Reflexões e memórias de um diferente... e quem não é? E por assim ser, senhoras e senhores, o que lhes apresentar? Esse blOg dEfiCIenTe. Em verdade, vai aqui a retomada de um velho blog,adormecido há dois anos.
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
sábado, 9 de novembro de 2019
Certas datas comemorativas abrem fissuras nas memórias pessoais, e a nostalgia goteja, escorre sobre os sentidos. E, de algum modo, a gente revive o vivido, feliz ou não, mais ou menos nítido, mais ou menos passível de ser refeito.
Comemora-se 30 anos da queda do Muro de Berlim, e me teletransportei pra lá, truques da memória. Era 1974, no verão europeu, e o Muro ainda ficaria quinze anos em pé. No meu DAF adaptado, vermelhinho, carrinho popular holandês que me levou pra conhecer boa parte da Europa. Na maior parte das vezes viajei sozinho, desafiador e feliz da vida.
Em companhia de uma amiga alemã, fluente no português, moradora de Berlim, zanzei de cá pra lá, e conheci comovido boa parte daquele anti-monumento e de suas histórias. Em alguns pontos a gente se deparava com plataformas, acessíveis por escadas, das quais era possível contemplar o outro lado, mesmo se ainda separado por boa extensão de terrenos minados e cercados por arames farpados.
Eu não conseguia subir nas plataformas, mas me emocionava ao ver as pessoas, muitos velhos, acenando pro lado de lá com as mãos, ou com lenços brancos. Muitos binóculos e lunetas auxiliavam as fantasiosas pesquisas. Com ajuda da amiga, conversei com vários deles, ouvi histórias.
A história da própria amiga foi a que mais me marcou. Ela, ainda criança, tinha uma prima como melhor amiga, e moravam a cem ou duzentos metros uma da outra. Uma manhã, depois de uma noite de muita chuva e barulho, quando acordou viu que na avenida diante de sua casa havia um amontoado de ferros e arames que logo dariam base a um grande muro.
Ela ficará do lado ocidental, e sua prima do lado oriental. E até aquela data, ambas já adultas, nunca mais haviam se visto ou se falado. Uma sabia da outra através de raríssimas mensagens clandestinas. A amiga me contava tal tristeza com germânica sobriedade. Eu me desmanchando em lágrimas. De há muito perdemos o contato, mas na época da queda pensei muito naquele amoroso possível reencontro.
Como profissional do ramo, li um bocado de coisas sobre a importância histórica, política e sociológica daquela data emblemática. Mas, confesso, é na amiga que fiquei pensando. Estará viva? Feliz? Gente tão boa, ela mais que merecia.
Mas, a crueldade do tempo se apropriou de seu nome, e por mais que empurre caixas e caixotes na memória, ainda não encontrei. Em compensação, sua imagem veio nítida. Vivemos naqueles poucos dias, pequenos momentos românticos. E vejo seu rosto lindo bem pertinho do meu. Como a vida é bela!
sábado, 12 de outubro de 2019
Sem foguetórios, todos comemoram
Ouço o foguetório das 18hs, terceiro e último daqueles destinados a N. S. Aparecida. Antecedido por outros, às 6 e 12hs. E fico imaginando que tal barulheira deve ter tido sentido na roça, nos sertões, talvez lembrando das horas das rezas, ou convocando pras missas, coisas assim.
Só sei que aqui, no abafa e na intimidade involuntária das cidades, tais foguetórios servem mesmo é pra estressar, criar nervosismo e até pânico em seres, homens e bichos, que se abalam com tais estampidos.
Autistas, acamados, a maioria dos cães e gatos domésticos (que não conseguem fugir da cena), pássaros nos ninhos, e nem imagino quantos mais.
Comemorar, homenagear e orar de modos mais silenciosos devem ser ítens obrigatórios em qualquer novo pacto de civilização.
Só sei que aqui, no abafa e na intimidade involuntária das cidades, tais foguetórios servem mesmo é pra estressar, criar nervosismo e até pânico em seres, homens e bichos, que se abalam com tais estampidos.
Autistas, acamados, a maioria dos cães e gatos domésticos (que não conseguem fugir da cena), pássaros nos ninhos, e nem imagino quantos mais.
Comemorar, homenagear e orar de modos mais silenciosos devem ser ítens obrigatórios em qualquer novo pacto de civilização.
Sacerdócio é coisa de branco?
Houve um tempo, há muitas e muitas décadas, onde fui criança, menino, acho que até vestia azul. Juro que fui criança. Existem até testemunhas ainda vivas, poucas, que podem depor a meu favor.
Entre amigos e inimigos, não são raros os que acham que minha mente ficou por lá. Costumo concordar. Mas o corpo, pobre corpo, esse foi se acabando na faina insana, e interminável em vida, de arrancar folhas do calendário.
Mas, o papo é outro. Fui criança adestrada na religião católica, e cheguei ao honorífico cargo infantil de presidente da cruzada eucarística da paróquia do Carmo, aqui em BH. O passado condena.
E pra esse passado viajou minha cabeça, nesses dias em que na mídia vaza catolicismo. Senhoras de Nazaré e de Aparecida, Santa Dulce, miudinha e fogosa, e até o contestador Sínodo sobre a Amazônia, no Vaticano, ganhou espaço.
Viajei de fasto pra matutar sobre algo meio assustador, mas explicável sem cansaço. Moderninho, escaneei minhas memórias infantis, tanto das práticas religiosas, quanto dos anos de tortura, digo, de educação em colégio católico. Fui e voltei, fui e voltei, e nada de encontrar sacerdotes e derivados pretos.
Eram europeus ou brasileiros filhos escolhidos de famílias abastadas ou, em menor número, egressos da classe média branca.
Hoje, na fartura efêmera de catolicismo na TV, e me refiro aos eventos pátrios, a gente vê padres e diáconos pretos em quantidade. Embora, para eles, a escalada na hierarquia esconda paus de sebo. Poucos escalam com sucesso.
Naquelas lembranças infantis, em especial nos grotões que eu observava fascinado, havia sacristãos pretos, que com frequência também eram mestre de folguedos, ou velhos curas solitários, alguns já com traços mulatos. Coisa da roça.
Os pretos reprimidos, como logo se veria, em suas vocações sacerdotais (um mistura de misticismo com ascensão social), vieram socorrer a Santa Madre na crise vocacional, e abriram, no mesmo gesto, o exercício sacerdotal às classes mais populares.
E, com isso, outro serviço prestado, abriram os olhos católicos, em especial dos comandantes, para uma das chaves da extraordinária explosão das igrejas neopentecostais, e seus convites à ascensão de celebrantes populares. Muitos pretos entre eles.
Agora, o sufoco das vocações femininas, na misoginia católica, mas não só, isso é bem mais que outro capítulo. É outra história. E das tristes.
Entre amigos e inimigos, não são raros os que acham que minha mente ficou por lá. Costumo concordar. Mas o corpo, pobre corpo, esse foi se acabando na faina insana, e interminável em vida, de arrancar folhas do calendário.
Mas, o papo é outro. Fui criança adestrada na religião católica, e cheguei ao honorífico cargo infantil de presidente da cruzada eucarística da paróquia do Carmo, aqui em BH. O passado condena.
E pra esse passado viajou minha cabeça, nesses dias em que na mídia vaza catolicismo. Senhoras de Nazaré e de Aparecida, Santa Dulce, miudinha e fogosa, e até o contestador Sínodo sobre a Amazônia, no Vaticano, ganhou espaço.
Viajei de fasto pra matutar sobre algo meio assustador, mas explicável sem cansaço. Moderninho, escaneei minhas memórias infantis, tanto das práticas religiosas, quanto dos anos de tortura, digo, de educação em colégio católico. Fui e voltei, fui e voltei, e nada de encontrar sacerdotes e derivados pretos.
Eram europeus ou brasileiros filhos escolhidos de famílias abastadas ou, em menor número, egressos da classe média branca.
Hoje, na fartura efêmera de catolicismo na TV, e me refiro aos eventos pátrios, a gente vê padres e diáconos pretos em quantidade. Embora, para eles, a escalada na hierarquia esconda paus de sebo. Poucos escalam com sucesso.
Naquelas lembranças infantis, em especial nos grotões que eu observava fascinado, havia sacristãos pretos, que com frequência também eram mestre de folguedos, ou velhos curas solitários, alguns já com traços mulatos. Coisa da roça.
Os pretos reprimidos, como logo se veria, em suas vocações sacerdotais (um mistura de misticismo com ascensão social), vieram socorrer a Santa Madre na crise vocacional, e abriram, no mesmo gesto, o exercício sacerdotal às classes mais populares.
E, com isso, outro serviço prestado, abriram os olhos católicos, em especial dos comandantes, para uma das chaves da extraordinária explosão das igrejas neopentecostais, e seus convites à ascensão de celebrantes populares. Muitos pretos entre eles.
Agora, o sufoco das vocações femininas, na misoginia católica, mas não só, isso é bem mais que outro capítulo. É outra história. E das tristes.
E como dói!
Hoje é dia de um tantão de coisas. O povo adorando Dona Cidinha, a maioria das crianças sonhando em um dia não serem tão pobres, mas meu velho coração ainda se ocupa com a Katinha, amor da minha vida. São 16 meses de ausência. E dói
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Na minha meninice, as avaliações de nossas vidas se davam em algum SNI ou CIA celestiais. Só nos restava o medo. Por lá ficavam os tribunais que nos encaminhariam para o céu, o inferno ou um tempo como trainee no misterioso paraíso. Implacáveis.
Hoje, rindo sozinho da invasão das bonequinhas eróticas nas minhas telinhas, pus-me a matutar sobre quão mudadas andam essas coisas do destino.
Nossas vidas hoje são avaliadas, em tempo real, e em estonteante dinâmica, nas catacumbas onde mourejam os donos do mundo e seus insaciáveis bancos de dados. As sentenças e seu cumprimento trafegam à velocidade da luz.
Sem esquecimento. Sem perdão.
Acabamos por ser o que querem que sejamos, senão acabaremos desconfiando de nós mesmos. Claro que amanhã seremos outros, se disso os sintetizadores se convencerem.
Pensei nas minhas bonequinhas sexys, e já temo encontrá-las debaixo do travesseiro, na água do banho, na sopa, e até no já invadido recôndito dos sonhos.
Tentei deduzir a lógica dos porões onde as máquinas decidiram por tais mini atrações fatais. Velhote, assanhadinho, olhando essas coisas na madrugada, viúvo, virtualmente carente, dado a devaneios... bingo! Não tem erro. Bonequinhas nele. Até quando, meu pai Oxalá?
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
Mega mico, hoje no Minashopping. Perguntei pelo banheiro adaptado, a moça da segurança me encaminhou.
Cheguei na porta onde se lia: EXCLUSIVO PARA PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS.
Como eu só pretendia um xixi, já latejante, pensei: xixi, ao que eu saiba, não é nenhuma necessidade especial, mas encarei ali mesmo.
Aperto um botão, uma voz vinda do além pergunta o que foi. Só quero entrar no banheiro, disse eu, já temeroso com os efeitos deletérios daquela demora. Um estalo, e a porta se abre.
Ufa! Entrei. Aliviei. Lavei as mãos e fui abrir a porta. Digo, tentar. Empurrei, sacudi e nada.
Como não era muito sedutora a perspectiva de passar ali minha noite, embora estivesse até cheirosinho e com musica, não resisti à tentação de testar um botão, ao lado do vaso, contornado pela inscrição EM CASO DE EMERGÊNCIA, ACIONE O BOTÃO. Achei que era o caso, e mandei o dedão. Pra quê... seria menos traumático ter passado lá uma noite semi-tranquila.
Um alarme ensurdecedor invadiu aquela área do shopping. Juntou algumas pessoas, uma tensão se espalhava no ar.
Foi quando o rapaz da faxina, acompanhado por dois seguranças, abriu a porta por fora. Eu, mais assustado que eles saí de fininho, olhando pra trás, com aquela cara de “tá acontecendo alguma coisa ali, alguém tem ideia do que seja?”
Ainda demoraram um pouco a desligar o alarme escandaloso, e as pessoas tomaram rumo. E eu ali, disfarçando.
Foi quando o rapaz da limpeza me chamou baixinho, do alto de sua humildade, e me pediu para entrar no banheiro em sua companhia.
Com carinho e compaixão por meus cabelos brancos, me explicou didática e singelamente:
- da próxima vez, basta o senhor apertar esse outro botão, aqui ao lado da porta, que ela abre.
Mais não disse, e nem carecia. Recolhi-me à minha insignificância, e fui tomar um café expresso duplo. E pedi que fosse bem forte. Só pra ver se eu acordava daquela vergonha.
Bem feito pra mim. Quem mandou achar que não tinha necessidades especiais? Bobeira é deficiência.
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Contra o ensino militarizado. Postado no FB em 29/08/19
Hoje, na visita ao Colégio Estadual, da qual falei antes, ao ver a moçada sentada na grama, namorando, tocando violão, feliz e falante, fui tomado pela certeza de que lutarei, mesmo com minhas frágeis armas, enquanto puder contra a tara da militarização do ensino fundamental e médio.
O Colégio agora funciona em tempo integral, o que pra mim foi agradável surpresa. Pude conviver com eles em aula, já que tive a honra de contar um pouco de nosso história para alunas e alunos que agora ocupavam a mesma sala que deixei em 1968, e durante o almoço coletivo, com eles se espraiando por todos os espaços, livres e aparentemente felizes.
Conversando com o diretor e o vice, gente finíssima, engajada num processo de criatividade e crescimento, olhando em volta, vendo registros de protestos e desejos, senti ódio dos portadores da tristeza e da morte do espírito livre, militaristas que só arrotam disciplina, medo e submissão. Se eles se impuserem, aí os danos serão irreparáveis por longo tempo. Se a esperança não tiver a juventude como aliada, ela estará condenada ao fracasso e ao desânimo.
Registro com a equipe de filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, do qual participei hoje. Atrás de mim, os velhos amigos Marcinho Borges e Murilo Antunes, e sentada, em primeiro plano, a fantástica Ana, diretora e chefona do projeto. Devo estar sendo parcial, mas prevejo um filmaço, cutucando as encruadas memórias mineiras.
Filmagem do doc sobre Clube da Esquina, no Colégio Estadual, em 29/08/19
Ah, quanta honra. Uma foto que guardarei como um troféu por um dia feliz, de imensas emoções. Filmagem do documentário sobre o Clube da Esquina, ontem, 29/08/19, no Colégio Estadual.
Sem viés ideológico (viu, Bozo? Viu, Zema?), da esquerda para a direita, a Ana, diretora do filme, o Rodrigo, o Reinaldo (respectivamente vice e diretor do Colégio, gente de primeiríssima), o Zé Roberto, produtor do filme e filho do meu mano véio Marcinho Borges, que vem em seguida, e, encerrando a fila, o Eduardo Moraleida. Sentado, curtindo essa moleza, esse que ora vos fala, e que uma amiga disse há pouco que está a cara do Claude Monet (claro que sem o talento).
No Colégio Estadual, 50 anos depois.
Tendo sido convidado, pouco gentilmente, a abandonar o Colégio Marista, transferí-me para esse paraíso. E ali, mesmo naqueles anos de chumbo, ou talvez por isso, encontrei a diversidade, a inteligência, professores e colegas me ajudando a moldar meu caráter e a juntar os valores, especialmente humanistas, que ainda carrego comigo.
Essa manhã voltei lá, convidado a participar de um documentário profissional que está sendo realizado sobre o Clube da Esquina, uma de minhas praias de então. Em companhia do Márcio Borges e do Murilo Antunes, mergulhei de cabeça nas lembranças e nas experiências que faziam dali, nosso recanto comum, um vulcão de arte e de política, que espalhou suas lavas sobre aquele tempo.
Voltei à minha sala, conversamos com grupos de alunos, refizemos para as câmeras as trajetórias de então. Chorei que nem uma carpideira do sertão nordestino, disse à moçada que nos seguia, curiosa, muitas palavras de esperança pelo futuro que eles saberão construir, honrando a história do nosso Estadual.
O pequeno vídeo em anexo retrata minha entrada emocionada naquele espaço encantado, e a repetição do agradecimento, que um dia fiz cara a cara e diante de um auditório lotado, ao modesto Niemayer por ter colocado no meu caminho uma rampa que mudaria o meu destino, e não uma escada, que impediria tal alquimia. Ele deu um leve sorriso.
Meio sem treino, como tenho vivido, curto agora uma baita ressaca por tantas emoções.
E o Clube da Esquina? Postado no meu FB em 31/08/19
Como andei falando muito sobre o documentário do qual participei, no Colégio Estadual etc, a amiga Adriana Saldanha Guimaraes perguntou num comentário: "E qual sua história com o Clube da Esquina?"
Reproduzo o que respondi lá:
"Adriana, sabe que nem sei. Convivência com queridos amigos durante um tempo da vida, e depois mais esporadicamente. Colega do Marcinho Borges, amigo e admirador do primogênito Marilton Borges (o mais musical da família, em minha opinião), a frequência naquela casa sempre agitada e cheia do Salomão e Maricota, Estadual, Maletta, CEC, Imprensa Oficial. Uma Beagá mais provinciana e calma, onde as coisas se misturavam sem grandes projetos, com poética singeleza. Não raro estavam na casa de meus pais, no Carmo, personagens que aos poucos eu veria mais e mais nos registros da mídia: Bituca, Toninho Horta, Fernando Brant, e tantos outros. Uma foto minha na capa interna do LP Clube da Esquina me batizou como membro daquela comunidade que ganhava o mundo. Fui morar no exterior, depois viver na UFMG, e os caminhos correram como paralelas que vez ou outra se encontram. E restaram lembranças, muito amor e amizade. Seu saca-rolhas é bom. Acho que nunca falei tanto sobre isso".
Em gratidão ao mano véio Marcinho Borges
Ainda sobre minha vivência e convivência com o Clube da Esquina, assunto que me deixou matutando a partir da participação no documentário sobre o movimento, em tomadas filmadas no Colégio Estadual, e a partir da despretensiosa pergunta de uma amiga, por aqui. Descobri que eu não sabia o que dizer.
O sentimento que sobreveio nessa matutagem foi o de gratidão, e em especial por uma figura bem central não só no movimento, mas também em minha vida. Em especial na virada radical que eu tentava dar a ela quando entrei no Estadual, e me joguei no mundo, tentando desconhecer as perenes dificuldades de locomoção.
Apesar de pouco mais velho que eu, o Márcio Borges era essa figura, a quem chamo de mano véio, um amigo mais que querido. Com o passar dos anos, e com os rumos das respectivas vidas, a gente foi se encontrando mais e mais raramente, quase um nada. O que não abala o tanto que gosto e curto esse cara falador e de inteligência ágil e brilhante.
Ele vai achar esse papo meio esquisito, mas naqueles anos de maior convivência ele foi, sem pretender, nem posar como, uma referência para a minha redescoberta do mundo, em especial do mundo sensível. Só não digo quase um guru, pra ele não exagerar na máscara.
Em longas e boas conversas, muitas vezes em grupos, em botecos, ele me inoculou a paixão pelo cinema, que inda carrego, me aplicou em fundamentais da literatura mundial, coisa distante de um egresso de educação marista, e curtimos muita música, e essa era uma paixão que eu carregava desde menino, e ainda carrego, sempre fiel aos pilares de nossa magnífica música popular. E aqui penso em Luiz Gonzaga, Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha e tantos outros que frequentam meu cotidiano.
Voltemos. São fascinantes e curiosas essas sínteses que, no matutar, adquirem rumos próprios, incontidos. Como se ficasse claro que minha vivência com o Clube da Esquina tem quase o molde de minha convivência com o Marcinho.
É certo que dali abri o leque, desdobrei em amigos, conheci boa parte da mais fina flor dos instrumentistas de então, vi poetas e músicos em efervescência criativa, aprendi muito e fui feliz.
Marcinho fez de mim um personagem no seu livro Os Sonhos Não Envelhecem”, e agora me convoca para o documentário. Isso me ajuda a compreender minha vida, e joga foco nesse mistério do amor maior que chamam de amizade.
Zapeando no tédio das manhãs
Após longa ausência, hoje fui zapear pelos canais abertos da TV, na programação matutina dirigida às donas casa, aposentados, desempregados e àqueles que por razões diversas, entregam suas manhãs à telinha companheira da solidão e do tédio.
Como professor, e em poucas investidas profissionais no mercado, sempre fui próximo ao tema e a seus desdobramentos, mas isso não reduziu a perplexidade com o que vi essa manhã. Um circo de horrores comerciais, explodindo todos os limites do que um dia foram conquistas, até de ordem legal, no que se pretendia defesa do cidadão e do consumidor.
Sem diferenciação de classe social, apenas de qualidade e preço dos produtos, mais ou menos a mesma aberrante estratégia ocupava todos os principais canais. De Edu Guedes a Fátima Bernardes, da Record à Band, o criminoso assédio à auto-estima, em especial das mulheres, mas não só, descortinava a certeza que os últimos resquícios de ética haviam ficado nos bancos escolares, ou, mais provavelmente, sufocados sob os contratos nos departamentos de marketing e merchandising das emissoras.
Testemunhais, até do vendilhão Louro José, empurravam para os do lado de cá das telinhas (hoje, telonas) a culpa pelo sentimento de fracasso pessoal, ou de infelicidade. Quem mandou não usar o creme X, ou se empanturrar com a vitamina Y? Quem mandou não superar seus limites, e se tornar empreendedor(a) como a jovemZ, que saiu da favela e hoje é líder mundial na depilação das partes íntimas dos homens modernos?
Não me refiro aos comerciais, nos devidos e legalizados formatos e horários, mas à diabólica mistura entre os personagens de sucesso, ricos e famosos, e os produtos que quase acidentalmente se espalham pelo cenário, e sobre os quais se contam encantos testemunhais em pequenas intervenções. E que, por serem mais caros, talvez por serem ilegais, fazem a fortuna de apresentadores e reforçam o caixa dos patrões.
A legislação chegou a restringir isso fortemente, mas leva jeito dessas leis terem apenas saído de moda. Com o devido e sacana respeito, quando vejo a Ana Maria Braga injetar subliminarmente em seu público-alvo, a cada manhã, determinada mensagem, sinto o quão longe avançamos. Ela parece estar sempre dizendo, nas entrelinhas: “vejam eu, cento e muitos anos bem vividos, aparentemente ainda andando e falando, e isso se deve a essa vitamina aqui, aquele creme ali, e àquele produto acolá... que, desculpem, não estou enxergando sem meus óculos novos, da Ótica Carol”.
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Estão preparando uma cama de gato pra mim, aqui no #Facebook. Já me tiraram do ar duas vezes em tempos passados. Daí o Paulinho II, já que minha página anterior, ainda aberta, era censurada e suspensa quase semanalmente. O que me obrigou a migrar pra outra, mesmo deixando um monte de amigos pra trás. E não consegui na primeira tentativa.
Porque digo isso? Acabo de receber uma advertência por queixas contra uma postagem com nudez... feita há quatro anos (em verdade, 2 anos e sete meses, como verifiquei depois), e da qual não me lembrava. Uma brincadeira com Marx saindo do mar com um corpo de mulher com os peitos de fora. E me ameaçaram dizendo que em caso de repetição serei punido. E, na prática, me obrigando a concordar com o puxão de orelha por ter infringido os padrões de moralidade do Facebook.
Exatamente como os ataques seguidos que recebi naquela época, com queixas massivas de pessoas que depois se apresentaram a mim, via Twitter, como precursores da construção do Mito. E zoavam com minha cara.
Portanto, se hora dessas eu sumir por dias ou mais, saibam que provavelmente estarei sendo digitalmente esfolado nos porões escuros do reino do Zuckberger. Mas que voltarei, nessa ou noutra página.
Algo me diz que aquela matilha de filhos da pobre égua voltaram a pegar meu rastro. Ver-se-á...
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Pena que não printei ou fotografei o texto da advertência que o #Facebook me deu ontem. Inacreditável. Como a antiga foto, do início de 2017, que gerou o fato mostrava mulheres nuas, todas com cabeça de Marx, saindo do mar, recebi uma pérola do mais safado puritanismo yankee.
Lá se dizia, reproduzo de memória, que pelos padrões de moralidade do site, a exposição dos seios femininos só pode se dar em atividade de amamentação ou de tratamento médico, sem exposições excessivas.
Só não mandei introduzirem o FB no rabicó porque, infelizmente, ainda dependo dele para minhas atividades diárias.
Mas, agora quem faz uma advertência sou eu. Às amigas, travestis, transgêneros que por aqui transitam: CUIDADO COM OS NUDES QUE VOCÊS ANDAM ENVIANDO. MANTENHAM UM BEBÊ OU UM DOUTOR AO LADO.
domingo, 11 de agosto de 2019
Amor é isso. Ganhar do filho bem tímido, como presente do Dia dos Pais, uma cachaça chamada Bem Me Quer.
Como sou cada dia menos afeito à divisão tradicional de papéis na família de hoje em dia, tempo em que muitos lutam para romper os ditames repressivos do patriarcalismo, desejo um feliz Dia a todas e todos que, com amor, cumpriram funções e tarefas habitualmente atribuídas ao sexo masculino.
sábado, 10 de agosto de 2019
A #Globo ataca com agressividade e ousadia a sua crise financeira e a concorrência dos novos tempos.
Vão disputar no tapa o cenário das narrativas que hoje motivam o imenso público que se volta para o audio-visual como fonte de entretenimento e informação. E agora, e em futuro previsível, a Globo será imbatível em termos de produção nacional. Produção própria ou em consórcio com produtoras brasileiras, várias de ponta, mesmo se comparadas à produção internacional.
O inimigo a ser enfrentado não será encontrado por aqui. Vem de fora, da fantástica massa de produções internacionais que disputam a primazia mundo a fora. Uma produção que chega a nós através do estrondoso sucesso de operadores como, na liderança ainda folgada, a Netflix, mas também da HBOGO, da Prime Vídeo (Amazon) e outras. Chega-se até ao extremo de pequenas operadoras voltadas para um público cult, como a MUBI (minha predileta).
Em verdade, acho que estou fazendo um convite para que os amigos e amigas dediquem um olhar mais detido e sofisticado à Globo, em especial àquela que existe além do jornalismo. Gostando ou não, assistindo ou não, é difícil, e continuará sendo, compreender e discutir o imaginário e a cultura no cotidiano brasileiro sem contemplar o estado atual dessa disputa.
De seu lado, para sobreviver ao interesse público, a Globo voltada para a produção de narrativas de ficção ou de documentário terá que ampliar a gama valorativa e temática de sua produção. E, olhando com realismo, em muitas de suas produções a Globo já está um passo além do senso comum, propondo questões que chegam a cutucar o dito status quo.
Bem sei que a discussão é bem mais complexa, e que não são poucas as armadilhas que vêm embutidas nos aparentes avanços. Mas, o pretendido aqui é o desafio ao pensamento que tende a se acomodar diante de questões que pareçam consensuais em nossos grupos de referência e convivência. E, óbvio, uma boa pitada de provocação.
quinta-feira, 4 de julho de 2019
A quem interessar possa, mesmo que seja só para me chamar de pentelho, insistente, sem noção, chato. Aceito tais méritos. Para facilitar a leitura de certos escritos, de agora e de antes, espalhados pelo caos que é minha vida, estou tentando reuní-los no Rindo de Nervoso... Ainda, meu velho blog que andava desativado (mas já foi bom de dança).
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