quarta-feira, 4 de setembro de 2019


Mega mico, hoje no Minashopping. Perguntei pelo banheiro adaptado, a moça da segurança me encaminhou.
Cheguei na porta onde se lia: EXCLUSIVO PARA PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS.
Como eu só pretendia um xixi, já latejante, pensei: xixi, ao que eu saiba, não é nenhuma necessidade especial, mas encarei ali mesmo.
Aperto um botão, uma voz vinda do além pergunta o que foi. Só quero entrar no banheiro, disse eu, já temeroso com os efeitos deletérios daquela demora. Um estalo, e a porta se abre.
Ufa! Entrei. Aliviei. Lavei as mãos e fui abrir a porta. Digo, tentar. Empurrei, sacudi e nada.
Como não era muito sedutora a perspectiva de passar ali minha noite, embora estivesse até cheirosinho e com musica, não resisti à tentação de testar um botão, ao lado do vaso, contornado pela inscrição EM CASO DE EMERGÊNCIA, ACIONE O BOTÃO. Achei que era o caso, e mandei o dedão. Pra quê... seria menos traumático ter passado lá uma noite semi-tranquila.
Um alarme ensurdecedor invadiu aquela área do shopping. Juntou algumas pessoas, uma tensão se espalhava no ar.
Foi quando o rapaz da faxina, acompanhado por dois seguranças, abriu a porta por fora. Eu, mais assustado que eles saí de fininho, olhando pra trás, com aquela cara de “tá acontecendo alguma coisa ali, alguém tem ideia do que seja?”
Ainda demoraram um pouco a desligar o alarme escandaloso, e as pessoas tomaram rumo. E eu ali, disfarçando.
Foi quando o rapaz da limpeza me chamou baixinho, do alto de sua humildade, e me pediu para entrar no banheiro em sua companhia.
Com carinho e compaixão por meus cabelos brancos, me explicou didática e singelamente:
- da próxima vez, basta o senhor apertar esse outro botão, aqui ao lado da porta, que ela abre.
Mais não disse, e nem carecia. Recolhi-me à minha insignificância, e fui tomar um café expresso duplo. E pedi que fosse bem forte. Só pra ver se eu acordava daquela vergonha.
Bem feito pra mim. Quem mandou achar que não tinha necessidades especiais? Bobeira é deficiência.
Eu na dentista. Motorzinho zoando.
De repente, dou um suspiro profundo, seguido de um “ai, ai”.
A doutora para a maquininha, e pergunta:
- tá doendo?
E eu, ainda suspirante:
- não, querida. Foi só um espasmo de frescura!

Já não se fazem machos como outrora, né?

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Contra o ensino militarizado. Postado no FB em 29/08/19

Hoje, na visita ao Colégio Estadual, da qual falei antes, ao ver a moçada sentada na grama, namorando, tocando violão, feliz e falante, fui tomado pela certeza de que lutarei, mesmo com minhas frágeis armas, enquanto puder contra a tara da militarização do ensino fundamental e médio.
O Colégio agora funciona em tempo integral, o que pra mim foi agradável surpresa. Pude conviver com eles em aula, já que tive a honra de contar um pouco de nosso história para alunas e alunos que agora ocupavam a mesma sala que deixei em 1968, e durante o almoço coletivo, com eles se espraiando por todos os espaços, livres e aparentemente felizes.
Conversando com o diretor e o vice, gente finíssima, engajada num processo de criatividade e crescimento, olhando em volta, vendo registros de protestos e desejos, senti ódio dos portadores da tristeza e da morte do espírito livre, militaristas que só arrotam disciplina, medo e submissão. Se eles se impuserem, aí os danos serão irreparáveis por longo tempo. Se a esperança não tiver a juventude como aliada, ela estará condenada ao fracasso e ao desânimo.


Registro com a equipe de filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, do qual participei hoje. Atrás de mim, os velhos amigos Marcinho Borges e Murilo Antunes, e sentada, em primeiro plano, a fantástica Ana, diretora e chefona do projeto. Devo estar sendo parcial, mas prevejo um filmaço, cutucando as encruadas memórias mineiras.

Filmagem do doc sobre Clube da Esquina, no Colégio Estadual, em 29/08/19



Ah, quanta honra. Uma foto que guardarei como um troféu por um dia feliz, de imensas emoções. Filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, ontem, 29/08/19, no Colégio Estadual.
Sem viés ideológico (viu, Bozo? Viu, Zema?), da esquerda para a direita, a Ana, diretora do filme, o Rodrigo, o Reinaldo (respectivamente vice e diretor do Colégio, gente de primeiríssima), o Zé Roberto, produtor do filme e filho do meu mano véio Marcinho Borges, que vem em seguida, e, encerrando a fila, o Eduardo Moraleida. Sentado, curtindo essa moleza, esse que ora vos fala, e que uma amiga disse há pouco que está a cara do Claude Monet (claro que sem o talento).

No Colégio Estadual, 50 anos depois.



Hoje, depois de meio século, voltei ao lugar onde vivi os melhores, mais encantadores e produtivos três anos de minha já longa vida. O Colégio Estadual Central, em Beagá, e os anos foram 1966,1967 e 1968.
Tendo sido convidado, pouco gentilmente, a abandonar o Colégio Marista, transferí-me para esse paraíso. E ali, mesmo naqueles anos de chumbo, ou talvez por isso, encontrei a diversidade, a inteligência, professores e colegas me ajudando a moldar meu caráter e a juntar os valores, especialmente humanistas, que ainda carrego comigo.

Essa manhã voltei lá, convidado a participar de um documentário profissional que está sendo realizado sobre o Clube da Esquina, uma de minhas praias de então. Em companhia do Márcio Borges e do Murilo Antunes, mergulhei de cabeça nas lembranças e nas experiências que faziam dali, nosso recanto comum, um vulcão de arte e de política, que espalhou suas lavas sobre aquele tempo.
Voltei à minha sala, conversamos com grupos de alunos, refizemos para as câmeras as trajetórias de então. Chorei que nem uma carpideira do sertão nordestino, disse à moçada que nos seguia, curiosa, muitas palavras de esperança pelo futuro que eles saberão construir, honrando a história do nosso Estadual.
O pequeno vídeo em anexo retrata minha entrada emocionada naquele espaço encantado, e a repetição do agradecimento, que um dia fiz cara a cara e diante de um auditório lotado, ao modesto Niemayer por ter colocado no meu caminho uma rampa que mudaria o meu destino, e não uma escada, que impediria tal alquimia. Ele deu um leve sorriso.
Meio sem treino, como tenho vivido, curto agora uma baita ressaca por tantas emoções.

E o Clube da Esquina? Postado no meu FB em 31/08/19

Como andei falando muito sobre o documentário do qual participei, no Colégio Estadual etc, a amiga Adriana Saldanha Guimaraes perguntou num comentário: "E qual sua história com o Clube da Esquina?"
Reproduzo o que respondi lá:
"Adriana, sabe que nem sei. Convivência com queridos amigos durante um tempo da vida, e depois mais esporadicamente. Colega do Marcinho Borges, amigo e admirador do primogênito Marilton Borges (o mais musical da família, em minha opinião), a frequência naquela casa sempre agitada e cheia do Salomão e Maricota, Estadual, Maletta, CEC, Imprensa Oficial. Uma Beagá mais provinciana e calma, onde as coisas se misturavam sem grandes projetos, com poética singeleza. Não raro estavam na casa de meus pais, no Carmo, personagens que aos poucos eu veria mais e mais nos registros da mídia: Bituca, Toninho Horta, Fernando Brant, e tantos outros. Uma foto minha na capa interna do LP Clube da Esquina me batizou como membro daquela comunidade que ganhava o mundo. Fui morar no exterior, depois viver na UFMG, e os caminhos correram como paralelas que vez ou outra se encontram. E restaram lembranças, muito amor e amizade. Seu saca-rolhas é bom. Acho que nunca falei tanto sobre isso".

Em gratidão ao mano véio Marcinho Borges

Ainda sobre minha vivência e convivência com o Clube da Esquina, assunto que me deixou matutando a partir da participação no documentário sobre o movimento, em tomadas filmadas no Colégio Estadual, e a partir da despretensiosa pergunta de uma amiga, por aqui. Descobri que eu não sabia o que dizer.
O sentimento que sobreveio nessa matutagem foi o de gratidão, e em especial por uma figura bem central não só no movimento, mas também em minha vida. Em especial na virada radical que eu tentava dar a ela quando entrei no Estadual, e me joguei no mundo, tentando desconhecer as perenes dificuldades de locomoção.
Apesar de pouco mais velho que eu, o Márcio Borges era essa figura, a quem chamo de mano véio, um amigo mais que querido. Com o passar dos anos, e com os rumos das respectivas vidas, a gente foi se encontrando mais e mais raramente, quase um nada. O que não abala o tanto que gosto e curto esse cara falador e de inteligência ágil e brilhante.
Ele vai achar esse papo meio esquisito, mas naqueles anos de maior convivência ele foi, sem pretender, nem posar como, uma referência para a minha redescoberta do mundo, em especial do mundo sensível. Só não digo quase um guru, pra ele não exagerar na máscara.
Em longas e boas conversas, muitas vezes em grupos, em botecos, ele me inoculou a paixão pelo cinema, que inda carrego, me aplicou em fundamentais da literatura mundial, coisa distante de um egresso de educação marista, e curtimos muita música, e essa era uma paixão que eu carregava desde menino, e ainda carrego, sempre fiel aos pilares de nossa magnífica música popular. E aqui penso em Luiz Gonzaga, Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha e tantos outros que frequentam meu cotidiano.
Voltemos. São fascinantes e curiosas essas sínteses que, no matutar, adquirem rumos próprios, incontidos. Como se ficasse claro que minha vivência com o Clube da Esquina tem quase o molde de minha convivência com o Marcinho.
É certo que dali abri o leque, desdobrei em amigos, conheci boa parte da mais fina flor dos instrumentistas de então, vi poetas e músicos em efervescência criativa, aprendi muito e fui feliz.
Marcinho fez de mim um personagem no seu livro Os Sonhos Não Envelhecem”, e agora me convoca para o documentário. Isso me ajuda a compreender minha vida, e joga foco nesse mistério do amor maior que chamam de amizade.

Zapeando no tédio das manhãs

Após longa ausência, hoje fui zapear pelos canais abertos da TV, na programação matutina dirigida às donas casa, aposentados, desempregados e àqueles que por razões diversas, entregam suas manhãs à telinha companheira da solidão e do tédio.
Como professor, e em poucas investidas profissionais no mercado, sempre fui próximo ao tema e a seus desdobramentos, mas isso não reduziu a perplexidade com o que vi essa manhã. Um circo de horrores comerciais, explodindo todos os limites do que um dia foram conquistas, até de ordem legal, no que se pretendia defesa do cidadão e do consumidor.
Sem diferenciação de classe social, apenas de qualidade e preço dos produtos, mais ou menos a mesma aberrante estratégia ocupava todos os principais canais. De Edu Guedes a Fátima Bernardes, da Record à Band, o criminoso assédio à auto-estima, em especial das mulheres, mas não só, descortinava a certeza que os últimos resquícios de ética haviam ficado nos bancos escolares, ou, mais provavelmente, sufocados sob os contratos nos departamentos de marketing e merchandising das emissoras.
Testemunhais, até do vendilhão Louro José, empurravam para os do lado de cá das telinhas (hoje, telonas) a culpa pelo sentimento de fracasso pessoal, ou de infelicidade. Quem mandou não usar o creme X, ou se empanturrar com a vitamina Y? Quem mandou não superar seus limites, e se tornar empreendedor(a) como a jovemZ, que saiu da favela e hoje é líder mundial na depilação das partes íntimas dos homens modernos?
Não me refiro aos comerciais, nos devidos e legalizados formatos e horários, mas à diabólica mistura entre os personagens de sucesso, ricos e famosos, e os produtos que quase acidentalmente se espalham pelo cenário, e sobre os quais se contam encantos testemunhais em pequenas intervenções. E que, por serem mais caros, talvez por serem ilegais, fazem a fortuna de apresentadores e reforçam o caixa dos patrões.
A legislação chegou a restringir isso fortemente, mas leva jeito dessas leis terem apenas saído de moda. Com o devido e sacana respeito, quando vejo a Ana Maria Braga injetar subliminarmente em seu público-alvo, a cada manhã, determinada mensagem, sinto o quão longe avançamos. Ela parece estar sempre dizendo, nas entrelinhas: “vejam eu, cento e muitos anos bem vividos, aparentemente ainda andando e falando, e isso se deve a essa vitamina aqui, aquele creme ali, e àquele produto acolá... que, desculpem, não estou enxergando sem meus óculos novos, da Ótica Carol”.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Estão preparando uma cama de gato pra mim, aqui no #Facebook. Já me tiraram do ar duas vezes em tempos passados. Daí o Paulinho II, já que minha página anterior, ainda aberta, era censurada e suspensa quase semanalmente. O que me obrigou a migrar pra outra, mesmo deixando um monte de amigos pra trás. E não consegui na primeira tentativa.
Porque digo isso? Acabo de receber uma advertência por queixas contra uma postagem com nudez... feita há quatro anos (em verdade, 2 anos e sete meses, como verifiquei depois), e da qual não me lembrava. Uma brincadeira com Marx saindo do mar com um corpo de mulher com os peitos de fora. E me ameaçaram dizendo que em caso de repetição serei punido. E, na prática, me obrigando a concordar com o puxão de orelha por ter infringido os padrões de moralidade do Facebook.
Exatamente como os ataques seguidos que recebi naquela época, com queixas massivas de pessoas que depois se apresentaram a mim, via Twitter, como precursores da construção do Mito. E zoavam com minha cara.
Portanto, se hora dessas eu sumir por dias ou mais, saibam que provavelmente estarei sendo digitalmente esfolado nos porões escuros do reino do Zuckberger. Mas que voltarei, nessa ou noutra página.
Algo me diz que aquela matilha de filhos da pobre égua voltaram a pegar meu rastro. Ver-se-á...

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Pena que não printei ou fotografei o texto da advertência que o #Facebook me deu ontem. Inacreditável. Como a antiga foto, do início de 2017, que gerou o fato mostrava mulheres nuas, todas com cabeça de Marx, saindo do mar, recebi uma pérola do mais safado puritanismo yankee.
Lá se dizia, reproduzo de memória, que pelos padrões de moralidade do site, a exposição dos seios femininos só pode se dar em atividade de amamentação ou de tratamento médico, sem exposições excessivas.
Só não mandei introduzirem o FB no rabicó porque, infelizmente, ainda dependo dele para minhas atividades diárias.
Mas, agora quem faz uma advertência sou eu. Às amigas, travestis, transgêneros que por aqui transitam: CUIDADO COM OS NUDES QUE VOCÊS ANDAM ENVIANDO. MANTENHAM UM BEBÊ OU UM DOUTOR AO LADO.

domingo, 11 de agosto de 2019



Amor é isso. Ganhar do filho bem tímido, como presente do Dia dos Pais, uma cachaça chamada Bem Me Quer.
Como sou cada dia menos afeito à divisão tradicional de papéis na família de hoje em dia, tempo em que muitos lutam para romper os ditames repressivos do patriarcalismo, desejo um feliz Dia a todas e todos que, com amor, cumpriram funções e tarefas habitualmente atribuídas ao sexo masculino.

sábado, 10 de agosto de 2019

#Globo ataca com agressividade e ousadia a sua crise financeira e a concorrência dos novos tempos.
Vão disputar no tapa o cenário das narrativas que hoje motivam o imenso público que se volta para o audio-visual como fonte de entretenimento e informação. E agora, e em futuro previsível, a Globo será imbatível em termos de produção nacional. Produção própria ou em consórcio com produtoras brasileiras, várias de ponta, mesmo se comparadas à produção internacional.
O inimigo a ser enfrentado não será encontrado por aqui. Vem de fora, da fantástica massa de produções internacionais que disputam a primazia mundo a fora. Uma produção que chega a nós através do estrondoso sucesso de operadores como, na liderança ainda folgada, a Netflix, mas também da HBOGO, da Prime Vídeo (Amazon) e outras. Chega-se até ao extremo de pequenas operadoras voltadas para um público cult, como a MUBI (minha predileta).
Em verdade, acho que estou fazendo um convite para que os amigos e amigas dediquem um olhar mais detido e sofisticado à Globo, em especial àquela que existe além do jornalismo. Gostando ou não, assistindo ou não, é difícil, e continuará sendo, compreender e discutir o imaginário e a cultura no cotidiano brasileiro sem contemplar o estado atual dessa disputa.
De seu lado, para sobreviver ao interesse público, a Globo voltada para a produção de narrativas de ficção ou de documentário terá que ampliar a gama valorativa e temática de sua produção. E, olhando com realismo, em muitas de suas produções a Globo já está um passo além do senso comum, propondo questões que chegam a cutucar o dito status quo.
Bem sei que a discussão é bem mais complexa, e que não são poucas as armadilhas que vêm embutidas nos aparentes avanços. Mas, o pretendido aqui é o desafio ao pensamento que tende a se acomodar diante de questões que pareçam consensuais em nossos grupos de referência e convivência. E, óbvio, uma boa pitada de provocação.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A quem interessar possa, mesmo que seja só para me chamar de pentelho, insistente, sem noção, chato. Aceito tais méritos. Para facilitar a leitura de certos escritos, de agora e de antes, espalhados pelo caos que é minha vida, estou tentando reuní-los no Rindo de Nervoso... Ainda, meu velho blog que andava desativado (mas já foi bom de dança). 

quarta-feira, 24 de abril de 2019




Contemplando esse céu impecavelmente estrelado ( antes que a lua se intrometa), a cabeça saiu por aí, atraída pelo feitiço das constelações. 

Meu coração foi ocupado pela Katinha, amor da minha vida, e pela lembrança de como gostávamos desses céus, de namorar no canto mais escuro, escorando a leveza infinita do universo sobre nossas cabeças. 

Um céu, em especial, nos convidava aos êxtases. Céu do sertão, quando voltávamos à noite da Cordisburgo de minha mãe. Viagem que a gente adorava fazer. 

Na estrada, quando da calmaria das altas horas, era encostar o carro, apagar as luzes, e flutuar no imenso daqueles pontinhos resplandescentes, sem pressa, nem metas. Onde, quem sabe, meu desejo sabe, a minha Flô amada dança pra sempre seus sonhos de fada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019



De repente, nas dobrinhas do cotidiano, mais uma xexelência da dona Katinha, amor da minha vida.

sábado, 16 de fevereiro de 2019



Amor não é um sentimento, é uma habilidade. Com tal poderoso petardo do jovem filósofo suiço Alain de Botton gastei algumas horas dessa noite meio insone. Com a chuvinha persistente, a noite era um convite ao bom sono, mas troquei parte dela, quietinho e deitado, por aquele que talvez seja hoje meu esporte ou hobby predileto. Pensar. E me esforçando por reduzir ao possível ansiedade e angústia, estados d'alma que não sabem ver o cidadão matutando, e logo querem um lugar na mesa, um copo pra beber de sua bebida. Pensar deve trazer conforto e dar prazer. E nunca culpa por horas, ou mesmos minutos, pretensamente perdidos. Pensar  não traz lucro, nem gera prejuízos, ao menos não deveria, posto que não é mercadoria.

Livre pensar é só pensar!

Repito o dito do Botton: amor não é um sentimento, é uma habilidade. E vejo portas se abrindo a tamanha lucidez. E tocando em algo que me é muito caro, e que me cobre de cuidados ao me expressar. De tanto cantar e decantar meus amores, e tão especialmente o longo e delicioso amor vivido com a Katinha, amor da minha vida, sempre temi, e temo, escorregar para uma visão idealizada do amor, da qual absolutamente não compartilho, e levar às pessoas a falsa impressão de que estávamos, ela e eu, destinados um ao outro, de que seríamos escolhidos e abençoados por Deus ou pelo Diabo, ou que, como cantaria a Tetê Espínola, nosso amor estava escrito nas estrelas. Na na nim na não.

O pior produto dessas idealizações, e já falamos disso nesses papos por aqui, é, eventualmente, mesmo após um doce suspiro, levar sofrimento às pessoas. Se a pessoa embarca nessas idealizações, e num parco auto-exame se sente não contemplada nesse sorteio, talvez cósmico, cujo prêmio é a felicidade e uma imaginária vida de encantos, ela acabará se fazendo infeliz. E nos colocando, Katinha e eu, num patamar onde a felicidade seria a norma, numa vida de fluxos e sentimentos positivos. E sendo a vida só uma, e danada de curta, se chegaria a perguntar: porque que não sobrou nem um pouco dessa festa para minha dança.

Se levarmos adiante a fantasia de que no amor, em seus momentos mais vibrantes, ficaria clara a certeza de que fomos feitos, nas tramas do destino, um para o outro, teríamos que inventar conversa nova se tentarmos entender algo mais comum do que parece. Casais, e não importa com qual afetividade se escolheram, ou encontraram, vivem como dois pombinhos durante anos a fio. Olhamos encantados: ah, o destino! Mas de repente, por tantas razões quanto o número de habitantes do planeta, eclode a crise, a separação e, não raro, aquele tanto amor, por reações que os alquimistas de todas as eras e latitudes nunca conseguiram decodificar, se transforma em desprezo, muitas vezes em ódio (e, atenção, não estão aqui em foco as muitas e muitas separações que se transmutam em companheirismo, belas amizades etc).

Não. O amor não é um sentimento, é uma habilidade. Ultrapassado o primeiro clic, ou atração, que obviamente existe, no momento seguinte o amor já é uma construção, uma habilidade. Nessa habilidade, e aqui decolo eu, o fator preponderante, vital, é a comunicação. Comunicação (que pode render outras conversas, mais puxadas) porque é relacionamento, e não existe outro meio de se relacionar. Comunicação com perfil próprio, onde o silêncio, e cada vez mais com o passar do tempo, ocupa, ou deveria ocupar, uma maior centralidade. E que não se confunda silêncio com palavra sufocada, com impedimento de se manifestar, ou com prostração diante da desatenção e do desprezo alheios. Falo de silêncio ativo, parte da conversa, economia de palavras diante da empatia com a parceira, ou parceiro. Silêncio sem ansiedade, que abriga sorrisos ou olhos cerrados. Silêncio que permite a dois, ou mais, envolvidos matutar juntos, mas separados. Silêncio que permite a dois seres humanos, por exemplo, contemplarem o universo em noite estrelada, vivendo a comunicação intensa de uma mão de um repousando sobre a mão de outro.

O papo é sem fim quando um tal assunto me pega no perdeu, playboy! A comunicação no amor, habilidade a se trabalhar, não é inata, exige que o outro seja reconhecido em sua inteireza, e assim acatado e respeitado. Se se estabelece uma hierarquia no direito à percepção bem informada do mundo, ou à expressão, em especial à fala, o amor já vai saindo de fininho pra fazer sua mala e buscar outro pouso. Manter viva a comunicação efervescente que se estabeleceu na intensidade das primeiras paixões, com a calma que naturalmente o tempo fez pousar, é uma das chaves do aparente mistério que faz boas relações duradouras brilharem aos olhos exteriores.

Brincando com as palavras antes do fim (certamente provisório): a habilidade com as habilidades é que abre o palco para a representação dos sentimentos no amor. E quem fecha as cortinas somos nós mesmos.

Boas matutagens nessa tarde chuvosa e quase fria de sábado. Ao menos em Beagá.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019


Minha finada patroa, que anda metida numa caminhada longa em demasia, carregava no peito uma excitante mistura de braveza e compaixão, ambas com frequência extremadas, que ela dissimulava com charme e elegância. Nunca, ou quase, perdendo a postura, o jeitão de uma, digamos assim, bela, recatada e da vida. Ela era tipo arroz é arroz, feijão é feijão, e quando tomava gastura de um alguém, ai, ai, ai, só uma junta de pacientes especialistas para tentar, eu disse tentar demovê-la.

Mas, para o bem da humanidade circundante, minha Flô foi sempre muito mais de amar as pessoas. Com paixão e disposição para defendê-las até dela mesma, se necessário fosse. E não se poupava. Nos lugares em que moramos, nesses mais de 40 anos, em uma semana já era beijinho pra lá, troca de receita pra cá, e a impressão de que nascera e fora criada por ali. E da empregada à madame, do lixeiro ao coronel, parecia uma coitadinha que só tinha um balaio pra carregar todas as coisas, juntas e misturadas.

Essa era a mulher que tanto amei. E sempre amarei.

Como isso é mais forte que eu, essa falação pescou um caso nas lembranças. Um caso curtinho mas que reflete bem essa minha deusa terrestre.

Numa daquelas tardes modorrentas, na porta do Rouxinol, onde estudava um pequeno Henrique, lourinho e sedutor, enquanto as crianças não atropelavam aos berros a pobre porteira que cuidava da saída, estávamos nós ali numa roda de conversa juntando muitas comadres e um ou dois compadres. Papo vai, papo vem, surgiu conversa daquelas de convergência unânime e imediata, sobre a sacanagem que é as pessoas não necessitadas ocuparem as vagas de deficientes, e por aí. Quem ousaria defendê-las? Ninguém.

Uma das mais excitadas, bem a seu estilo enfático, foi a nossa querida amiga S. Nossos filhos vinham juntos desde o maternal, e tínhamos uma certa intimidade e liberdade pra falar entre nós. Amigos. S. fez uma verdadeira pregação, todos admiravam seus ditos, e me apresentou como exemplo de seus argumentos, dizendo que sabia de meus apertos para estacionar. E foi que foi.

- Cooorta!!! Preparar para a próxima cena, no dia seguinte. E olha eu dando ares cinematográficos a meu caso.

- Claaaquete!!! Cena dois. Luz no ponto? Silêncio no estúdio. Rooooda!!!

Katinha e eu, no estacionamento do imenso Carrefour, na Pampulha. Devido ao horário, sobram vagas pra todo lado, com fartura. Virei o carro e me dirigi às vagas reservadas. Além de mais largas, elas ficam pertinho da rampa de subida. Preparo a manobra para estacionar ao lado de um carro que ali já se encontrava. Foi aí.

Katinha dona de extraordinária memória, especialmente se envolvessem números, deu um tapa no painel, e não vacilou pra levantar a voz, brava.

- Tico, pô, que maluquice! Esse carro é da S. E gente falou tanto sobre isso ontem.

- que nada Flô. É só parecido. Deixa pra lá. Vamos entrar.

- que deixa pra lá, nada. Vou deixar ao menos um bilhete.

- tá bom...

Cena três. Tendo descido a rampa, lá vinha a S., alegre e fagueira, com o carrinho cheio de compras, carinha de estar em paz com a vida. Quando ela chega uns cinco metros de nós, os olhos de S. se cruzam com os da Flô. Assustada, meio em choque, sem trocar palavras, S. olhou se não tinha um ralo em volta para mergulhar.

Aí, entrou em cena a curiosa personalidade de minha Flô. S. ensaiou inventar desculpas, mas conhecendo bem a Flô, desistiu logo. Seus olhinhos se encheram d'água. Olhei pra Flô, os dela também. Flô deu dois passos adiante e, encontrando a S. tornada estátua, a abraçou apertado. Muito apertado. Trocaram umas lágrimas. E saíram para o outro lado, uma com a mão no ombro da outra, conversando baixinho. Depois até riram.

Eu, que a essa altura já tinha me tornado parte da paisagem, cocei a barba, liguei o rádio do carro e fiquei matutando sobre a sabedoria da Rita que cantou que mulher é bicho esquisito.



A vida é matreira, mas como é bela. Hoje completam-se oito meses sem a Katinha, amor da minha vida, a meu lado.
Saudades infindas, mas a tristeza vem dividindo a cadeira com a gratidão. Portanto, que essa seja a música que comemora, hoje, meu amor por ela. E o dela por mim.

Video sobre os " Kene". Tecelagem Huni Kuin


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


Arnaldo e eu éramos adolescentes, e mais que irmãos, amigos-irmãos. E fizemos boa parte de nossas formações pessoais, fortemente humanistas, conversando noite a dentro, sentados no murinho da casa na esquina de rua Boa Esperança (onde ambos morávamos) com rua Passatempo, no bairro do Carmo, Beagá. Então um bairro de classe média, de casas baixas, no máximo sobrados, construídas sem ostentações.
Para se ter uma leve ideia, e não é esse nosso gancho de hoje, quando mudei pra lá corria o ano de 1949, e eu tinha um aninho, já paralítico e enfiado em tratamentos... existiam apenas três casas naquele primeiro quarteirão, a partir da rua Montes Claros. Diante de minha casa um campo de futebol, vacas pastando pra todo lado, e sob a janela, onde eu viveria grandes momentos, o caminho em meio ao mato, que levava à igreja do Carmo, ao tempo construção tosca e pequena. Ai, ai, ai, outros e outros causos.
E lá estávamos, Arnaldo e eu, uns 13 ou 14 anos depois do momento contado abaixo. Ele, filho de conhecido líder comunista, servidor nos institutos (como se denominavam o IAPC, IAPI, IAPTEC etc, antes de se juntarem), o João de Deus (sic) Rocha, o Rocha. Eu, filho do dr. Jacy de Britto Figueiredo, odontólogo, simpático à UDN e fã do Lacerda, muito careta e bem preconceituoso, bom de papo, mas enjoado quando implicava com algo, e como implicava. As mães, mulheres fortes, são outras histórias.
Conversando, rindo muito, esticando papos com outros amigos da turma de rua. Nenhum tão próximo, nem tão íntimo. Uma de nossas especialidade era filar cigarros, um ou dois, de passantes, e do coitado do guarda-civil que, ali, andava pra lá e prá cá, se protegendo do sereno apenas com um cassetete e um apito, que nunca vi apitar, zelando pelo sossego de um figurão, procurador geral do Estado, morador da casa ao lado. Figurão, mas de vida incrivelmente simples e modesta se vista pelos padrões e arrogância de hoje.
Levávamos para nossos papos a cosmovisão de duas casas parecidas, mas totalmente antagônicas. Acho que foi desde então que me interessei pela curiosidade, e pelo respeito ao que o outro tem pra me contar, e que eu ainda não sabia. Descobri que não havia estupidez maior e mais inútil que o invadir o momento da fala alheia, e mesmo depois de seu término, com a voracidade de ocupar os espaços e atenções. Tipo "ah, precisa de ver eu...", "mas se fosse eu...", "comigo isso...", "lá em casa então..." e o terrível, danoso e irritante "eu avisei... eu avisei... eu avisei". A fala do outro, seja qual for, sempre merece ser ouvida, digerida, meditada, mesmo se em segundos. E que a ela se deem as suites que elas mostravam carecer. E não devemos ter medo, nem ansiedade, nossa hora chegará, e será uma delícia ser ouvido, digerido, meditado.
Justiça gosto de fazer com os que, àquela época, gostavam de nos ensinar, de nos ouvir com respeito e seriedade, de pesar nossos argumentos, mesmo se não raro singelos, e contrapor ensinanças, lições de vida. O Rocha, pai do Arnaldo, com certeza foi bom mestre sendo bom comunista. Nos dava leituras mais teóricas, discutia argumentos. Era talvez excessivamente sisudo nessas horas. Mas um grande pra nós, ali, com bola no chão, foi um vizinho dele, pai de duas grandes amigas, e dois rapazes, que era visto pelos pais da redondeza como meio maluco beleza. Daqui a pouco vou cutucar a filha dele, grande amiga nesses redes, e que hoje vive nos States. Ela, sem ciúmes, sabe o quanto amei e aprendi com seu pai. Élcio Camões de Oliveira, funcionário também dos institutos, pintor que não atingiu a fama, discípulo e amicíssimo do velho Alberto da Veiga Guignard (Eduarda Pacheco entende disso) e que me deu a honra de pequena convivência, em Ouro Preto, com o guru da pintura mineira. Élcio, homem forte, saia de casa apenas de camiseta, não usual à época, ia nos encontrar naquela esquina, sentado com gente no murinho e na calçada, e gastava parte de seu tempo, até noite, mergulhado com o Arnaldo e comigo em grandes conversas, ou em longos e contemplativos silêncios. Foi ali, entre nós, que descobri, para sempre, que Deus era uma balela cuidadosamente esculpida pelos homens dominantes, mas, em compensação, foi ali que aprendi, também pra sempre, a contemplar e amar o cosmo e o infinito, e aprendi a amar o reflexo desse amor sem fim que brilhava a meu lado, no mais miserável menino faminto, ou assustado que me estendia a mão.
A meus olhos, Élcio era um grande humanista e libertário. E ainda o lembro assim, firme e pra frente, apesar da imensa provação que a vida lhe impôs, zelando durante anos e anos, muitos, pela Marisa, filha amada, então numa cama, em estado vegetativo. Eu também amava a libertária e feminista pioneira Marisa, linda, leve e solta. Se olho de hoje, não tenho dúvida de que a Marisa foi a amiga mais marcante que tive em minha vida (um detalhe: Marisa era unha e carne, naqueles dias, com uma vizinha que morava um pouco distante, meio sisuda e com fama de inteligente, chamada Dilma Rousseff). E que o Arnaldo foi o amigo mais marcante.
Sobre o Élcio, um registro que sempre gosto de fazer, por ter sido pra mim uma lição eterna. Estava eu meio macambúzio por alguma coisa que ouvira, quando ele, ali na esquina, me pegou pelos ombros e meteu os olhos nos meus, e mandou bala:
- Paulinho, atenção!, não aceite nunca a piedade alheia. E sabe porque? Porque a piedade é o gozo do medíocre.
Óbvio que o causo planejado, de uma travessura braba que o Arnaldo e eu fizemos, fica adiado por um tempinho. Por agora, apenas uma contextualização dos personagens. Não muito depois daquelas noitadas, a ditadura militar chegou com suas garras ferozes, e sobraram muitos arranhões para a dupla de amigos. O Arnaldo, um homem bonito e forte, absolutamente avesso às injustiças, um homem de ação, não demorou muito a cair na clandestinidade, militando na luta armada contra o regime. Eu segui vivendo, estudando, militando sem disciplina, de minha forma desorganizada, sempre tendo o anarquismo como sonho íntimo no peito.
Eis que na carreirinha chega o janeiro de 1973. Poucos dias depois de ter tido um contato ligeiro e hiper-clandestino com o Arnaldo, as balas do delegado Fleury e seus asseclas despedaçaram o corpo de meu amigo nas ruas de São Paulo. Logo logo, questão de dias, a notícia de que meu irmão mais novo morrera num acidente de estrada, no famoso trevo da morte, em Uberlândia.
Eu estava fazendo o possível e o impossível para sair do Brasil por uns tempos. Razões subjetivas e objetivas. Eu já estava formado em Ciências Sociais, e dava aulas de Psicologia Social como professor substituto. Eu estava com meu fusquinha recuperado (mas o venderia mais à frente pra fazer caixa pra viagem). Pretinha então era doce saudade. O coração batia forte por uma aluna da psicologia, baixinha e bela de abafar meu fôlego. Nosso caso não avançou muito, eu temia que por aquela paixão os planos da Europa viessem por terra. Eu tinha que ir. Aqueles três anos, sem voltar aqui, seriam fundamentais para meu reequilíbrio pessoal, dentro do possível. Abafei a paixão. Fui. Ela se casou com um grande amigo, jornalista, e as vidas seguiram. Não nego, que não sou de negar, que durante essas décadas, ela trabalhando, crescendo e brilhando na boa militância, eu feliz da vida ao lado da Katinha, amor da minha vida, quando a gente se encontrava nas coisas da vida social. com muitos interesses comuns, os meus olhos ficavam meio fugidios, e batiam pequenas cafubiras na espinha. Esse sou eu. Engraçado, penso agora, é que ela não tem ideia disso que agora conto, e não sei se ela se sentirá homenageada ou traída em nossa longa amizade (inclusive porque ela sempre passeia por aqui, nas páginas desse Facebook). Ver-se-á. Para o maridão, amigo, um beijão carinhoso.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aos que me leram por aí, e ficaram com a pulga atrás da orelha, pensando "sei não esses causos todos, assim...", a esses eu garanto, e agradeço a oportunidade, que obviamente sou um mentiroso. Sem mais, nem menos. E digo que sem ser mentiroso, fantasioso, brincalhão com ideias e palavras, putz, não dá nem para começar a tentar contar causos, histórias, balelas, e até meras fofocas. As verdades, os prazeres e as dores da vida só são passíveis de virar histórias, e chegar aos outros, se a mentira antes traçar os parâmetros e observar o quanto precisa oferecer de si para tornar causos e histórias compreensíveis, toleráveis pela sensibilidade dos outros, e especialmente interessantes. Uma história, um causo, só passa a ter vida quando alguém se interessa por recebê-lo. Feito a gente mesmo, que só existe porque alguém nos reconhece, se interessa, nos traduz. Um ermitão só pode ser ermitão porque ele deseja se afastar das pessoas, ou seja as pessoas ausentes são a condição básica pro ermitão ser ermitão. Se elas não existem, ele alcançaria no máximo o status de solitário, ou de abandonado. Confere?

Por isso, sem humildade alguma, ao me reconhecer um mentiroso, eu digo que só posso sê-lo porque você se ofereceu, até se encantou, disposta ou disposto a acreditar em mim. A curiosidade e a dúvida são as matrizes do interessante, de algo ser atraente. Em especial algo imaterial, como o causo ou a história. Fundiu, deu fumacinha? Apaga logo que o tempo é de catástrofe.

Agora, preparo e afio meu dedo indicador, e como não sou proctologista, nem urologista, nem tarado de metrô, eu o enfio na tela, e ele vaza aí do seu lado, na telinha ou no telão, e aponta pro seu nariz, e brado: somos todos mentirosos! Como já andei dizendo, a diferença está no fato de eu me encontrar no grupo dos que sabem disso, que não se culpam por isso, que se divertem com isso, e que usam isso, infelizmente, nem sempre para o bem.

O que regurgitou essa conversa, agora mais floreada, foi o atilado e carinhoso comentário do Afonso Barroso: "É muito bom ler histórias assim, quando bem escritas. Pode ser ficção, realidade, fantasia ou tudo misturado, como você faz tão bem, caro Paulinho Saturnino Figueiredo Segundo". Me senti realizado e compreendido diante dessa erupção de causos e outros que me tomou, não sei porque, depois de tanto tempo literariamente, mas não só, mais lento e prostrado.  Saber não sei, mas chego a desconfiar. E não é, de cara, na vitrine, paixão ou mulher. Desconfio do doutor Esquerdo (até nisso faço questão), um de meus médicos, esse recente, que com feitiço e agulhadinhas andou abrindo umas porteiras enferrujadas na vastidão desse sertão, seco e meio descuidado, em que veio se tornando minha mente meio cansada. Algumas cumulus nimbus parecem se juntar nesses meus horizontes.

Ali, logo acima, como se pra separar madeira de brasa, foi que neguei às mulheres e às paixões o reconhecimento por romper obstáculos e desenhar meus destinos. Mentira pura, café com gordura, como repetíamos na minha infância que, por tão distante, me autoriza todas as mentiras.

Ah, as mulheres... e fiquei sozinho às gargalhadas ao encontrar a cena que nunca me saiu da moleira, e que (olha as bruxas aí, minha gente) deliciosamente estava me chamando quando despertei, hoje, de um cochilo à tarde. Sua benção Youtube, eu te adoro! 

Vamos à ela. Sequência hilariante da absoluta obra-prima do Federico Fellini, Amarcord.
É quando o maluco tio Teo, num passeio da família, sobe numa alta árvore, e declara guerra à família, e se recusa a descer. Suas condições para ceder são claras e irremovíveis. Aliás, sua condição. E ele a grita, para que o mundo o ouça.

- VOGLIO UNA DONNA... VOGLIO UNA DONNA... VOGLIO UNA DONNA (QUERO UMA MULHER...QUERO UMA MULHER... QUERO UMA MULHER)

E tio Teo na certa estaria lá até hoje, aos berros, não fosse a intervenção pontual e segura da misteriosa freira miudinha, com quem -por quais razões?- ele aceita ir pro hospício. E escrevo aqui, gargalhando como um tio Teo, maluco não sou... ainda não sou... sei lá, acho que ainda não... e o pior que ando namorando umas árvores por aqui por perto, tive até a ideia de pedir aos Bombeiros (depois que eles descansarem de Brumadinho) para me içar com guindaste e me colocar no galho mais alto... e eu nem tinha ideia do porquê dessa piração (se há dias coloquei meus Damares de lado)... mas agora, putz, já não sei... eu não seria tão ridículo... pior é que seria... ai, ai, ai...

Enquanto essa alucinação não se dissolve, peço àqueles que tenham algum contato com a Itália, em especial com Rimini, que sondem por lá se a freirinha ainda está viva, se ela teria vontade de viajar até ao Brasil, à Minas Gerais, ao bairro Santa Amélia, para eventualmente levar uma conversinha rápida daquelas com um... um... conhecido.

https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=_dn63mQeO4E

Bruxas? Não acredito, mas que existem, ah, existem. E tentam me dizer algo de poético, encantado.Ontem à noite, enquanto arrematava um causo, uma música divina, inesquecível, vinda de um passado profundo e de intensas emoções, passeou por minha cabeça e se assoprou em assovios distraídos.Maria, Maria, Maria, um dos temas do também inesquecível musical hollywoodiano West Side Story (Amor Sublime Amor), de 1961, do Jerome Robbins e Robert Wise, tendo a belíssima Natalie Wood no papel principal e modestos dez Oscars na bagagem.A latina Maria sendo interpretada pela branca Natalie Wood hoje seria rejeitada pelos movimentos sociais. E com meu apoio, desde que não tentassem destruir o passado da arte, e buscassem analisá-la dentro de sua época e seus condicionantes ideológicos e de produção. Mas esse é outro papo, infindo e ardoroso
Maria, Maria, Maria... haja coração.
O enigmático vem agora. Depois de uma noite bem dormida, inclusive por ter parido o caso da Maria, Maria, Maria, ops, digo, da Pretinha (me desculpem o erro... é que elas são vizinhas em minha alma poética), acordei e liguei a TV, como de hábito, sintonizada no canal em que estava o timer, e que embalou meu adormecer (nem carece xingar, que sei o quanto isso é danoso etc).
Nessa madrugada, como muitas vezes, no Telecine Cult, canal 666 da Net. Acordei, esfreguei os olhos, e cutuquei o controle. Fiquei besta, bege, arrepiado. O que estava passando? West Side Story, e um pouquinho depois soou o Maria, Maria, Maria. Meu velho coração se desplugou por minutos do vigilante marcapasso, e saiu dançando quarto a fora. Na minha cabeça só a velha certeza de que a vida é bela.
Uma correção: eu disse estava passando e, nada disso, ainda temos uma hora de filme pela frente. Se eu fosse você, veria ao menos um pedacinho.
Beijocas dominicais.

West Side Story no teatro. Integral.


Como se lê na Wikipedia:

West Side Story (brAmor, sublime amor — ptWest Side Story - Amor sem barreiras) é um musical com libreto Arthur Laurents, música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim. É inspirado por Romeu e Julieta de William Shakespeare.
A história se passa no bairro de Upper West Side, em Nova Iorque, em meados dos anos 1950, um bairro de minoria étnicas e classe trabalhadora. (No início de 1960, grande parte do bairro seria desmatada em um projeto de renovação urbana do Lincoln Center, mudando o caráter do bairro)[1]. O musical explora a rivalidade entre os Jets e os Sharks, duas gangues de rua adolescentes com diferentes origens étnicas. Os membros dos Sharks, de Porto Rico, são insultado pelos Jets, uma gangue branca. O jovem protagonista, Tony, ex-membro dos Jets e melhor amigo do líder da gangue, Riff, se apaixona por Maria, a irmã de Bernardo, o líder dos Sharks. O tema sombrio, música sofisticada, cenas estendidas de dança e foco em problemas sociais marcou um ponto de viragem no teatro musical americano. As canções de Bernstein para o musical como "Somewhere" tornaram-se bastante conhecidas.
A produção original da Broadway de 1957, foi dirigida e coreografada por Jerome Robbins e produzida por Robert E. Griffith e Harold Prince, marcou a estréia de Sondheim na Broadway. Realizou 732 performances antes de sair em turnê. A produção foi indicada para seis Tony Award, incluindo Melhor Musical em 1957,[2] mas o prêmio de Melhor Musical foi para The Music Man. Robbins ganhou o Tony por sua coreografia e Oliver Smith ganhou por suas criações cênicas. O show teve uma produção de Londres que ficou mais tempo em execução, vários revivals e produções internacionais, incluindo Brasil e Portugal. Ganhou uma adaptação para o cinemaem 1961, dirigida por Robert Wise e Robbins que venceu 10 Óscar incluindo Melhor FilmeDireção e melhor ator e atriz coadjuvante para Rita Moreno e George Chakiris.
(A beleza da Pretinha que retive na memória sempre me remete ao maravilhoso Orfeo Negro, especialmente nessa cena)


Corria sem suavidades o ano da graça de 1972. Melhor dizendo, mais um ano da desgraça brasileira. Eu estava nos meus derradeiros períodos do curso de Ciências Sociais, da FAFICH-UFMG, e no fundinho desejava dar um tempo longe do Brasil triste e reprimido de então. Mais do que um sonho, aquilo soava a um delírio. E o problema, ou solução, é que eu adorava, e adoro delírios. 

Para viver, sobreviver e juntar uma graninha, eu passava o dia na Faculdade. Era comum levar um sanduíche de mortadela de casa, e almoçá-lo com uma copada de café na cantina do Ernesto. A úlcera de esôfago deu até um tempo antes de cobrar a conta. Eu estudava de manhã, e à tarde cumpria funções diversas, de monitoria ou não, no Setor de Psicologia Social, sob a inspirada liderança do grande mestre Célio Garcia. Por aqui, outros causos, futuros. 

Meus deslocamentos eram meu calcanhar de Áquiles. As muletas me davam limitadas autonomia de andanças, e eu não conseguia usar transporte público, nem tinha grana pra táxi. O básico eram caronas, paternas ou outras, uma famosa pedição para outros, “oi, gente boa, tudo ok? Tá indo pra onde? Pode me deixar ali na esquina de X com Y? Que bom.  Vamos lá “. 

Fundamental era contar com os amigos mais velhos, ou bem aquinhoados, que tinham seus caros, ou filavam os dos pais. Outra fonte deliciosa de causos. A esses amigos, de verdade, e à paciência deles pra me rebocar praqui e pracolá, devo o que consegui ser. Talvez por isso eles se arrependam, mas já é tarde. Perderam, Playboys!

Vixe! Nem eu me aguento. Que saco. Onde fui parar. Volto ao causo. No início desse 1972, meu pai me deu um fusquinha amarelo, e minha vida virou de cabeça pra baixo (até literalmente, como veremos logo ali). Reprogramei-me física, cultural, profissional e, com certeza, até sexualmente. Ir a motel de carona, e eu ia, era, quando pouco, constrangedor para as parceiras. E nenhuma nunca chiou. Compassivas que eram, ainda me olhavam com os sorrisos mais lindos. Pergunto: um cara assim pode se queIxar da vida? Nem sendo demente. 

Com meu fusquinha, e a intervenção de amigos, logo arranjei trabalho como professor de relações humanas no Senac. E trabalhei como uma mula esconjurada, em todas as horas liberadas pelos compromissos acadêmicos. E comecei a juntar uns trocados. Certos dias chegava a dar dez aulas seguidas, de 50 minutos cada, com 10 de intervalo. Irreais porque alunos se agarravam em mim pra papinhos de arremate. Apesar de um spray de gengibre e própolis regar a goela, vez ou outra a voz sumia, se escondia no banheiro. 

Numa turma noturna, de repente surgiu uma pequena deusa. Linda, me cobria de sorrisos, de palavras, e sempre eu notava que após essas aulas meu cabelão, em rabo de cavalo graúdo, minha barba e minhas roupas ficavam faiscantes. Logo percebi que eram os brilhos intensos dos doces olhares da Pretinha que haviam respingado em mim.   

Um dia, não muitos dias depois, ao sair do prédio após minha última aula, tipo onze da noite, fui para meu carro estacionado ali pertinho, na rua Tupinambás. Vagas não eram problemas então. Não vi a porta. Nela estava encostada, o mesmo sorriso, o mesmo olhar, a linda Pretinha. Me olhou nos olhos, e foi direta:

- estou apaixonada por você, e quero ser tua.

Isso. Assim. Nesse tom novelesco, o que me surpreendeu, por ser Pretinha, uma moça, aparentemente tímida, que ainda não chegara a seus 20 anos de idade, apesar dos séculos de beleza miscigenada que nela se acumulavam. Se não me ajoelhei na calçada para beijar seus pés, de tanto encanto, foi porque meus aparelhos ortopédicos eram menos românticos que eu. Trocamos um beijo ligeiro, entramos no fusquinha e fomos aos desdobramentos que então eram menos aceitos que hoje em dia. 

 E foi cheio de orgulho, por não estar de carona ou taxi, e sim de condução própria, que, coração na boca, mergulhei no corredor escuro do Motel Hawai, na subida da antiga BR3 (aquela do Toni Tornado). O que ali se viveu e se vibrou, é coisa que um cavalheiro não conta, não tem direito de contar nem na beira do túmulo. Tenho vontade de estrangular esses babacas, incompetentes, que filmam e fotografam suas parceiras nessas horas, e depois tentam chantageá-las, aborrecê-las.

Pretinha que, tendo corrido tudo bem, hoje deve ser uma belíssima mulher na flor de seus 65 anos, mulata, charmosa, doce e sensual. Na certa, uma mulher de sucesso no que escolheu realizar na vida. Namoramos um tempo não longo. Pretinha tinha projetos diversos dos meus para o futuro breve, e para nossa paixão.

Chegou o dia que seria determinante. Depois da aula, ela me convocou para uma festa familiar. Queria que as pessoas me conhecessem. Fomos. Chegamos numa casa bonita, distante do centro. Quando ela me apresentou seu tio, o dono da casa, com quem ela morava, acho, tremi nas bases. Um negro bonito, forte, charmoso... e titular naquele time inesquecível do Cruzeiro (até para um americano). No ambiente, um pouco embaçado quando visto de agora, o Natal, o Dirceu Lopes, o Piazza. Talvez até o Tostão. E a Pretinha passeou comigo de braço dado. Via-se que ela havia falado de mim, e provavelmente bem. Meio zoado com tanta novidade, bebi uma, bebi duas, bebi todas. E ela me chamava a atenção. Me lembrava que eu teria que dirigir um bom pedaço. Me convidou a quietar por lá até resgatar o juízo. Nada. Eu me preocupava com o que tinha que fazer pela manhã na Faculdade, em verdade, mais que isso, quis dar uma de macho. Despedi-me. A festa já em baixa. Entrei no fusquinha, e fui.

Mais ou menos, pelo que me lembro, tive alguma lucidez e controle até chegar perto do Colégio Loyola. Dali uma grande descida que cruza duas avenidas importantes, depois uma subida de uns 100 metros, se tanto, e uma curva de 90º à direita. Pois esse foi o trajeto que, penso, fiz dormindo e misteriosamente incólume. Até que acordei entrando na curva, e motorista ainda pouco experiente, dei um golpe forte no volante, tentando o controle.

Tentando, disse bem. O fusquinha, em boa velocidade, capotou de uma vez, e subiu a avenida do Contorno, no rumo do Colégio Estadual (meu paraíso... agora ameaçando levar isso a sério), com o teto ralando o asfalto, rodas pra cima, cintos ninguém usava, até bater no poste que fica na esquina da rua Marquês de Maricá. E escalou o poste de bunda, o motor em cima, e parou quase na vertical, as rodas voltadas para a rua.

E eu lá dentro, de cabeça pra baixo, curando bebedeira na porrada e sem saber reagir. Tudo, nesses momentos, se mede em segundos. O óleo escorreu no motor quente e, pelo vidro traseiro estourado, o carro se encheu de fumaça. Juro que não sei como, saí pela janela e me arrastei para o meio do asfalto. A curva é muito perigosa, e de velocidade, e sem visibilidade, mas eu estava protegido pelo relógio. Eram 4 horas da manhã. Sem trânsito.

Logo apareceram pessoas saídas das casas (um amigo de um amigão meu fala disso até hoje), mas nada me marcou mais que o rapaz que estava com o carrinho de Hot Dog na esquina de cima, e que, correndo, foi o primeiro a chegar. E daí estabelecemos um dos diálogos inesquecíveis de minha vida:

- sai daí, moço, levanta logo. Você vai acabar sendo atropelado.

- você tá certo. Obrigado, disse eu. Mas pega minhas muletas pra mim ali dentro do carro. Veja se elas estão inteira.

- que muleta, moço? Cê tá é bêbado. Levanta daí. Deixa eu te ajudar.

E ele me deu uns dois tapinhas na cara ralada, suja, meio ferida. E insistiu:

- levanta...

- eu só consigo com minhas muletas. Acredite em mim.

Felizmente, bom homem do povo, ele acreditou, providenciou, e eu logo estava de pé, sóbrio como no dia da Primeira Comunhão, e morrendo de vergonha de mim mesmo. E da Pretinha. E isso acabou sendo um balde de água fria em nossa relação fogosa. Deu DR. Tesão baixou. E seguimos nossos caminhos, certamente um lembrando do outro com carinho e emoção. Fico fantasiando que em algum lugar do planeta, um dia ela lerá essa reverência carinhosamente relatada. E que, lendo, respire fundo, contemple o infinito do cosmo, e que me dedique alguns minutos de seus mais poéticos devaneios. Acho que ando precisado.