Dancinha

Dancinha

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vai assombrar a mãe, se é que você teve isso...

Fui selecionado mais uma vez para o rodízio macabro e desalentador. Hoje, quase hora do almoço, eu sozinho em casa, o telefone toca. Ligação a cobrar, coisa já em si incômoda, não raro portando problema ou arte de oportunistas. Toca a musiquinha, na dúvida decido esperar.
- "Ô, pai, me ajuda, pai... me roubaram tudo e estão com um revólver na minha cabeça... pai, o cara vai me matar..."
A voz desesperada lembrava a de meu filho, o que nessas horas não é difícil de acontecer. Respirei fundo buscando manter a calma. Joguei umas cascas de banana, fazendo o possível para ver se o vagabundo escorregava. Falei de suposta viagem, e que eu só esperava o retorno de meu filho para amanhã ou depois. Perguntei se tinham roubado, também, um carro fictício. Enrolei no que deu, sempre pedindo calma ao adversário. Inimigo aqui soaria mais adequado.
- "Porra doutor, você tá conversando demais. Daqui a pouco vai estar chorando, e não fale que não avisei", experiente, o filho de uma jumenta (conto com o perdão dos eqüinos) sentiu que tinha que retomar a ofensiva. Veio uma nova sessão de gritos, e o interlocutor afirmou que agora só falaria em resgate, e fim de papo. Pediu R$ 10 mil, sem demora. Eu disse, enquanto me organizava, que mais de dois mil seria impossível levantar com rapidez. Como ele topou, senti alívio que obviamente não era financeiro. Senti que, assim cordato, ele errara grosso diante de meu lance. Respirei. Fomos em frente.
Teoricamente ando convencido da incompatibilidade entre seqüestro e assassinato imediato. O bandido não pode perder seu trunfo, e não terá como atender certas exigências e comprovações. A morte, no geral, estaria vinculada a uma demora no pagamento de resgates, ou ao reconhecimento que a vítima possa futuramente fazer dos quadrilheiros. Tudo isso transitou pela cabeça, mas adrenalina e raciocínios lógicos são poções que não se misturam.
Com o telefone preso pelo ombro, saí caçando o celular para tentar a checagem da hipótese mais provável: meu filhote deveria estar vindo da aula, tranqüilo como é de seu estilo, convivendo, quando muito, com a perspectiva do almoço. Achar o celular, estando tenso, rodando numa cadeira de rodas, foi tarefa quase cômica nas trapalhadas. Achei, digitei, chamou e chamou... atendeu, ufa!
- "Filho, tudo bem com você?"
- "Tá, pai, porque? Estou no ônibus, quase chegando em casa".
- "Nada não, filho, eu só queria saber".
Tirei a mão que tampava o bocal do outro aparelho, e deixei que o sacana ouvisse o final da conversa. Ele só disse um "pôrra", e desligou.
Não demorou, o Ique entrou aqui no meu escritório (no fundo da casa), curioso com o tom de meu telefonema. Ainda me encontrou meio trêmulo e humedecido por suores frios. Deu até pra rirmos um pouco, que aparentemente esse ainda é um método adequado para tentarmos conviver com tais tormentos.

Um comentário:

  1. Já passei por uma dessas. O que me salvou foi meu ouvido de sobrevivência. O cara disse que era do corpo de bombeiros mas eu reconheci o inconfundível sotaque de um malandro carioca....

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