sábado, 9 de novembro de 2019

Certas datas comemorativas abrem fissuras nas memórias pessoais, e a nostalgia goteja, escorre sobre os sentidos. E, de algum modo, a gente revive o vivido, feliz ou não, mais ou menos nítido, mais ou menos passível de ser refeito.
Comemora-se 30 anos da queda do Muro de Berlim, e me teletransportei pra lá, truques da memória. Era 1974, no verão europeu, e o Muro ainda ficaria quinze anos em pé. No meu DAF adaptado, vermelhinho, carrinho popular holandês que me levou pra conhecer boa parte da Europa. Na maior parte das vezes viajei sozinho, desafiador e feliz da vida.
Em companhia de uma amiga alemã, fluente no português, moradora de Berlim, zanzei de cá pra lá, e conheci comovido boa parte daquele anti-monumento e de suas histórias. Em alguns pontos a gente se deparava com plataformas, acessíveis por escadas, das quais era possível contemplar o outro lado, mesmo se ainda separado por boa extensão de terrenos minados e cercados por arames farpados.
Eu não conseguia subir nas plataformas, mas me emocionava ao ver as pessoas, muitos velhos, acenando pro lado de lá com as mãos, ou com lenços brancos. Muitos binóculos e lunetas auxiliavam as fantasiosas pesquisas. Com ajuda da amiga, conversei com vários deles, ouvi histórias.
A história da própria amiga foi a que mais me marcou. Ela, ainda criança, tinha uma prima como melhor amiga, e moravam a cem ou duzentos metros uma da outra. Uma manhã, depois de uma noite de muita chuva e barulho, quando acordou viu que na avenida diante de sua casa havia um amontoado de ferros e arames que logo dariam base a um grande muro.
Ela ficará do lado ocidental, e sua prima do lado oriental. E até aquela data, ambas já adultas, nunca mais haviam se visto ou se falado. Uma sabia da outra através de raríssimas mensagens clandestinas. A amiga me contava tal tristeza com germânica sobriedade. Eu me desmanchando em lágrimas. De há muito perdemos o contato, mas na época da queda pensei muito naquele amoroso possível reencontro.
Como profissional do ramo, li um bocado de coisas sobre a importância histórica, política e sociológica daquela data emblemática. Mas, confesso, é na amiga que fiquei pensando. Estará viva? Feliz? Gente tão boa, ela mais que merecia.
Mas, a crueldade do tempo se apropriou de seu nome, e por mais que empurre caixas e caixotes na memória, ainda não encontrei. Em compensação, sua imagem veio nítida. Vivemos naqueles poucos dias, pequenos momentos românticos. E vejo seu rosto lindo bem pertinho do meu. Como a vida é bela!

sábado, 12 de outubro de 2019

Sem foguetórios, todos comemoram

Ouço o foguetório das 18hs, terceiro e último daqueles destinados a N. S. Aparecida. Antecedido por outros, às 6 e 12hs. E fico imaginando que tal barulheira deve ter tido sentido na roça, nos sertões, talvez lembrando das horas das rezas, ou convocando pras missas, coisas assim.


Só sei que aqui, no abafa e na intimidade involuntária das cidades, tais foguetórios servem mesmo é pra estressar, criar nervosismo e até pânico em seres, homens e bichos, que se abalam com tais estampidos.


Autistas, acamados, a maioria dos cães e gatos domésticos (que não conseguem fugir da cena), pássaros nos ninhos, e nem imagino quantos mais.


Comemorar, homenagear e orar de modos mais silenciosos devem ser ítens obrigatórios em qualquer novo pacto de civilização.

Sacerdócio é coisa de branco?

Houve um tempo, há muitas e muitas décadas, onde fui criança, menino, acho que até vestia azul. Juro que fui criança. Existem até testemunhas ainda vivas, poucas, que podem depor a meu favor.


Entre amigos e inimigos, não são raros os que acham que minha mente ficou por lá. Costumo concordar. Mas o corpo, pobre corpo, esse foi se acabando na faina insana, e interminável em vida, de arrancar folhas do calendário.


Mas, o papo é outro. Fui criança adestrada na religião católica, e cheguei ao honorífico cargo infantil de presidente da cruzada eucarística da paróquia do Carmo, aqui em BH. O passado condena.

E pra esse passado viajou minha cabeça, nesses dias em que na mídia vaza catolicismo. Senhoras de Nazaré e de Aparecida, Santa Dulce, miudinha e fogosa, e até o contestador Sínodo sobre a Amazônia, no Vaticano, ganhou espaço.

Viajei de fasto pra matutar sobre algo meio assustador, mas explicável sem cansaço. Moderninho, escaneei minhas memórias infantis, tanto das práticas religiosas, quanto dos anos de tortura, digo, de educação em colégio católico. Fui e voltei, fui e voltei, e nada de encontrar sacerdotes e derivados pretos.

Eram europeus ou brasileiros filhos escolhidos de famílias abastadas ou, em menor número, egressos da classe média branca.
Hoje, na fartura efêmera de catolicismo na TV, e me refiro aos eventos pátrios, a gente vê padres e diáconos pretos em quantidade. Embora, para eles, a escalada na hierarquia esconda paus de sebo. Poucos escalam com sucesso.

Naquelas lembranças infantis, em especial nos grotões que eu observava fascinado, havia sacristãos pretos, que com frequência também eram mestre de folguedos, ou velhos curas solitários, alguns já com traços mulatos. Coisa da roça.

Os pretos reprimidos, como logo se veria, em suas vocações sacerdotais (um mistura de misticismo com ascensão social), vieram socorrer a Santa Madre na crise vocacional, e abriram, no mesmo gesto, o exercício sacerdotal às classes mais populares.

E, com isso, outro serviço prestado, abriram os olhos católicos, em especial dos comandantes, para uma das chaves da extraordinária explosão das igrejas neopentecostais, e seus convites à ascensão de celebrantes populares. Muitos pretos entre eles.

Agora, o sufoco das vocações femininas, na misoginia católica, mas não só, isso é bem mais que outro capítulo. É outra história. E das tristes.

E como dói!

Hoje é dia de um tantão de coisas. O povo adorando Dona Cidinha, a maioria das crianças sonhando em um dia não serem tão pobres, mas meu velho coração ainda se ocupa com a Katinha, amor da minha vida. São 16 meses de ausência. E dói

segunda-feira, 30 de setembro de 2019




Na minha meninice, as avaliações de nossas vidas se davam em algum SNI ou CIA celestiais. Só nos restava o medo. Por lá ficavam os tribunais que nos encaminhariam para o céu, o inferno ou um tempo como trainee no misterioso paraíso. Implacáveis.
Hoje, rindo sozinho da invasão das bonequinhas eróticas nas minhas telinhas, pus-me a matutar sobre quão mudadas andam essas coisas do destino.
Nossas vidas hoje são avaliadas, em tempo real, e em estonteante dinâmica, nas catacumbas onde mourejam os donos do mundo e seus insaciáveis bancos de dados. As sentenças e seu cumprimento trafegam à velocidade da luz.
Sem esquecimento. Sem perdão.
Acabamos por ser o que querem que sejamos, senão acabaremos desconfiando de nós mesmos. Claro que amanhã seremos outros, se disso os sintetizadores se convencerem.
Pensei nas minhas bonequinhas sexys, e já temo encontrá-las debaixo do travesseiro, na água do banho, na sopa, e até no já invadido recôndito dos sonhos.
Tentei deduzir a lógica dos porões onde as máquinas decidiram por tais mini atrações fatais. Velhote, assanhadinho, olhando essas coisas na madrugada, viúvo, virtualmente carente, dado a devaneios... bingo! Não tem erro. Bonequinhas nele. Até quando, meu pai Oxalá?

quarta-feira, 4 de setembro de 2019


Mega mico, hoje no Minashopping. Perguntei pelo banheiro adaptado, a moça da segurança me encaminhou.
Cheguei na porta onde se lia: EXCLUSIVO PARA PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS.
Como eu só pretendia um xixi, já latejante, pensei: xixi, ao que eu saiba, não é nenhuma necessidade especial, mas encarei ali mesmo.
Aperto um botão, uma voz vinda do além pergunta o que foi. Só quero entrar no banheiro, disse eu, já temeroso com os efeitos deletérios daquela demora. Um estalo, e a porta se abre.
Ufa! Entrei. Aliviei. Lavei as mãos e fui abrir a porta. Digo, tentar. Empurrei, sacudi e nada.
Como não era muito sedutora a perspectiva de passar ali minha noite, embora estivesse até cheirosinho e com musica, não resisti à tentação de testar um botão, ao lado do vaso, contornado pela inscrição EM CASO DE EMERGÊNCIA, ACIONE O BOTÃO. Achei que era o caso, e mandei o dedão. Pra quê... seria menos traumático ter passado lá uma noite semi-tranquila.
Um alarme ensurdecedor invadiu aquela área do shopping. Juntou algumas pessoas, uma tensão se espalhava no ar.
Foi quando o rapaz da faxina, acompanhado por dois seguranças, abriu a porta por fora. Eu, mais assustado que eles saí de fininho, olhando pra trás, com aquela cara de “tá acontecendo alguma coisa ali, alguém tem ideia do que seja?”
Ainda demoraram um pouco a desligar o alarme escandaloso, e as pessoas tomaram rumo. E eu ali, disfarçando.
Foi quando o rapaz da limpeza me chamou baixinho, do alto de sua humildade, e me pediu para entrar no banheiro em sua companhia.
Com carinho e compaixão por meus cabelos brancos, me explicou didática e singelamente:
- da próxima vez, basta o senhor apertar esse outro botão, aqui ao lado da porta, que ela abre.
Mais não disse, e nem carecia. Recolhi-me à minha insignificância, e fui tomar um café expresso duplo. E pedi que fosse bem forte. Só pra ver se eu acordava daquela vergonha.
Bem feito pra mim. Quem mandou achar que não tinha necessidades especiais? Bobeira é deficiência.
Eu na dentista. Motorzinho zoando.
De repente, dou um suspiro profundo, seguido de um “ai, ai”.
A doutora para a maquininha, e pergunta:
- tá doendo?
E eu, ainda suspirante:
- não, querida. Foi só um espasmo de frescura!

Já não se fazem machos como outrora, né?

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Contra o ensino militarizado. Postado no FB em 29/08/19

Hoje, na visita ao Colégio Estadual, da qual falei antes, ao ver a moçada sentada na grama, namorando, tocando violão, feliz e falante, fui tomado pela certeza de que lutarei, mesmo com minhas frágeis armas, enquanto puder contra a tara da militarização do ensino fundamental e médio.
O Colégio agora funciona em tempo integral, o que pra mim foi agradável surpresa. Pude conviver com eles em aula, já que tive a honra de contar um pouco de nosso história para alunas e alunos que agora ocupavam a mesma sala que deixei em 1968, e durante o almoço coletivo, com eles se espraiando por todos os espaços, livres e aparentemente felizes.
Conversando com o diretor e o vice, gente finíssima, engajada num processo de criatividade e crescimento, olhando em volta, vendo registros de protestos e desejos, senti ódio dos portadores da tristeza e da morte do espírito livre, militaristas que só arrotam disciplina, medo e submissão. Se eles se impuserem, aí os danos serão irreparáveis por longo tempo. Se a esperança não tiver a juventude como aliada, ela estará condenada ao fracasso e ao desânimo.


Registro com a equipe de filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, do qual participei hoje. Atrás de mim, os velhos amigos Marcinho Borges e Murilo Antunes, e sentada, em primeiro plano, a fantástica Ana, diretora e chefona do projeto. Devo estar sendo parcial, mas prevejo um filmaço, cutucando as encruadas memórias mineiras.

Filmagem do doc sobre Clube da Esquina, no Colégio Estadual, em 29/08/19



Ah, quanta honra. Uma foto que guardarei como um troféu por um dia feliz, de imensas emoções. Filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, ontem, 29/08/19, no Colégio Estadual.
Sem viés ideológico (viu, Bozo? Viu, Zema?), da esquerda para a direita, a Ana, diretora do filme, o Rodrigo, o Reinaldo (respectivamente vice e diretor do Colégio, gente de primeiríssima), o Zé Roberto, produtor do filme e filho do meu mano véio Marcinho Borges, que vem em seguida, e, encerrando a fila, o Eduardo Moraleida. Sentado, curtindo essa moleza, esse que ora vos fala, e que uma amiga disse há pouco que está a cara do Claude Monet (claro que sem o talento).

No Colégio Estadual, 50 anos depois.



Hoje, depois de meio século, voltei ao lugar onde vivi os melhores, mais encantadores e produtivos três anos de minha já longa vida. O Colégio Estadual Central, em Beagá, e os anos foram 1966,1967 e 1968.
Tendo sido convidado, pouco gentilmente, a abandonar o Colégio Marista, transferí-me para esse paraíso. E ali, mesmo naqueles anos de chumbo, ou talvez por isso, encontrei a diversidade, a inteligência, professores e colegas me ajudando a moldar meu caráter e a juntar os valores, especialmente humanistas, que ainda carrego comigo.

Essa manhã voltei lá, convidado a participar de um documentário profissional que está sendo realizado sobre o Clube da Esquina, uma de minhas praias de então. Em companhia do Márcio Borges e do Murilo Antunes, mergulhei de cabeça nas lembranças e nas experiências que faziam dali, nosso recanto comum, um vulcão de arte e de política, que espalhou suas lavas sobre aquele tempo.
Voltei à minha sala, conversamos com grupos de alunos, refizemos para as câmeras as trajetórias de então. Chorei que nem uma carpideira do sertão nordestino, disse à moçada que nos seguia, curiosa, muitas palavras de esperança pelo futuro que eles saberão construir, honrando a história do nosso Estadual.
O pequeno vídeo em anexo retrata minha entrada emocionada naquele espaço encantado, e a repetição do agradecimento, que um dia fiz cara a cara e diante de um auditório lotado, ao modesto Niemayer por ter colocado no meu caminho uma rampa que mudaria o meu destino, e não uma escada, que impediria tal alquimia. Ele deu um leve sorriso.
Meio sem treino, como tenho vivido, curto agora uma baita ressaca por tantas emoções.

E o Clube da Esquina? Postado no meu FB em 31/08/19

Como andei falando muito sobre o documentário do qual participei, no Colégio Estadual etc, a amiga Adriana Saldanha Guimaraes perguntou num comentário: "E qual sua história com o Clube da Esquina?"
Reproduzo o que respondi lá:
"Adriana, sabe que nem sei. Convivência com queridos amigos durante um tempo da vida, e depois mais esporadicamente. Colega do Marcinho Borges, amigo e admirador do primogênito Marilton Borges (o mais musical da família, em minha opinião), a frequência naquela casa sempre agitada e cheia do Salomão e Maricota, Estadual, Maletta, CEC, Imprensa Oficial. Uma Beagá mais provinciana e calma, onde as coisas se misturavam sem grandes projetos, com poética singeleza. Não raro estavam na casa de meus pais, no Carmo, personagens que aos poucos eu veria mais e mais nos registros da mídia: Bituca, Toninho Horta, Fernando Brant, e tantos outros. Uma foto minha na capa interna do LP Clube da Esquina me batizou como membro daquela comunidade que ganhava o mundo. Fui morar no exterior, depois viver na UFMG, e os caminhos correram como paralelas que vez ou outra se encontram. E restaram lembranças, muito amor e amizade. Seu saca-rolhas é bom. Acho que nunca falei tanto sobre isso".

Em gratidão ao mano véio Marcinho Borges

Ainda sobre minha vivência e convivência com o Clube da Esquina, assunto que me deixou matutando a partir da participação no documentário sobre o movimento, em tomadas filmadas no Colégio Estadual, e a partir da despretensiosa pergunta de uma amiga, por aqui. Descobri que eu não sabia o que dizer.
O sentimento que sobreveio nessa matutagem foi o de gratidão, e em especial por uma figura bem central não só no movimento, mas também em minha vida. Em especial na virada radical que eu tentava dar a ela quando entrei no Estadual, e me joguei no mundo, tentando desconhecer as perenes dificuldades de locomoção.
Apesar de pouco mais velho que eu, o Márcio Borges era essa figura, a quem chamo de mano véio, um amigo mais que querido. Com o passar dos anos, e com os rumos das respectivas vidas, a gente foi se encontrando mais e mais raramente, quase um nada. O que não abala o tanto que gosto e curto esse cara falador e de inteligência ágil e brilhante.
Ele vai achar esse papo meio esquisito, mas naqueles anos de maior convivência ele foi, sem pretender, nem posar como, uma referência para a minha redescoberta do mundo, em especial do mundo sensível. Só não digo quase um guru, pra ele não exagerar na máscara.
Em longas e boas conversas, muitas vezes em grupos, em botecos, ele me inoculou a paixão pelo cinema, que inda carrego, me aplicou em fundamentais da literatura mundial, coisa distante de um egresso de educação marista, e curtimos muita música, e essa era uma paixão que eu carregava desde menino, e ainda carrego, sempre fiel aos pilares de nossa magnífica música popular. E aqui penso em Luiz Gonzaga, Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha e tantos outros que frequentam meu cotidiano.
Voltemos. São fascinantes e curiosas essas sínteses que, no matutar, adquirem rumos próprios, incontidos. Como se ficasse claro que minha vivência com o Clube da Esquina tem quase o molde de minha convivência com o Marcinho.
É certo que dali abri o leque, desdobrei em amigos, conheci boa parte da mais fina flor dos instrumentistas de então, vi poetas e músicos em efervescência criativa, aprendi muito e fui feliz.
Marcinho fez de mim um personagem no seu livro Os Sonhos Não Envelhecem”, e agora me convoca para o documentário. Isso me ajuda a compreender minha vida, e joga foco nesse mistério do amor maior que chamam de amizade.

Zapeando no tédio das manhãs

Após longa ausência, hoje fui zapear pelos canais abertos da TV, na programação matutina dirigida às donas casa, aposentados, desempregados e àqueles que por razões diversas, entregam suas manhãs à telinha companheira da solidão e do tédio.
Como professor, e em poucas investidas profissionais no mercado, sempre fui próximo ao tema e a seus desdobramentos, mas isso não reduziu a perplexidade com o que vi essa manhã. Um circo de horrores comerciais, explodindo todos os limites do que um dia foram conquistas, até de ordem legal, no que se pretendia defesa do cidadão e do consumidor.
Sem diferenciação de classe social, apenas de qualidade e preço dos produtos, mais ou menos a mesma aberrante estratégia ocupava todos os principais canais. De Edu Guedes a Fátima Bernardes, da Record à Band, o criminoso assédio à auto-estima, em especial das mulheres, mas não só, descortinava a certeza que os últimos resquícios de ética haviam ficado nos bancos escolares, ou, mais provavelmente, sufocados sob os contratos nos departamentos de marketing e merchandising das emissoras.
Testemunhais, até do vendilhão Louro José, empurravam para os do lado de cá das telinhas (hoje, telonas) a culpa pelo sentimento de fracasso pessoal, ou de infelicidade. Quem mandou não usar o creme X, ou se empanturrar com a vitamina Y? Quem mandou não superar seus limites, e se tornar empreendedor(a) como a jovemZ, que saiu da favela e hoje é líder mundial na depilação das partes íntimas dos homens modernos?
Não me refiro aos comerciais, nos devidos e legalizados formatos e horários, mas à diabólica mistura entre os personagens de sucesso, ricos e famosos, e os produtos que quase acidentalmente se espalham pelo cenário, e sobre os quais se contam encantos testemunhais em pequenas intervenções. E que, por serem mais caros, talvez por serem ilegais, fazem a fortuna de apresentadores e reforçam o caixa dos patrões.
A legislação chegou a restringir isso fortemente, mas leva jeito dessas leis terem apenas saído de moda. Com o devido e sacana respeito, quando vejo a Ana Maria Braga injetar subliminarmente em seu público-alvo, a cada manhã, determinada mensagem, sinto o quão longe avançamos. Ela parece estar sempre dizendo, nas entrelinhas: “vejam eu, cento e muitos anos bem vividos, aparentemente ainda andando e falando, e isso se deve a essa vitamina aqui, aquele creme ali, e àquele produto acolá... que, desculpem, não estou enxergando sem meus óculos novos, da Ótica Carol”.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Estão preparando uma cama de gato pra mim, aqui no #Facebook. Já me tiraram do ar duas vezes em tempos passados. Daí o Paulinho II, já que minha página anterior, ainda aberta, era censurada e suspensa quase semanalmente. O que me obrigou a migrar pra outra, mesmo deixando um monte de amigos pra trás. E não consegui na primeira tentativa.
Porque digo isso? Acabo de receber uma advertência por queixas contra uma postagem com nudez... feita há quatro anos (em verdade, 2 anos e sete meses, como verifiquei depois), e da qual não me lembrava. Uma brincadeira com Marx saindo do mar com um corpo de mulher com os peitos de fora. E me ameaçaram dizendo que em caso de repetição serei punido. E, na prática, me obrigando a concordar com o puxão de orelha por ter infringido os padrões de moralidade do Facebook.
Exatamente como os ataques seguidos que recebi naquela época, com queixas massivas de pessoas que depois se apresentaram a mim, via Twitter, como precursores da construção do Mito. E zoavam com minha cara.
Portanto, se hora dessas eu sumir por dias ou mais, saibam que provavelmente estarei sendo digitalmente esfolado nos porões escuros do reino do Zuckberger. Mas que voltarei, nessa ou noutra página.
Algo me diz que aquela matilha de filhos da pobre égua voltaram a pegar meu rastro. Ver-se-á...

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Pena que não printei ou fotografei o texto da advertência que o #Facebook me deu ontem. Inacreditável. Como a antiga foto, do início de 2017, que gerou o fato mostrava mulheres nuas, todas com cabeça de Marx, saindo do mar, recebi uma pérola do mais safado puritanismo yankee.
Lá se dizia, reproduzo de memória, que pelos padrões de moralidade do site, a exposição dos seios femininos só pode se dar em atividade de amamentação ou de tratamento médico, sem exposições excessivas.
Só não mandei introduzirem o FB no rabicó porque, infelizmente, ainda dependo dele para minhas atividades diárias.
Mas, agora quem faz uma advertência sou eu. Às amigas, travestis, transgêneros que por aqui transitam: CUIDADO COM OS NUDES QUE VOCÊS ANDAM ENVIANDO. MANTENHAM UM BEBÊ OU UM DOUTOR AO LADO.

domingo, 11 de agosto de 2019



Amor é isso. Ganhar do filho bem tímido, como presente do Dia dos Pais, uma cachaça chamada Bem Me Quer.
Como sou cada dia menos afeito à divisão tradicional de papéis na família de hoje em dia, tempo em que muitos lutam para romper os ditames repressivos do patriarcalismo, desejo um feliz Dia a todas e todos que, com amor, cumpriram funções e tarefas habitualmente atribuídas ao sexo masculino.

sábado, 10 de agosto de 2019

#Globo ataca com agressividade e ousadia a sua crise financeira e a concorrência dos novos tempos.
Vão disputar no tapa o cenário das narrativas que hoje motivam o imenso público que se volta para o audio-visual como fonte de entretenimento e informação. E agora, e em futuro previsível, a Globo será imbatível em termos de produção nacional. Produção própria ou em consórcio com produtoras brasileiras, várias de ponta, mesmo se comparadas à produção internacional.
O inimigo a ser enfrentado não será encontrado por aqui. Vem de fora, da fantástica massa de produções internacionais que disputam a primazia mundo a fora. Uma produção que chega a nós através do estrondoso sucesso de operadores como, na liderança ainda folgada, a Netflix, mas também da HBOGO, da Prime Vídeo (Amazon) e outras. Chega-se até ao extremo de pequenas operadoras voltadas para um público cult, como a MUBI (minha predileta).
Em verdade, acho que estou fazendo um convite para que os amigos e amigas dediquem um olhar mais detido e sofisticado à Globo, em especial àquela que existe além do jornalismo. Gostando ou não, assistindo ou não, é difícil, e continuará sendo, compreender e discutir o imaginário e a cultura no cotidiano brasileiro sem contemplar o estado atual dessa disputa.
De seu lado, para sobreviver ao interesse público, a Globo voltada para a produção de narrativas de ficção ou de documentário terá que ampliar a gama valorativa e temática de sua produção. E, olhando com realismo, em muitas de suas produções a Globo já está um passo além do senso comum, propondo questões que chegam a cutucar o dito status quo.
Bem sei que a discussão é bem mais complexa, e que não são poucas as armadilhas que vêm embutidas nos aparentes avanços. Mas, o pretendido aqui é o desafio ao pensamento que tende a se acomodar diante de questões que pareçam consensuais em nossos grupos de referência e convivência. E, óbvio, uma boa pitada de provocação.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A quem interessar possa, mesmo que seja só para me chamar de pentelho, insistente, sem noção, chato. Aceito tais méritos. Para facilitar a leitura de certos escritos, de agora e de antes, espalhados pelo caos que é minha vida, estou tentando reuní-los no Rindo de Nervoso... Ainda, meu velho blog que andava desativado (mas já foi bom de dança). 

quarta-feira, 24 de abril de 2019




Contemplando esse céu impecavelmente estrelado ( antes que a lua se intrometa), a cabeça saiu por aí, atraída pelo feitiço das constelações. 

Meu coração foi ocupado pela Katinha, amor da minha vida, e pela lembrança de como gostávamos desses céus, de namorar no canto mais escuro, escorando a leveza infinita do universo sobre nossas cabeças. 

Um céu, em especial, nos convidava aos êxtases. Céu do sertão, quando voltávamos à noite da Cordisburgo de minha mãe. Viagem que a gente adorava fazer. 

Na estrada, quando da calmaria das altas horas, era encostar o carro, apagar as luzes, e flutuar no imenso daqueles pontinhos resplandescentes, sem pressa, nem metas. Onde, quem sabe, meu desejo sabe, a minha Flô amada dança pra sempre seus sonhos de fada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019



De repente, nas dobrinhas do cotidiano, mais uma xexelência da dona Katinha, amor da minha vida.

sábado, 16 de fevereiro de 2019



Amor não é um sentimento, é uma habilidade. Com tal poderoso petardo do jovem filósofo suiço Alain de Botton gastei algumas horas dessa noite meio insone. Com a chuvinha persistente, a noite era um convite ao bom sono, mas troquei parte dela, quietinho e deitado, por aquele que talvez seja hoje meu esporte ou hobby predileto. Pensar. E me esforçando por reduzir ao possível ansiedade e angústia, estados d'alma que não sabem ver o cidadão matutando, e logo querem um lugar na mesa, um copo pra beber de sua bebida. Pensar deve trazer conforto e dar prazer. E nunca culpa por horas, ou mesmos minutos, pretensamente perdidos. Pensar  não traz lucro, nem gera prejuízos, ao menos não deveria, posto que não é mercadoria.

Livre pensar é só pensar!

Repito o dito do Botton: amor não é um sentimento, é uma habilidade. E vejo portas se abrindo a tamanha lucidez. E tocando em algo que me é muito caro, e que me cobre de cuidados ao me expressar. De tanto cantar e decantar meus amores, e tão especialmente o longo e delicioso amor vivido com a Katinha, amor da minha vida, sempre temi, e temo, escorregar para uma visão idealizada do amor, da qual absolutamente não compartilho, e levar às pessoas a falsa impressão de que estávamos, ela e eu, destinados um ao outro, de que seríamos escolhidos e abençoados por Deus ou pelo Diabo, ou que, como cantaria a Tetê Espínola, nosso amor estava escrito nas estrelas. Na na nim na não.

O pior produto dessas idealizações, e já falamos disso nesses papos por aqui, é, eventualmente, mesmo após um doce suspiro, levar sofrimento às pessoas. Se a pessoa embarca nessas idealizações, e num parco auto-exame se sente não contemplada nesse sorteio, talvez cósmico, cujo prêmio é a felicidade e uma imaginária vida de encantos, ela acabará se fazendo infeliz. E nos colocando, Katinha e eu, num patamar onde a felicidade seria a norma, numa vida de fluxos e sentimentos positivos. E sendo a vida só uma, e danada de curta, se chegaria a perguntar: porque que não sobrou nem um pouco dessa festa para minha dança.

Se levarmos adiante a fantasia de que no amor, em seus momentos mais vibrantes, ficaria clara a certeza de que fomos feitos, nas tramas do destino, um para o outro, teríamos que inventar conversa nova se tentarmos entender algo mais comum do que parece. Casais, e não importa com qual afetividade se escolheram, ou encontraram, vivem como dois pombinhos durante anos a fio. Olhamos encantados: ah, o destino! Mas de repente, por tantas razões quanto o número de habitantes do planeta, eclode a crise, a separação e, não raro, aquele tanto amor, por reações que os alquimistas de todas as eras e latitudes nunca conseguiram decodificar, se transforma em desprezo, muitas vezes em ódio (e, atenção, não estão aqui em foco as muitas e muitas separações que se transmutam em companheirismo, belas amizades etc).

Não. O amor não é um sentimento, é uma habilidade. Ultrapassado o primeiro clic, ou atração, que obviamente existe, no momento seguinte o amor já é uma construção, uma habilidade. Nessa habilidade, e aqui decolo eu, o fator preponderante, vital, é a comunicação. Comunicação (que pode render outras conversas, mais puxadas) porque é relacionamento, e não existe outro meio de se relacionar. Comunicação com perfil próprio, onde o silêncio, e cada vez mais com o passar do tempo, ocupa, ou deveria ocupar, uma maior centralidade. E que não se confunda silêncio com palavra sufocada, com impedimento de se manifestar, ou com prostração diante da desatenção e do desprezo alheios. Falo de silêncio ativo, parte da conversa, economia de palavras diante da empatia com a parceira, ou parceiro. Silêncio sem ansiedade, que abriga sorrisos ou olhos cerrados. Silêncio que permite a dois, ou mais, envolvidos matutar juntos, mas separados. Silêncio que permite a dois seres humanos, por exemplo, contemplarem o universo em noite estrelada, vivendo a comunicação intensa de uma mão de um repousando sobre a mão de outro.

O papo é sem fim quando um tal assunto me pega no perdeu, playboy! A comunicação no amor, habilidade a se trabalhar, não é inata, exige que o outro seja reconhecido em sua inteireza, e assim acatado e respeitado. Se se estabelece uma hierarquia no direito à percepção bem informada do mundo, ou à expressão, em especial à fala, o amor já vai saindo de fininho pra fazer sua mala e buscar outro pouso. Manter viva a comunicação efervescente que se estabeleceu na intensidade das primeiras paixões, com a calma que naturalmente o tempo fez pousar, é uma das chaves do aparente mistério que faz boas relações duradouras brilharem aos olhos exteriores.

Brincando com as palavras antes do fim (certamente provisório): a habilidade com as habilidades é que abre o palco para a representação dos sentimentos no amor. E quem fecha as cortinas somos nós mesmos.

Boas matutagens nessa tarde chuvosa e quase fria de sábado. Ao menos em Beagá.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019


Minha finada patroa, que anda metida numa caminhada longa em demasia, carregava no peito uma excitante mistura de braveza e compaixão, ambas com frequência extremadas, que ela dissimulava com charme e elegância. Nunca, ou quase, perdendo a postura, o jeitão de uma, digamos assim, bela, recatada e da vida. Ela era tipo arroz é arroz, feijão é feijão, e quando tomava gastura de um alguém, ai, ai, ai, só uma junta de pacientes especialistas para tentar, eu disse tentar demovê-la.

Mas, para o bem da humanidade circundante, minha Flô foi sempre muito mais de amar as pessoas. Com paixão e disposição para defendê-las até dela mesma, se necessário fosse. E não se poupava. Nos lugares em que moramos, nesses mais de 40 anos, em uma semana já era beijinho pra lá, troca de receita pra cá, e a impressão de que nascera e fora criada por ali. E da empregada à madame, do lixeiro ao coronel, parecia uma coitadinha que só tinha um balaio pra carregar todas as coisas, juntas e misturadas.

Essa era a mulher que tanto amei. E sempre amarei.

Como isso é mais forte que eu, essa falação pescou um caso nas lembranças. Um caso curtinho mas que reflete bem essa minha deusa terrestre.

Numa daquelas tardes modorrentas, na porta do Rouxinol, onde estudava um pequeno Henrique, lourinho e sedutor, enquanto as crianças não atropelavam aos berros a pobre porteira que cuidava da saída, estávamos nós ali numa roda de conversa juntando muitas comadres e um ou dois compadres. Papo vai, papo vem, surgiu conversa daquelas de convergência unânime e imediata, sobre a sacanagem que é as pessoas não necessitadas ocuparem as vagas de deficientes, e por aí. Quem ousaria defendê-las? Ninguém.

Uma das mais excitadas, bem a seu estilo enfático, foi a nossa querida amiga S. Nossos filhos vinham juntos desde o maternal, e tínhamos uma certa intimidade e liberdade pra falar entre nós. Amigos. S. fez uma verdadeira pregação, todos admiravam seus ditos, e me apresentou como exemplo de seus argumentos, dizendo que sabia de meus apertos para estacionar. E foi que foi.

- Cooorta!!! Preparar para a próxima cena, no dia seguinte. E olha eu dando ares cinematográficos a meu caso.

- Claaaquete!!! Cena dois. Luz no ponto? Silêncio no estúdio. Rooooda!!!

Katinha e eu, no estacionamento do imenso Carrefour, na Pampulha. Devido ao horário, sobram vagas pra todo lado, com fartura. Virei o carro e me dirigi às vagas reservadas. Além de mais largas, elas ficam pertinho da rampa de subida. Preparo a manobra para estacionar ao lado de um carro que ali já se encontrava. Foi aí.

Katinha dona de extraordinária memória, especialmente se envolvessem números, deu um tapa no painel, e não vacilou pra levantar a voz, brava.

- Tico, pô, que maluquice! Esse carro é da S. E gente falou tanto sobre isso ontem.

- que nada Flô. É só parecido. Deixa pra lá. Vamos entrar.

- que deixa pra lá, nada. Vou deixar ao menos um bilhete.

- tá bom...

Cena três. Tendo descido a rampa, lá vinha a S., alegre e fagueira, com o carrinho cheio de compras, carinha de estar em paz com a vida. Quando ela chega uns cinco metros de nós, os olhos de S. se cruzam com os da Flô. Assustada, meio em choque, sem trocar palavras, S. olhou se não tinha um ralo em volta para mergulhar.

Aí, entrou em cena a curiosa personalidade de minha Flô. S. ensaiou inventar desculpas, mas conhecendo bem a Flô, desistiu logo. Seus olhinhos se encheram d'água. Olhei pra Flô, os dela também. Flô deu dois passos adiante e, encontrando a S. tornada estátua, a abraçou apertado. Muito apertado. Trocaram umas lágrimas. E saíram para o outro lado, uma com a mão no ombro da outra, conversando baixinho. Depois até riram.

Eu, que a essa altura já tinha me tornado parte da paisagem, cocei a barba, liguei o rádio do carro e fiquei matutando sobre a sabedoria da Rita que cantou que mulher é bicho esquisito.



A vida é matreira, mas como é bela. Hoje completam-se oito meses sem a Katinha, amor da minha vida, a meu lado.
Saudades infindas, mas a tristeza vem dividindo a cadeira com a gratidão. Portanto, que essa seja a música que comemora, hoje, meu amor por ela. E o dela por mim.

Video sobre os " Kene". Tecelagem Huni Kuin


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


Arnaldo e eu éramos adolescentes, e mais que irmãos, amigos-irmãos. E fizemos boa parte de nossas formações pessoais, fortemente humanistas, conversando noite a dentro, sentados no murinho da casa na esquina de rua Boa Esperança (onde ambos morávamos) com rua Passatempo, no bairro do Carmo, Beagá. Então um bairro de classe média, de casas baixas, no máximo sobrados, construídas sem ostentações.
Para se ter uma leve ideia, e não é esse nosso gancho de hoje, quando mudei pra lá corria o ano de 1949, e eu tinha um aninho, já paralítico e enfiado em tratamentos... existiam apenas três casas naquele primeiro quarteirão, a partir da rua Montes Claros. Diante de minha casa um campo de futebol, vacas pastando pra todo lado, e sob a janela, onde eu viveria grandes momentos, o caminho em meio ao mato, que levava à igreja do Carmo, ao tempo construção tosca e pequena. Ai, ai, ai, outros e outros causos.
E lá estávamos, Arnaldo e eu, uns 13 ou 14 anos depois do momento contado abaixo. Ele, filho de conhecido líder comunista, servidor nos institutos (como se denominavam o IAPC, IAPI, IAPTEC etc, antes de se juntarem), o João de Deus (sic) Rocha, o Rocha. Eu, filho do dr. Jacy de Britto Figueiredo, odontólogo, simpático à UDN e fã do Lacerda, muito careta e bem preconceituoso, bom de papo, mas enjoado quando implicava com algo, e como implicava. As mães, mulheres fortes, são outras histórias.
Conversando, rindo muito, esticando papos com outros amigos da turma de rua. Nenhum tão próximo, nem tão íntimo. Uma de nossas especialidade era filar cigarros, um ou dois, de passantes, e do coitado do guarda-civil que, ali, andava pra lá e prá cá, se protegendo do sereno apenas com um cassetete e um apito, que nunca vi apitar, zelando pelo sossego de um figurão, procurador geral do Estado, morador da casa ao lado. Figurão, mas de vida incrivelmente simples e modesta se vista pelos padrões e arrogância de hoje.
Levávamos para nossos papos a cosmovisão de duas casas parecidas, mas totalmente antagônicas. Acho que foi desde então que me interessei pela curiosidade, e pelo respeito ao que o outro tem pra me contar, e que eu ainda não sabia. Descobri que não havia estupidez maior e mais inútil que o invadir o momento da fala alheia, e mesmo depois de seu término, com a voracidade de ocupar os espaços e atenções. Tipo "ah, precisa de ver eu...", "mas se fosse eu...", "comigo isso...", "lá em casa então..." e o terrível, danoso e irritante "eu avisei... eu avisei... eu avisei". A fala do outro, seja qual for, sempre merece ser ouvida, digerida, meditada, mesmo se em segundos. E que a ela se deem as suites que elas mostravam carecer. E não devemos ter medo, nem ansiedade, nossa hora chegará, e será uma delícia ser ouvido, digerido, meditado.
Justiça gosto de fazer com os que, àquela época, gostavam de nos ensinar, de nos ouvir com respeito e seriedade, de pesar nossos argumentos, mesmo se não raro singelos, e contrapor ensinanças, lições de vida. O Rocha, pai do Arnaldo, com certeza foi bom mestre sendo bom comunista. Nos dava leituras mais teóricas, discutia argumentos. Era talvez excessivamente sisudo nessas horas. Mas um grande pra nós, ali, com bola no chão, foi um vizinho dele, pai de duas grandes amigas, e dois rapazes, que era visto pelos pais da redondeza como meio maluco beleza. Daqui a pouco vou cutucar a filha dele, grande amiga nesses redes, e que hoje vive nos States. Ela, sem ciúmes, sabe o quanto amei e aprendi com seu pai. Élcio Camões de Oliveira, funcionário também dos institutos, pintor que não atingiu a fama, discípulo e amicíssimo do velho Alberto da Veiga Guignard (Eduarda Pacheco entende disso) e que me deu a honra de pequena convivência, em Ouro Preto, com o guru da pintura mineira. Élcio, homem forte, saia de casa apenas de camiseta, não usual à época, ia nos encontrar naquela esquina, sentado com gente no murinho e na calçada, e gastava parte de seu tempo, até noite, mergulhado com o Arnaldo e comigo em grandes conversas, ou em longos e contemplativos silêncios. Foi ali, entre nós, que descobri, para sempre, que Deus era uma balela cuidadosamente esculpida pelos homens dominantes, mas, em compensação, foi ali que aprendi, também pra sempre, a contemplar e amar o cosmo e o infinito, e aprendi a amar o reflexo desse amor sem fim que brilhava a meu lado, no mais miserável menino faminto, ou assustado que me estendia a mão.
A meus olhos, Élcio era um grande humanista e libertário. E ainda o lembro assim, firme e pra frente, apesar da imensa provação que a vida lhe impôs, zelando durante anos e anos, muitos, pela Marisa, filha amada, então numa cama, em estado vegetativo. Eu também amava a libertária e feminista pioneira Marisa, linda, leve e solta. Se olho de hoje, não tenho dúvida de que a Marisa foi a amiga mais marcante que tive em minha vida (um detalhe: Marisa era unha e carne, naqueles dias, com uma vizinha que morava um pouco distante, meio sisuda e com fama de inteligente, chamada Dilma Rousseff). E que o Arnaldo foi o amigo mais marcante.
Sobre o Élcio, um registro que sempre gosto de fazer, por ter sido pra mim uma lição eterna. Estava eu meio macambúzio por alguma coisa que ouvira, quando ele, ali na esquina, me pegou pelos ombros e meteu os olhos nos meus, e mandou bala:
- Paulinho, atenção!, não aceite nunca a piedade alheia. E sabe porque? Porque a piedade é o gozo do medíocre.
Óbvio que o causo planejado, de uma travessura braba que o Arnaldo e eu fizemos, fica adiado por um tempinho. Por agora, apenas uma contextualização dos personagens. Não muito depois daquelas noitadas, a ditadura militar chegou com suas garras ferozes, e sobraram muitos arranhões para a dupla de amigos. O Arnaldo, um homem bonito e forte, absolutamente avesso às injustiças, um homem de ação, não demorou muito a cair na clandestinidade, militando na luta armada contra o regime. Eu segui vivendo, estudando, militando sem disciplina, de minha forma desorganizada, sempre tendo o anarquismo como sonho íntimo no peito.
Eis que na carreirinha chega o janeiro de 1973. Poucos dias depois de ter tido um contato ligeiro e hiper-clandestino com o Arnaldo, as balas do delegado Fleury e seus asseclas despedaçaram o corpo de meu amigo nas ruas de São Paulo. Logo logo, questão de dias, a notícia de que meu irmão mais novo morrera num acidente de estrada, no famoso trevo da morte, em Uberlândia.
Eu estava fazendo o possível e o impossível para sair do Brasil por uns tempos. Razões subjetivas e objetivas. Eu já estava formado em Ciências Sociais, e dava aulas de Psicologia Social como professor substituto. Eu estava com meu fusquinha recuperado (mas o venderia mais à frente pra fazer caixa pra viagem). Pretinha então era doce saudade. O coração batia forte por uma aluna da psicologia, baixinha e bela de abafar meu fôlego. Nosso caso não avançou muito, eu temia que por aquela paixão os planos da Europa viessem por terra. Eu tinha que ir. Aqueles três anos, sem voltar aqui, seriam fundamentais para meu reequilíbrio pessoal, dentro do possível. Abafei a paixão. Fui. Ela se casou com um grande amigo, jornalista, e as vidas seguiram. Não nego, que não sou de negar, que durante essas décadas, ela trabalhando, crescendo e brilhando na boa militância, eu feliz da vida ao lado da Katinha, amor da minha vida, quando a gente se encontrava nas coisas da vida social. com muitos interesses comuns, os meus olhos ficavam meio fugidios, e batiam pequenas cafubiras na espinha. Esse sou eu. Engraçado, penso agora, é que ela não tem ideia disso que agora conto, e não sei se ela se sentirá homenageada ou traída em nossa longa amizade (inclusive porque ela sempre passeia por aqui, nas páginas desse Facebook). Ver-se-á. Para o maridão, amigo, um beijão carinhoso.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aos que me leram por aí, e ficaram com a pulga atrás da orelha, pensando "sei não esses causos todos, assim...", a esses eu garanto, e agradeço a oportunidade, que obviamente sou um mentiroso. Sem mais, nem menos. E digo que sem ser mentiroso, fantasioso, brincalhão com ideias e palavras, putz, não dá nem para começar a tentar contar causos, histórias, balelas, e até meras fofocas. As verdades, os prazeres e as dores da vida só são passíveis de virar histórias, e chegar aos outros, se a mentira antes traçar os parâmetros e observar o quanto precisa oferecer de si para tornar causos e histórias compreensíveis, toleráveis pela sensibilidade dos outros, e especialmente interessantes. Uma história, um causo, só passa a ter vida quando alguém se interessa por recebê-lo. Feito a gente mesmo, que só existe porque alguém nos reconhece, se interessa, nos traduz. Um ermitão só pode ser ermitão porque ele deseja se afastar das pessoas, ou seja as pessoas ausentes são a condição básica pro ermitão ser ermitão. Se elas não existem, ele alcançaria no máximo o status de solitário, ou de abandonado. Confere?

Por isso, sem humildade alguma, ao me reconhecer um mentiroso, eu digo que só posso sê-lo porque você se ofereceu, até se encantou, disposta ou disposto a acreditar em mim. A curiosidade e a dúvida são as matrizes do interessante, de algo ser atraente. Em especial algo imaterial, como o causo ou a história. Fundiu, deu fumacinha? Apaga logo que o tempo é de catástrofe.

Agora, preparo e afio meu dedo indicador, e como não sou proctologista, nem urologista, nem tarado de metrô, eu o enfio na tela, e ele vaza aí do seu lado, na telinha ou no telão, e aponta pro seu nariz, e brado: somos todos mentirosos! Como já andei dizendo, a diferença está no fato de eu me encontrar no grupo dos que sabem disso, que não se culpam por isso, que se divertem com isso, e que usam isso, infelizmente, nem sempre para o bem.

O que regurgitou essa conversa, agora mais floreada, foi o atilado e carinhoso comentário do Afonso Barroso: "É muito bom ler histórias assim, quando bem escritas. Pode ser ficção, realidade, fantasia ou tudo misturado, como você faz tão bem, caro Paulinho Saturnino Figueiredo Segundo". Me senti realizado e compreendido diante dessa erupção de causos e outros que me tomou, não sei porque, depois de tanto tempo literariamente, mas não só, mais lento e prostrado.  Saber não sei, mas chego a desconfiar. E não é, de cara, na vitrine, paixão ou mulher. Desconfio do doutor Esquerdo (até nisso faço questão), um de meus médicos, esse recente, que com feitiço e agulhadinhas andou abrindo umas porteiras enferrujadas na vastidão desse sertão, seco e meio descuidado, em que veio se tornando minha mente meio cansada. Algumas cumulus nimbus parecem se juntar nesses meus horizontes.

Ali, logo acima, como se pra separar madeira de brasa, foi que neguei às mulheres e às paixões o reconhecimento por romper obstáculos e desenhar meus destinos. Mentira pura, café com gordura, como repetíamos na minha infância que, por tão distante, me autoriza todas as mentiras.

Ah, as mulheres... e fiquei sozinho às gargalhadas ao encontrar a cena que nunca me saiu da moleira, e que (olha as bruxas aí, minha gente) deliciosamente estava me chamando quando despertei, hoje, de um cochilo à tarde. Sua benção Youtube, eu te adoro! 

Vamos à ela. Sequência hilariante da absoluta obra-prima do Federico Fellini, Amarcord.
É quando o maluco tio Teo, num passeio da família, sobe numa alta árvore, e declara guerra à família, e se recusa a descer. Suas condições para ceder são claras e irremovíveis. Aliás, sua condição. E ele a grita, para que o mundo o ouça.

- VOGLIO UNA DONNA... VOGLIO UNA DONNA... VOGLIO UNA DONNA (QUERO UMA MULHER...QUERO UMA MULHER... QUERO UMA MULHER)

E tio Teo na certa estaria lá até hoje, aos berros, não fosse a intervenção pontual e segura da misteriosa freira miudinha, com quem -por quais razões?- ele aceita ir pro hospício. E escrevo aqui, gargalhando como um tio Teo, maluco não sou... ainda não sou... sei lá, acho que ainda não... e o pior que ando namorando umas árvores por aqui por perto, tive até a ideia de pedir aos Bombeiros (depois que eles descansarem de Brumadinho) para me içar com guindaste e me colocar no galho mais alto... e eu nem tinha ideia do porquê dessa piração (se há dias coloquei meus Damares de lado)... mas agora, putz, já não sei... eu não seria tão ridículo... pior é que seria... ai, ai, ai...

Enquanto essa alucinação não se dissolve, peço àqueles que tenham algum contato com a Itália, em especial com Rimini, que sondem por lá se a freirinha ainda está viva, se ela teria vontade de viajar até ao Brasil, à Minas Gerais, ao bairro Santa Amélia, para eventualmente levar uma conversinha rápida daquelas com um... um... conhecido.

https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=_dn63mQeO4E

Bruxas? Não acredito, mas que existem, ah, existem. E tentam me dizer algo de poético, encantado.Ontem à noite, enquanto arrematava um causo, uma música divina, inesquecível, vinda de um passado profundo e de intensas emoções, passeou por minha cabeça e se assoprou em assovios distraídos.Maria, Maria, Maria, um dos temas do também inesquecível musical hollywoodiano West Side Story (Amor Sublime Amor), de 1961, do Jerome Robbins e Robert Wise, tendo a belíssima Natalie Wood no papel principal e modestos dez Oscars na bagagem.A latina Maria sendo interpretada pela branca Natalie Wood hoje seria rejeitada pelos movimentos sociais. E com meu apoio, desde que não tentassem destruir o passado da arte, e buscassem analisá-la dentro de sua época e seus condicionantes ideológicos e de produção. Mas esse é outro papo, infindo e ardoroso
Maria, Maria, Maria... haja coração.
O enigmático vem agora. Depois de uma noite bem dormida, inclusive por ter parido o caso da Maria, Maria, Maria, ops, digo, da Pretinha (me desculpem o erro... é que elas são vizinhas em minha alma poética), acordei e liguei a TV, como de hábito, sintonizada no canal em que estava o timer, e que embalou meu adormecer (nem carece xingar, que sei o quanto isso é danoso etc).
Nessa madrugada, como muitas vezes, no Telecine Cult, canal 666 da Net. Acordei, esfreguei os olhos, e cutuquei o controle. Fiquei besta, bege, arrepiado. O que estava passando? West Side Story, e um pouquinho depois soou o Maria, Maria, Maria. Meu velho coração se desplugou por minutos do vigilante marcapasso, e saiu dançando quarto a fora. Na minha cabeça só a velha certeza de que a vida é bela.
Uma correção: eu disse estava passando e, nada disso, ainda temos uma hora de filme pela frente. Se eu fosse você, veria ao menos um pedacinho.
Beijocas dominicais.