que o que quer mesmo é ter tempo para visitar a nova Catedral Metropolitana, de Beagá, que deverá ser inaugurada daqui a dois anos, me informou.

Sapeca que só ela, dona Regina, a dita cuja, tem montado belas estratégias para cercar os dribles da Malvada, da Indizível, da Certeira, e vai esticando o jogo que ainda tanto lhe entusiasma. Já meu pai anda mais quieto, como se acomodado no banco de reservas. É a fase, diria um craque.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sobrevivi...


Extraio do emocionante "A Queda", do Diogo Mainardi, que vou lendo no iPad:

Em 1939, "o Ministério do Interior de Adolf Hitler.... determinou que todos os recém-nascidos inválidos fossem denunciados às autoridades do regime.
O regulamento... mencionava, em particular, os portadores de 'mongolismo, de microcefalia, de hidrocefalia, de deformidades nos membros ou na coluna, e de paralisia, incluindo espasticidades'.
Em 1* de setembro de 1939, começou a II Guerra Mundial.
No mesmo dia, Adolf Hitler assinou um memorando secreto regulamentando seu programa de eutanásia".
Os médicos deveriam "decidir se aqueles que tinham, segundo o melhor juízo humano, moléstias incuráveis poderiam beneficiar-se, depois de atentos exames diagnósticos, de uma morte piedosa".
Morte piedosa era assegurada "àqueles que tinham uma 'vida sem valor' e uma 'vida inútil de ser vivida'.
Na primeira fase do programa de eutanásia de Adolf Hitler, foram mortos cinco mil recém-nascidos inválidos".

Para felicidade quase geral, e pra mim especialmente, Hitler perdeu a Guerra.
Nove anos após o memorando, eu nasceria nesse canto do mundo que poderia estar integrado ao sonhado império de Hitler.
Escapei da morte piedosa, e pude avaliar por conta própria (o que continuo fazendo todo dia) se a vida tem valor, e se ela é inútil de ser vivida.

Continuo sobrevivendo. A cada dia.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pedintes

Vida e arte. Arte e vida.
Eu nunca entendi quem copia quem.


Fosse eu dar a esmola, escolheria o da direita. 
Ele parece ter mais consciência sobre a imutabilidade da miséria humana.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O nome é vida


Reproduzo aqui, por belo e perene, um texto que me foi repassado pela amiga Taninha Quintaneiro

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 O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu este primor de blues ESSA PEQUENA, cuja letra vai aí abaixo. E rendeu também a interessante crônica UM TEMPO SEM NOME da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo.
 Essa Pequena
Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
 Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
 Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

Um tempo sem nome
Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.
 Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .
 Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

 Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.
 A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece.
Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura, ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.