terça-feira, 10 de novembro de 2009

Muros da memória

Há 20 anos, o povo alemão derrubava o muro de Berlim. O mundo parece estar fazendo disso um dia de festa e reflexão. Vejo na TV uma Berlim chuvosa e muito iluminada, nas ruas lotadas uma euforia contida. A Guerra Fria acabou (ou deu um descanso, diriam os mais pessimistas), e para as novas gerações ficou, por vezes acho, o sentimento de que se trata de histórias de velhos, nostalgia a serviço de vidas onde o passado sobrepuja as intenções do futuro. Alguma razão elas devem ter. Mesmo sob tal risco, carrego a memória à Berlim que conheci, naqueles idos de 1975.

Morando em Louvain, na Bélgica, onde me pós-graduava em Comunicação Social, e tentava me aliviar um pouco das agonias que a ditadura militar impusera à minha geração estudantil (estávamos em plena era Médici), decidi conhecer de perto o tal muro que dividia dois mundos, e que dividia, também, opiniões, naquele tempo onde ideologia e política ocupavam lugar de honra nas mesas dos infindos papos. Revisei meu DAF vermelhinho, carro holandês miúdo, econômico, automático, e engenhosamente adaptado para deficientes físicos: eu andava, então, com muletas, só há uns 10 anos, pouco mais, me estabeleci como cadeirante. Fiz todo tipo de bico tentando juntar um extra, já que a bolsa que eu ganhara da Universidade Católica de Louvain só garantia, na continha, comida e alojamento. Um xará e amigo paulistano gostou da idéia, arranjou mais um amigo, e embarcamos os três rumo ao desconhecido.

Para se chegar a Berlim, por rodovia, talvez alguém não saiba, era necessário atravessar um bom pedaço da Alemanha comunista. As informações sobre as dificuldades burocráticas e policiais, para se enfrentar tal trajeto, produziam calafrios.

Mal imaginávamos que as dificuldades começariam bem antes. Como havíamos optado por transitar, sempre que possível, através de caminhos que fugissem aos roteiros mais turísticos, chegamos à Alemanha ocidental passando pela fronteira com a Holanda. Erro quase fatal, em especial num país, já de si paranóico, ainda traumatizado pelos atentados contra os atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. O policial parecia não crer no que via, naquele pequeno posto de fronteira: três brasileiros jovens, cabeludos e barbados, num carro belga, naquele canto meio isolado do mundo, incapazes de pronunciar uma frase que fosse em alemão... saiam do carro, mãos pra cima (o que minhas muletas faziam impossível, e foram compreendidas...), dirijam-se àquela cabine. A mímica, com uma arma na mão, era amplamente compreendida.

Daquele aquário onde fomos colocados, todos os nossos objetos pessoais espalhados numa mesa, vimos o meu carrinho ser revistado nos mínimos detalhes. E, ostensivamente, deixavam bagagens e utensílios espalhados no gramado ao lado. Esperamos bem umas quatro horas, sem direito nem a água, até que aparecesse um oficial do exército que falava um francês bem truncado, mas que, na situação, soava como música. Caprichado interrogatório, a simploriedade das respostas parecia absurda. Porque tão pouco dinheiro vivo? Fazer o que em Berlim? A programação de cada dia da visita, o que nos levava a altos exercícios de imaginação criativa. E, o mais complicado, porque aquele porta-malas com barraca, fogareiro a álcool, e tantos pacotes de sopa e macarrão, instrumentos de cozinha, e tão poucas peças de roupas para troca?

A liberação ainda demoraria bom tempo, e só veio depois de manifestarmos desejo de falar com o Consulado etc, e nos foi dado prazo de dez ou quinze dias, não me lembro, para fazer toda a viagem, e abandonar a Alemanha. Avisaram, também, que estaríamos sendo observados. E, como se parecesse pouco, veio a humilhação final de arranjar de novo aquela tralha no carro sob os olhares, e as imprecações, dos motoristas alemães interioranos que circulavam por ali.

O bom de um tal aperto é que depois tudo parece mais fácil e bonito. Atravessamos as auto-estradas da bela Alemanha ocidental (trechos que eu conhecera em viagens anteriores), até nos depararmos com a fronteira interna que nos introduziria ao misterioso e mítico mundo comunista. Fomos, de modo seco mas cordial, abordados por um casal de policiais que pareciam saídos de um daqueles filmes de espionagem passados na antiga União Soviética. Longos casacos escuros e aqueles bonés peludos, cujos protetores de orelhas ficam amarrados dobre a cabeça. O bom-humor e as piadinhas já haviam retomado seus postos entre nós. Em menos de meia hora já rodávamos na auto-estrada que levava a Berlim.

De mais estranho só a carência de traços daquele velho capitalismo que forjara nossas percepções, expectativas, e nossos gostos. Estradas e postos de serviços sóbrios, sem maiores apelo ao consumismo e a seus encantos. De constante só os carros da onipresente Polizei: era a gente parar, ou sair da rota para matar alguma curiosidade, e eles davam as caras, sem nenhuma preocupação em dissimular a companhia.

Chegamos a Berlim quando a iluminação feérica da cidade já impunha um contraste chocante com o mundo do qual emergíamos. Ao volante de meu carro modesto, mergulhei excitado e tenso por entre avenidas e placas que só agravavam minha desorientação. Era a mais agitada dentre as cidades da Europa que eu já pudera conhecer, impondo ares abusadamente cosmopolitas aos viajantes que chegavam de todo o mundo, a quase totalidade por via aérea, uns tantos por ferrovias, e, como demonstravam as estradas vazias de carros de passeio não orientais, bem poucos através das super controladas rodovias.

Não demorou para que o espetáculo de tantas luzes mostrasse seus sentidos perenes e agressivos. Era a face mais ardilosa da guerra cotidiana entre dois mundos ali representados, naquela Berlim que não abrira mão de ser vista como um dos centros do mundo. Nos dirigimos ao muro com ansiedade quase infantil, e partilhamos o sentimento de opressão expressado pelo paredão com ares de obra semi-acabada, irregular, escuro, com aspecto de ruína em alguns trechos. Acho que nem conseguimos dormir. Pela manhã iríamos à procura da minha amiga, em verdade uma mera conhecida, para os padrões afetivos europeus.

Ela vivera um tempo no Brasil, falava um bom português, e eu a conhecera na Bélgica, numa daquelas histórias de amiga da amiga que, por agrado e empatia, se cola no nosso querer poucos momentos após. Foi com ela, e com seus casos, que percorremos as curiosas e trágicas histórias daquela violência bem mais que simbólica, e que estava, então, bem na metade de sua imprevisível existência. Explico-me: o muro fora construído há 14 anos, e -quem ousaria prever?- outros 14 anos se passariam até sua queda. Lá, contemplando-o a poucos palmos do nariz, ele parecia eterno e irremovível. A frágil paz mundial da época, obra da Guerra Fria, latejava entre aqueles montes de concreto, salpicados de sangue e graves lembranças. Mesmo para quem, como eu, vinha de um Brasil submetido à violência das armas ditatoriais, incomodado por amigos e sonhos mortos, o muro só espelhava insensatez e barbárie.

Como alguém que se queria, e se quer ainda, de esquerda, tentei racionalizar e compreender o sentido político daquela monstruosidade. Tarefa impossível. Dali tirei lições que nunca mais me abandonaram, e, quando em 1989 acompanhei pela TV a queda do muro, não tive dificuldade em me sentir lá, de marreta na mão, ajudando a açoitar a estupidez humana.

Durante uns quatro ou cinco dias, intensos, atravessamos com a amiga boa parte da desafiadora e misteriosa Berlim. Clareava o dia, e lá íamos em busca de lugares e histórias daquela cidade quase habituada, se isso é possível, às graves crises e tensões. Dedicávamos especial atenção aos episódios provocados pelo muro na vida de praticamente todos os moradores. Nunca esqueci daquelas caras que, nos mirantes erguidos junto a alguns trechos do paredão, olhavam rumo ao nada, silenciosas, os olho vazios de esperança. Muitos abanavam insólitos lenços brancos, talvez na esperança de serem vistos e entendidos.

Minha amiga, sendo boa alemã, falava pouco de si, discretamente. De uma história sua me lembro bem: ela havia assistido aula pela manhã, naquele distante 1961, e combinara com sua melhor amiguinha um encontro à tardinha, para brincar e conversar. Na hora do almoço, soldados russos e alemães fecharam a avenida que ficava entre as casas das duas, Primeiro, a rede de arame farpado. Logo depois, a construção do muro. Elas nunca mais tinham conseguido se ver, ou se falar, e minha amiga, mesmo tanto tempo passado, narrava isso com incontida amargura. Hoje, quando nada mais sei sobre elas, torço para que os contatos tenham sido reatados, e que ainda consigam, sobre os cacos do muro, rir de tamanha insensatez, inclusive porque melhor bâlsamo não pode haver.

Quando escurecia, era chegada a hora do que havia de melhor na música mundial, sempre ao vivo, muitas vezes de graça, e de se imaginar os prazeres da festança gastronômica presente em cada esquina. E só imaginar, já que os dinheirinhos somados só davam conta, proibidos os imprevistos, das despesas com a volta para a casa.

Retomei a vida. Conclui os estudos. Voltei para o Brasil um ano e meio depois. Reassumi os deveres e os prazeres da vida de professor, contei muitas dessas histórias para meus alunos. Agora, aposentado, vendo as comemorações dos 20 anos da queda do muro de Berlim, fiquei aqui ruminando algumas de tais lembranças. Respinguei o assunto nos poucos toques do Twitter. A parceira de rede, Gizelle Zamboni, se interessou, até sugeriu uma crônica. Aceitei o desafio, cutuquei esses subterrâneos, espalhei, na tela, trechos dessas memórias desordenadas... e, por ter balançado minha inércia, dedico a ela essas linhas (que, se a máquina permitisse, seriam mal traçadas).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Não é só na Venezuela

Novo o assunto não é, mas raramente rompe os sussurros meio amedrontados. O controle da midia mineira na gestão Aécio Neves. A docilidade opinativa, digamos assim, imposta por sutis recursos contemporâneos (ou quase), como o manejo publicitário e a "rotatividade" dos jornalistas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Essa grande mulher

Hoje, uma mulher extraordinária está completando 90 anos. E chega lá lúcida, arguta, valente, atenta e curiosa, predicados que sempre exerceu com o suporte de uma inteligência viva e generosa. No seu longo caminho ficaram os rastros de uma vida produtiva e útil, vida que, além da família, foi dedicada a trazer alento, esperança e apoio a uma imensa legião de pessoas pobres, e quase sempre desamparadas.

Casada com Dr. Jacy há quase 70 anos, ela criou seis filhos, dos quais dois já morreram, se desdobrou em dez netos, e agora, há um ano, numa bisnetinha, a Giullia. A morte de um de seus filhos, no início da década de 1970, produziu uma guinada em seus rumos. Para superar o infortúnio, fez de uma obra social o eixo central de sua vida. Investiu suas melhores energias, e parte substantiva de seu tempo, na implantação de um projeto que virou referência em voluntariado e em assistência gratuita à saúde fora da estrutura do Estado: o Ambulatório da Igreja do Carmo, aqui em Belo Horizonte, MG.

Sempre brinco, dizendo que ela desenvolveu um modelo raro de gestão, bem à mineira. Ela soube, como poucos, atrair e aglutinar voluntários, mas, o mais curioso, é a habilidade que desenvolveu para dispensá-los, o que é tarefa árdua. Acho que uma das chaves de seu sucesso foi esse modo, jeitoso, de dispensar os que não se dispunham a trabalhar em padrões mínimos de dedicação e qualidade, fossem eles profissionais de saúde ou atendentes. Tudo sem mágoa ou constrangimentos. Há alguns anos, a amputação de uma das pernas impôs a ela uma mudança de ritmo, mas, mesmo assim, durante um bom tempo ainda geriu aquela sua grande e maior paixão à distância. Agora, o salão de eventos da paróquia leva seu nome, e os companheiros e companheiras de trabalho -alguns a acompanharam por décadas!- sempre a estão reverenciando. Ela, e seu grande parceiro nessa longa viagem, o frei Cláudio Van Ballen, em verdade, se tornaram ícones de um modo de dedicação e atenção aos necessitados, com um mínimo possível de burocracia e badalação demagógica.

Morando, com seu velho marido e companheiro, no Centro de Convivência Prolongar, ela está feliz, fazendo da vida a mesma continuada aventura. Sempre que a visito, lá está ela, mergulhada em seus jornais, revistas e livros, fazendo recortes e anotações, ilustrando o mural da casa, se preparando para a troca de idéias com quem se dispuser a um bom papo, disposição não abalada nem pela audição que andou ficando preguiçosa. Os olhos sempre brilhantes, tem em Lula e Obama seus ídolos atuais, adora notícias sobre os progressos da medicina (sempre pensando nos quantos serão aliviados em seus sofrimentos), costuma escolher uma novela para seguir, e só, já que acha que ficar o dia todo diante da TV é jogar vida fora. De uns dias prá cá, ela anda se metendo com a internet, morrendo de curiosidade.

Essa mulher é uma grande e inesquecível figura. Ela é conhecida como dona Regina, e, com muito orgulho, revelo o óbvio: ela é a minha mãe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não deu lá, vai aqui...

No blog Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim, tentei por duas vezes postar um comentário. Aguardei a confirmação, como anunciado, mas logo o texto desaparecia. Talvez por questões técnicas, talvez por outras razões (custo a crer), já que eu discordava parcialmente dessa conversa de PIG. O ítem comentado era "O PIG que se cuide: blogueiros independentes discutem os rumos da mídia", onde se realça o excelente trabalho alternativo que vem sendo desenvolvido por alguns jornalistas blogueiros (o Nassif, o Azenha, o Leandro Fortes, o Rodrigo Vianna, o Marco Weissheimer e o próprio PHA).
Não deu lá, publico aqui, no meu canto:
Realmente, um timaço. Ponta de uma virtual revolução no universo de nossa informação. Mas, dos cinco, pelo que vejo, três são vinculados de alguma forma à Rede Record. Está, ou estará, a Record imune às tentações "golpistas" (aliás, acho essa idéia de PIG uma idéia preguiçosa, magoada e estimuladora de maniqueísmo emburrecedor, mesmo sendo as análises que a originam argutas e pertinentes)? Seria justo imaginar que a Rede Record, até como decisão editorial, passou a dar suporte e guarida a formuladores de uma comunicação de alguma forma marginal, talvez como estratégia, quiça provisória, de enfrentamento de monopólios? A liberdade de movimentos e opiniões, ao que parece inerente mesmo a tal tipo de produção jornalística, resistirá aos projetos mercadológicos (legítimos) de ascensão da Record e de grandes portais que se reorganizam? Sonho com o dia em que, no ciberespaço, o próprio consumidor de informações possa remunerar, financeira e simbolicamente, o produtor da informação que lhe pareça pertinente e justa, rejeitando de vez a sombra das mega-estruturas que controlam o "o quê" e o "como" ser dito.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dá-lhe Geléia... chega de silêncios...

Imperdível! O meu amigo Gustavo Gazzinelli, dito Geléia, militante de boa cepa, invade o palco e ajuda a expor parte dessa fantasia modernizante chamada Aécio Neves, mantida graças ao silêncio obsequioso gerado pelo quase monopólio da midia mineira

sábado, 10 de outubro de 2009

Abrace essa causa

DIA MUNDIAL DE CUIDADOS PALIATIVOS.
Pelo direito de morrer em casa, com atenção, assistência e dignidade.
Essa é uma causa de todos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Me jogaram na rede...

Nos idos tempos em que fui vice-diretor e depois diretor da FAFICH-UFMG (acho que de 1982 a 1990), levamos à frente a contestada construção no novo prédio no Campus da Pampulha, e cuidamos (uma turma boa e dedicada) da mega mudança. Por litígios que não cabem aqui tratar, construímos, na pressão política, quase clandestinamente, um misterioso cômodo de 400 m², antecedido por área aberta de mesma dimensão. A área ficaria destinada à construção de estúdios de TV, e de salas de suporte, coisas à época não percebidas com a importância que mereciam. Hoje, a área ainda é só parcialmente utilizada, mas, fui informado, agora existem planos para a plena utilização. Tomara, penso eu aqui de meu posto de aposentado. À tal construção inacabada foi dado o nome de "Buraco do Paulinho", em homenagem, creio que carinhosa, a esse que vos fala. Fui visitado, há poucos dias, pelo Igor e pela Marina, alunos do Curso de Comunicação Social, e eles buscavam, em entrevista, desvendar parte da história que envolve o lendário Buraco. Pra minha emocionada surpresa, colocaram trechos da entrevista no Youtube. Eu apareço no meu bagunçado escritório, nos fundos de nossa casa, e o tom meio caótico da fala se deve, em parte, porque sou mesmo meio caótico, e, noutra parte, porque o tema e o carinho dos entrevistadores abriram arquivos que estavam guardados em HDs já enferrujados da mente, provocando tempestades entre neurônios que se acreditavam em não merecido repouso.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Humores do vento

A tardinha de ontem seguia quente e mansa, de repente o tempo escurece, o vento sopra nervoso, como se avisando de seus poderes e seus humores...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Humor olímpico 2

Humor olímpico... prá começar

Deu Rio na cabeça...

Viva o Rio! E viva o nosso orgulhoso presidente, que ainda sabe chorar!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enquanto isso, no dia do idoso...



Vai se calando a voz de Mercedes Sosa, a cantora guerreira que embalou sonhos e esperanças de minha geração. Ela está mal, aos 74 anos, num hospital argentino.
E por falar em sonhos e esperanças de minha geração, hoje, um pouquinho mais nova que eu, a Revolução Comunista na China se torna sexagenária. E marombada, bombando capitalismo pra todo lado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Deficiências na memória

Hoje, um dia comum, carrega, como outros dias comuns, comemorações daquelas que a midia repercute menos, ou mais, dependendo da conjuntura e dos humores diversos. Além do Dia da Árvore, hoje foi também uma data de apoios, meios difusos, às lutas dos deficientes físicos.
Noutros tempos, talvez, eu estivesse mais envolvido com as comemorações e com as reflexões concernentes. Fiquei vendo as referências dispersas na midia, e até a citação que o Manoel Carlos introduziu em sua nova novela global. Nostálgico, quem sabe, pus-me a escavar os fundos de meus HDs, buscando algo que não me deixasse assim em silêncio.
Pesquei um texto memorialístico que postei num antigo blog, e que o fantástico site SACI publicou em dezembro de 2003. Vamos a ele:

Memórias. Corria o ano de 1981. O general Figueiredo governava o Brasil, distribuindo coices e promessas de abertura política. A economia transitava entre o milagre e a nova crise que se desenhava. Casado havia três anos, e com a carreira de professor bem encaminhada, eu não gastava esforços com pessimismo ou queixas. Minhas energias pareciam bem distribuídas, os focos estabelecidos. Mas, quem controla a própria vida? O amanhã só tem graça por estar sempre prenhe de surpresas. "Previsível de verdade só a morte", insinua a sabedoria popular.

Já desisti de tentar saber a origem primeira do convite que, naquele ano distante, iria bulir com minha existência e meus interesses. Fui convidado para dar uma palestra no grande evento que marcaria aquele como o ano internacional das pessoas com deficiência, promovido pela ONU e outras entidades. O evento seria realizado no monumental, mas hoje finado, Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Aceitei por instinto, a tremedeira deixei para depois. Porque eu? De deficiente eu só tinha a longa, e bem sucedida prática (modéstia à parte). Nunca sistematizara, ou fizera teoria, sobre o que este aspecto secundário de minha vida impusera à minha consciência e à minha sensibilidade. O tema que me encomendaram era algo como "barreiras arquitetônicas" e urbanísticas com que se deparam os deficientes. A ansiedade quase que só me deixou rabiscar umas idéias gerais.

O tempo correu lépido e distraído. Logo eu estava lá, instalado num luxuoso apartamento com vista para a praia de São Conrado. O Centro de Convenções, no próprio hotel, parecia um aeroporto internacional ou a portaria da ONU: gente de todo tipo, línguas e roupas para qualquer gosto. De cara, fui atacado pela pulga atrás da orelha: tinha deficiente de menos naquela festança. Não estaríamos os deficientes aptos, ou preparados, para expor nossos planos e experiências? Mas logo eu descobriria que realmente não estávamos. Desde a abertura dos trabalhos, ficou claro que o clima de tutela seria preponderante, e não por malvadeza ou picaretagem dos organizadores, mas porque simplesmente não havia, naquele tempo, outro caminho. Um pensamento "dos" deficientes só foi construído daí para frente, e duramente.

Vi duplicada minha responsabilidade. Eu estava condenado a fazer bonito na minha apresentação, talvez pelo fato de que eram raros os deficientes palestrantes (e, no caso, eu ainda me supunha um palestrante deficiente). Eu sentia muitos olhos me examinando, por vezes curiosos. Então chegou minha hora, no segundo ou terceiro dia do Encontro. Calculei minha cara mais inteligente, enverguei a camisa nova, segurei junto à muleta a pasta com minhas anotações, e lá fui.

No grande auditório não havia cadeira vaga. No palco, havia uma longa mesa ornada, ainda vazia, mas com os microfones já a postos. Encostei-me perto da porta, nervos controlados, aguardando socorro da intuição. O coordenador abriu a sessão, fez algumas considerações, e, logo, passou a convocar os palestrantes que, se não me engano, seriam quatro naquela tarde. Chamou o primeiro, logo depois o segundo. Eu seria o próximo, mas um calor se antecipou em meu peito. A intuição se intrometeu, me dando a grande pista. Bingo!!! Ouvi meu nome e desloquei-me em direção ao palco. Olhei, de um lado, a escada. Caminhei até o outro extremo. Escada também. Lá de baixo, ao nível das cadeiras, dirigi-me ao coordenador e disse algo assim: "em reverência política ao ano consagrado aos deficientes, e em protesto contra a falta de adaptação de um ambiente com tal destinação, vou me recusar a ser carregado. Estou reivindicando a descida da mesa para este nível, como ato simbólico de apoio à causa e às necessidades dos deficientes físicos". Evidentemente, essa foi uma fala emocionada, e sem a clareza bem articulada que aqui se apresenta com a escora da escrita e a auto-complacência da memória.

Um desajeito no ar, algum constrangimento, e logo aplausos e palavras de apoio. Muitos se apresentaram para ajudar na mudança da mesa e dos equipamentos. Criara-se um clima interessante, bom para se plantar coisas novas. Senti que tinha acertado num alvo que eu ainda não conseguia distinguir. Esse gesto também ativou em mim o impulso de militância. Eu que tinha tido até então, aqui e acolá, uma persistente mas discreta militância política, pressentia que nova frente de luta se abria naquela hora. Deficientes, seus direitos, sua cidadania, tais coisas dariam estofo para boa e digna luta? Ali tive certeza que sim, e sem planejar, me dispus a ela, dentro de minhas parcas possibilidades.

Duvido que alguém tenha saído daquele auditório mais tocado do que eu mesmo. Usei o ocorrido como gancho, e palestrei com o coração, com uma história que eu não suspeitava contida ali dentro. Contatos, trocas de endereços, os primeiros convites para encontros e outras palestras. Topei a briga, fiz do verbo a arma, circulei e falei muito nos 15 anos que se seguiram. Durante um bom tempo o episódio da mesa que desceu vinha à tona quando me apresentavam num evento ou numa reunião. Mais recentemente, quando a saúde andava trôpega, sobreveio desânimo e ceticismo. Falar mais o quê? Para quem? Meu tempo passou, soava clara a sentença. Mas o tal veneno é perene em seu contágio. Foi a conta de abrir um pouco a guarda, com a descoberta do blog, e ele se infiltrou sem disfarces. E me deixa aqui, assim, meio menino, brigando pela atenção de cada caro leitor.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

De coronel e demagogo, todo mundo tem um pouco

O ilustre jornalista Luis Nassif postou ontem, em seu super concorrido blog, um texto a que deu o título de "O 'Coronel' é mais sofisticado que a mídia. Clique aqui se desejar lê-lo.
O Coronel no caso é o senador José Sarney, e a criticada é a midia nacional, em especial os jornalões, que teriam ouvido com má vontade o discurso do senador no plenário, retirando dele detalhes que o caracterizariam como inimigo da imprensa. Hoje, Nassif agregou ao blog a íntegra do denso e longo discurso de Sarney.

Postei o comentário que reproduzo aqui: "Caro Nassif, acho que em nome de uma obsessão com uma tal de mídia golpista (e sem dúvida ela é conservadora e concentrada), você, com o brilho de sempre, acaba conduzindo a discussão rumo a idealizações improdutivas. Só posso analisar a mídia a partir daquela existente, condicionada em termos históricos e ideológicos. E, com a devida vênia (diriam os magistrados), não posso me permitir a leitura das reflexões de Sarney sem considerar algo essencial: a família Sarney é uma grande proprietária de veículos de comunicação, quase monopolista no infeliz Maranhão. Eles estão entre os apaniguados da ditadura, ali onde se consolidou a grave concentração da mídia em poucos, em geral familiares. Sendo sociólogo e professor, talvez por vício profissional tenho dificuldade em absorver a súbita golfada iluminista do presidente do Senado. De todo modo, a discussão é relevante, e você tem o perene mérito de não deixar essas bolas cairem. Receba minha admiração."

Poucos minutos depois, demonstrando, inclusive, a atenção que dedica a seus leitores, Nassif retrucou: "Imagine se fosse exigir currículo de cada análise feita. Até o Ali Kamel pode produzir belas análises. O grande desafio intelectual é avaliar a análise em si."
Algumas horas mais tarde, tendo eu lido, e relido, o discurso, e a resposta que recebi, não me contive e voltei à arena do debate. Disse eu: "Não, caro Nassif, não se trata de currículo. Se encontrasse hoje um texto de Hitler sobre a bondade humana e suas virtudes, eu não poderia lê-lo me atendo à simples análise. Os homens públicos têm história, e respondem por ela. Sarney não tem legitimidade, nem história, para produzir análises isentas sobre o caráter anti-democrático da mídia etc. Pode ser uma ótima análise, mas não posso considerá-la sem levar em conta a vinculação intelectual e moral do eventual autor. Sarney é conservador, proprietário de mídia, tem uma postura política feudal em seus “dois” estados, e, certamente, não é esquizofrênico para conseguir produzir um discurso deslocado de suas posturas e posições pessoais e sociais. Está meio complicado, né, mas o tema é árido. E, por favor, não veja nisso sombras daquilo que um dia meus contemporâneos chamaram de patrulha ideológica. Um abraço."

E nada mais se disse, por enquanto.

Charme materno

Nessa matéria, da TV Globo MG, a dona Regina, segunda entrevistada, cadeirante que nem eu, é minha mãe, minha ídola, minha musa... e, dá-lhe Édipo!

Quando o tempo parece não passar

A emissora é governamental, mas, pelo jeitão dos apresentadores, parece que erraram de convidado. Não é de agora, mas permanece impagável...







quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Revelado o final moderninho do Caminhos das Índias

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O povo adora ele

Katinha, minha mulher, garimpou um texto que escrevi em 14 de abril de 2006, e postei num antigo blog, hoje hibernado, mas que já teve seus dias de ânimo. Ela sugeriu, e agora executo, sua republicação, talvez por seu tom algo profético. O texto é de 2006.

Outro dia, faz pouco, na portaria da clínica, enquanto as pupilas não se adequavam aos tamanhos exigidos pela doutora, estiquei a conversa com o porteiro solícito e de conversa boa. A vista já não conseguia decifrar o jornal repleto de previsões sobre a iminente queda do Palocci. E de fato, horas depois ele tombaria, puxado pelo tamanho e peso do nariz pinocchiano. Disse o porteiro, fala mansa, fino analista:

- “Estão querendo derrubar o Lula. Não adianta, o povo adora ele. Nem se derrubarem o Palocci, o Lula cai.”

Atiçado pela firmeza do comentarista político de balcão, tentei saber mais, enquanto a doutora não me chamava. Perguntei:

- “E o PT, como fica?”

Retrucou ele, sem pestanejar:

-“Nem me fala, moço, é igualzinho os outros. Está cheio de ladrão, de cara que só quer o dele...”

Interferi:

- Mas o Lula é do PT?”

Ele, sem perder o rítmo, sentenciou:

- “O Lula não está nem aí pra eles, ele não precisa. É o povo que vai dar a reeleição para o Lula. O senhor gosta dele?”

Uma campainha o convocou para suas tarefas. Não tive tempo de responder, e foi melhor assim. Recostei a cabeça, fechei os olhos cansados, mas ainda e sempre surpresos. Fiquei pensando na largueza do mundo, na precariedade perene de nossas análises.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Universos paralelos

Tomo emprestado no blog da Cora Rónai esse filmete divertido, singela demonstração do incrível universo que as novas mídias andam explorando.


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Glauber Rocha conta José Sarney

Você sabe o que é um profissional da política? Você se condoeu com a carinha triste do presidente do Senado diante da chuva de acusações? Há 43 anos, o recém-eleito governador do Maranhão contratou um jovem cineasta para cobrir a sua posse, mas, por alguma razão, o produto não foi aceito.
Em tempo: a ditadura militar se implantara em 64, e o jovem Sarney, vindo da UDN, amigo de Glauber, se "elegera" governador em 1966. Era o início de um período imperial que parece longe de findar. Assim como a miséria daquele canto infeliz do mundo parece também longe de findar, apesar de tão privilegiado em encantos naturais.
Alguns planos desse documentário foram posteriormente usados no filme "Terra em Transe", obra-prima do baiano que tanta falta nos faz.

domingo, 23 de agosto de 2009

Quando se vê...

'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'

Mário Quintana

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tempos livres, tempos modernos.

"Sorvido" no Boteco do Tulípio, no http://tulipio.uol.com.br

sábado, 15 de agosto de 2009

Tortas palavras. Tortos propósitos?

Que malucos de toda origem e todo tipo andam soltos por aí, disso não há dúvida. Na mídia não seria diferente, é até pior. É maluco falando de tudo, e de todos. Um grupo especial, dentre os malucos, se destaca, pela persistência e bizarria: são os viúvos e viúvas da ditadura militar, período que serviu de cenário cinzento para trecho substantivo da história de minha geração.

No Estado de Minas de hoje, na coluna intitulada Aviação, um tal Antônio Nascimento mostrou seu tino para carpideira daquele passado. Tratando da enrolada concorrência para a compra de novos caças para a FAB, ele lamenta o adiamento da compra ainda no governo de FHC, e a transferência da decisão para o governo Lula. E cravou a preciosidade: "O governo que o sucedeu (governo Lula) julgou oportuno cancelar o primeiro certame, talvez assessorado pelos seguidores da doutrina marxista que o cercam". Esse cavalheiro anda hibernando, ou esteve lendo sua coleção de jornais antigos.

No mesmo exemplar do EM, mas num cantinho do obituário, registra-se a morte de outra maluca que se exerceu na mídia, mas que era do bem, ao menos acreditava e queria ser. Depois de 10 anos fora de combate, aposentada e doente, calou-se de vez a voz da Glória Lopes, ícone do radiojornalismo policial em Minas Gerais. Temida igualmente por bandidos e policiais, ela invadia as ondas com seu tom marcante e vozeirão grave. Fazia-se de justiceira e de guardiã dos frágeis e miseráveis, esfregava na cara dos marginais os desabafos que as vítimas sonhavam fazer. Não raro eu seguia cedinho para o trabalho ouvindo suas histórias. Umas duas vezes mandei meus alunos de comunicação social entrevistá-la, eles voltavam entre intrigados e fascinados com aquela mulher miúda, de cara banal, tão diferente das impressões que produzia em suas emissões radiofônicas. Olho pra trás, vejo que aqueles sons foram se perdendo num passado distante, possivelmente romântico.

Canta e encanta


Você gosta de compartilhar alegrias? Você acredita que as ruas ainda podem ser cenários de manifestações civilizadas? Você já conhece o T Mobile? Dá um gostinho de ressaca boa, embora comportadinha, da festança maravilhosa que foi realizada há exatos 40 aninhos: o Festival de Woodstock.

domingo, 9 de agosto de 2009

Grunhir ou calar?

Construisse eu um Olimpo para meus tantos ídolos, Tostão teria ali um trono. Apesar do pecado grave de ter abandonado meu América mineiro, ainda rapazote, rumo ao Cruzeiro, o cara é exemplar em várias frentes. Médico e professor, disso nada sei dizer, nem a seu favor, nem contra. Penso é no mago da bola, hoje mago nas letras jornalísticas, e a marca onipresente da inteligência, da coragem, da independência e do caráter impecável. Em sua coluna de hoje, citando o Nobel lusitano, ele cutuca um assunto que vem assanhando minhas caraminholas: "Segundo José Saramago, que tem um blog, o Twitter, com poucas palavras, é mais uma evidência de que o ser humano caminha para o grunhido".

O Twitter tem me acuado, numa mistura de fascínio e medo. A rápida rede que ele estimula e propicia parece mesmo vereda rumo ao futuro, mas condicionar idéias e expressões ao limite dos 140 toques é ameaça sombria. As cabeças se moldarão a tais dimensões, tipo um monturo de cocô de cabrito (expelido em bolinhas, informo aos mais assépticos)? Ou estaria eu tomado por mais um desses pânicos das transições? Quem viver, twittará...

sábado, 8 de agosto de 2009

Um cara legal!!!

Saindo em cautelosa defesa do presidente venezuelano, Hugo Chávez, o ministro Celso Amorim, em entrevista recente, lembrou-se de frase do mestre Millôr: "O fato de eu ser paranoico não significa que não esteja sendo perseguido". Agarro-me à máxima do mestre, e vou viajando na maionese, como se, em outras e melhores palavras, ainda millorianas, eu me lembrasse que "livre pensar é só pensar". E lá fui eu...

O tema é a gripe suína, o paranóico sou eu. Tenho olhado e me postado no mundo com inaudita desconfiança. É notícia rolando pra todo lado, e eu tentando me esquivar do fato de entrar no grupo de risco por três portas diferentes: obeso, terceira idade e um sistema respiratório em crise de auto-estima. Sem exagerar, se é que consigo, faço-me em prontidão para o eventual enfrentamento. É uma luta diante da qual me sinto como um gladiador talvez se sentisse, sem causa nem intenção, sabendo que a derrota pode me levar a sair arrastado da arena, como um touro abatido na tarde espanhola. Já surdo aos olés que comemorariam minha queda.

Ano passado o Helano, primo querido, perdeu sua amada Suzana. Ela resistira longamente e com garra às maldades de um câncer implacável. Bonito, forte, saudável, ótimo caráter, afável, 3 filhos, uma neta, aos 54 anos, sempre louvando as lembranças do grande amor, o primo Helano foi reconstruindo sua vida.

Seu pai, Zé Saturnino, fazendeiro e médico que nunca oficiou, era meu tio, patriarca do lado materno de minha ascendência. Morreu em meados desse julho recente, aos 97 anos, após longa temporada acamado em sua linda fazenda Saco dos Cochos, no Cordisburgo de minhas férias da infância. Uma pneumonia derrotou suas derradeiras resistências. O primo Helano, junto com seus irmãos, cercado pelos muitos netos do tio, depositou suas cinzas nas beiras do Onça Velho, córrego que atravessa sua fazenda, em local pré-escolhido pelo "coronel", sob árvores que ele mandara plantar.

Ontem foi dia da missa de 7º dia do meu primo Helano. Ele foi morto, súbita e inesperadamente, por obra dessa gripe danada. Coisa mais injusta e assustadora. Foi como se a inimiga dissimulada, pressentindo-me em paranóia, expusesse suas armas. Ao que consta, após graves trapalhadas hospitalares, o primo encontrou um leito de CTI quando uma pneumonia já não se dispunha a lhe dar uma última chance. Não fosse a certeira saudade dos que tiveram a sorte de conviver com ele, o primo seria só mais um número nessa estatística meio macabra das vítimas da gripe suína, reflexo do despreparo e da agonia de nossos aparatos de saúde pública.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O que fazer com suas fotos?

Impressionante vídeo realizado com a superposição de 60.000 fotos.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ainda a tal governabilidade (2)

Política é mesmo cachaça, vira e mexe dou lá meus palpites. É mais forte que eu. Hoje foi um email para o líder Mercadante (PT no Senado), e deu vontade de partilhá-lo:

Senador Mercadante, me dirijo ao senhor enquanto líder da bancada petista no Senado. Fui petista, modesto militante, durante 25 anos, e vendo a omissão da bancada, em especial ontem na reabertura dos trabalhos, fiquei me perguntando o que os senhores pretendem fazer com o legado da militância e da esperança política de boa parte de toda uma geração. A obsessão com uma pretensa governabilidade rompe com as possibilidades da, digamos, "pedagogia política" com a qual o PT pretendia desenhar e construir o futuro desse país injusto. Hoje, confesso, tenho vergonha do que ajudei a levar adiante, e temo, no futuro, padecer de algo como uma culpa histórica. Quem sabe, tempo sempre há, a cúpula petista acorde e veja a necessidade de reaproximação com a militância e as esperanças que criaram um singular passado de luta e importantes transformações históricas. Para isso, creia, é fundamental espalhar a neblina que têm cegado aqueles com obrigações de liderança e de direção nesse partido que é muito mais que os caprichos e medos dos que hoje o comandam. Saudações democráticas e republicanas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Em nome da governabilidade... e que assim (não) seja. Amém!!!


Agora, quando acabo de ver, na TV Senado, outro show de truculência do senador Collor, atacando o senador Pedro Simon, inclusive em tom ameaçador, resolvi postar um cartum que muito me incomodou. E fico pensando se o presidente Lula acredita mesmo que a história é cega, surda, muda, e, mais grave, idiota.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Resquícios de vida inteligente

Desde não sei quando, se penso num esporte que praticaria com gosto, o ciclismo assume a pista. As magrelas passam, fico de olho, salivando diante de tal leve flutuar. E louvo a coragem e a paciência dos praticantes, hostilizados pelo mundo moldado para os veículos movidos a explosão. Se o negócio é torcer, e assistir como hábito e vício (manter, como mantenho, a paixão pelo América mineiro, só mesmo por vício, ou deformação de personalidade), aí o futebol é imbatível. Sacudir a preguiça, eu sacudiria, se possível fosse, preferencialmente em cima de uma bicicleta. Existe até um triciclo, "pedalado" a mão (sic), que alguns cadeirantes adotaram, mas eu não, por excesso de idade e carência de coragem.

Quando chega o mês de julho, já me acocoro diante da TV esperando o Tour de France. É hora de ver um bando de super-homens magricelas em ação, pedalando por milhares de quilometros, e de fazer um belo turismo visual através da França, e beiradas de países vizinhos, com direito a lições geográficas, históricas e gastronômicas. Quando vivi na Bélgica, por 3 anos, na década de 1970, descobri essa paixão. O belga Eddie Merckx, o Pelé do ciclismo, estava ainda no auge. E fazia a alegria daquele povo um tanto sisudo, povo que me recebeu com carinho, me deu uma bolsa de estudos, ampliou meu mundo. Povo e terra que ainda carrego no peito, agradecido e saudoso.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Ri melhor quem aqui não ri...

Ontem, cedinho, recebemos em casa a equipe da Rede Minas: a repórter Grazielli, o cinegrafista e um auxiliar. Depois de alguma relutância, eu aceitara dar uma pequena revisitada nas velhas lides. Uma entrevista, bem longa, sobre os sete pecados capitais nos dias de hoje (visão sociológica, opinião pessoal, etc e tal). Expliquei que a tarefa soava um pouco exótica para esse ateu da terceira idade, que se acredita, paradoxalmente, ao mesmo tempo blindado e atolado no instável rol dos grandes pecados. Acabei divertindo-me com a conversa, da qual verei o resultado, sempre imprevisível quando se trata de TV, numa série que será veiculada lá por agosto, ou setembro. Não fiquei isento daquele suor frio na arrancada, e o atribuí ao fato de estar fora de forma e fora de moda, nesse semi ostracismo de agora. Houve tempo em que recorriam aos meus argumentos e imagens com alguma frequência, em parte carinho de ex-alunos. Cheguei mesmo a temer um rótulo de especialista em assuntos gerais.

Mas, tais são outras histórias. Quero falar de coisa diversa. O cinegrafista da equipe, baixinho com tiques de esteta requintado, depois de recompor detalhes dos arranjos de nossa sala, largou o comentário generoso que, mais tarde, ficou arreliando meus pensamentos. Tratava-se do prazer, segundo ele, de ser recebido por personagem assim volumoso, no caso eu, dono de abraço amplo e sorriso largo. Insinuou diferenças com entrevistados amarrados em pose, impondo distâncias. Não rejeitei a lustradinha no ego, inclusive porque a auto-estima não anda tendo moleza em minhas introspecções. É que minha, digamos assim, consciência corporal anda sofrendo bloqueios quando a conversa é obesidade. Amofinado não fico, nem raivoso, a palavra adequada para refletir o que sinto é constrangimento.

Constrangimento estético, impossível escapar, embora seu peso (ops!) seja relativo, secundário. Pior é o constrangimento que, na falta de definição melhor, vou chamar de pessoal. É saber que em hipótese nenhuma posso ser gordo, mas continuo sendo, e nem entro agora nos infindos papos envolvendo dietas e tentativas. Cadeirante, velhote, a respiração sob cuidados, nem tento teses em minha defesa, Meu negócio, caso reste algum juízo, é emagrecer, ou emagrecer.

Como se não bastasse, um constrangimento macro vai e volta em minha cabeça, uma daquelas típicas viroses mentais que atacam sociólogos, como é o meu caso, e assemelhados. É extremamente desconfortável ser membro ativo da nova pandemia que invadiu o planeta, e que se candidata a ser um dos flagelos do século XXI. Gripe suína? Não. A obesidade e suas sequelas destrutivas, mal que deixou de ser "privilégio" das nações do super consumo, e que se espalha até entre populações mais pobres. As hipóteses se acumulam: alimentação industrializada, gorduras trans, sedentarismo, e tudo o mais que o Globo Repórter já nos contou, ou contará um dia, já que pra eles não parece haver assunto melhor. Mas, constrangedor mesmo, embora eu bem saiba que a correlação entre as coisas não é direta, foi ver a ONU anunciando que até o fim desse ano o número de subnutridos no planeta entrará na inimaginável casa do bilhão de seres humanos.

Silêncio. Baixem-se as cortinas, para reflexão. Sem aplausos, por favor...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Querosene, por favor...

Vendo-me assim, Katinha exclamou, implacável: "deixa de ser exibido, ô Paulo de Tarso, fica na sua..."

Como de Tarso não sou, iludi-me pensando que talvez ela estivesse vendo em mim algum traço, mesmo uma sombra, daquele que se fez apóstolo, para os protestantes, ou santo, no conceito católico. Cabeça do cristianismo, possivelmente baixinho e deficiente físico, não conseguiu segurar a própria, decapitada, segundo consta, sob as ordens de Nero. Não, Katinha não pensara nisso.

Já sei, quem sabe ela se lembrou daquele outro Paulo de Tarso? Ex-guerrilheiro, ex-amigão do Zé Dirceu, ex-militante histórico do PT, ele foi expulso do partido lá pelos finais dos anos 90, depois de denúncias bombásticas sobre trambiques financeiros da cúpula partidária. Eu não estive nem próximo desse barulho todo, e se deixei de lado meu quarto de século petista, foi por minha decisão e risco. Saí de lá por desgosto, bem quietinho, com minhas próprias pernas, digo, rodas. De novo, não. Katinha, prudente, não cutucaria esse meu vespeiro.

Então, meu Lord Ganesha, de onde tal insinuação? Ganesha... novela das nove... de Tarso... capuz... ela estava é me enxergando naquele maluquete de quase todas as noites (e nem tenho aqueles belos olhos azuis, imagina se tivesse). Senti o baque. Pensei em como evitar esse vento que, dando razão ao que pressentiu a Katinha, anda apagando as lamparinas de meu juízo.

sábado, 11 de julho de 2009

Dia de rei

Viva Roberto Carlos!!!
50 anos de carreira, o que só se alcança com muito talento e competência. Gostemos, ou não (eu gosto, sem ser fã), o homem do pequeno Cachoeiro é o artista mais importante e popular do Brasil contemporâneo, talvez da história do país. Ele é um daqueles mitos que une todas as pontas desse Brasil sem tamanho. Hoje viverá, com sua incrível modéstia, a plenitude de sua consagração num Maracanã lotado que o acompanhará em coro. Imperdível!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cadê o mito que estava aqui???

O mundo, digo sem exagero, se debulhou em lágrimas na despedida final de Michael Jackson. Calcula-se que um bilhão de telespectadores tenham se envolvido com o espetáculo fúnebre, era o showbizz levando seus limites quase ao absurdo. Continua desconcertante a capacidade e a competência da indústria do entretenimento norte-americana para fazer da vida, e da morte, magníficos espetáculos. Até as emoções verdadeiras e os desabafos conseguiram se enquadrar no roteiro, e na busca da melhor imagem. A grande amiga Brooke Shields, em incontidas lágrimas, relatava a trágica sina das crianças celebridades, e revelava, como se num arroubo das lembranças, a melodia preferida de seu amigo Michael: Smile, composta por Charles Chaplin, e outros, para o filme Tempos Modernos. Lembrança fortuita, espontânea? Nem de longe. Antes que nos refizéssemos da revelação surpreendente, o irmão Jermaine Jackson (ou Muhammad Abdul Azis, desde que se converteu ao islamismo) ocupa o palco com bela e emocionada interpretação da canção. Tudo perfeito, tudo em seu lugar. O ritual espetacular foi encerrado com uma cena que será revista milhares de vezes nas próximas décadas: Paris, filha de Michael, balbuciando palavras de amor ao pai-mito, e mergulhando seu choro num entorno de roupas chiquemente enlutadas dos titios e titias Jackson.

Como se fosse pouco, até a hora em que escrevo, a mídia do mundo inteiro continuava tentando descobrir o destino daquela urna funerária de cobre, folheada a ouro, que carregava o mito rumo ao sempre (já que nem em Neverland ele encontrou a paz). Mistério tão bem produzido que nem os inumeráveis helicópteros das TVs conseguiram seguir o rabecão. Uma história a mais para o crescente acervo comum da cultura planetária.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nova não é, mas tristemente atual