terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ressacas de um tombo, e que tombo...

  Depois de longa e tenebrosa ausência, transcrevo aqui a matéria perpetrada para a próxima edição do Cometa, de onde sou colaborador desde antes da invenção da imprensa (e, agora, também online).

      Quem merece minhas lágrimas?


Coberto, cercado, imerso e anuviado pela pletora de informações, e desinformações, sobre o 11 de setembro, e seus desdobramentos, fiquei aqui meditando com meus velhos botões em suas casas puídas: seria possível, e faria sentido, um tal evento, digamos assim, 20 anos antes, em 1981? O que seria, se é que seria, do espetacular atentado sem o celular universalizado, a internet estando reservada aos militares “desenvolvidos“, as redes sociais ainda como ficção científica e as transmissões via satélite, em especial de TV, ainda engatinhando?

Acho que seria totalmente outra coisa, tanto na surpreendente concepção, e realização, quanto, e principalmente, na repercussão estonteante que foi buscar até o mais distante dos beduínos ou esquimós. Um fato do mundo, talvez como nunca antes na história... desse mundo. Os mais grandiloquentes, que costumam ser também os mais mentalmente preguiçosos, urraram na bucha coisas do tipo “a partir desse dia, a história humana se divide entre o antes e o depois da queda das torres gêmeas”, “nosso mundo nunca mais será o mesmo”, e os mais despudorados, sem vacilo, “o ocidente e o oriente (sic!) se enfrentarão numa guerra final”, “o islamismo mostrou sua verdadeira face, seus valores são inconciliáveis com os nossos (sic!)”. E a macacada, entre dois carrapatos arrancados da pança, entre eufórica e lacrimejante seguiu repetindo tais dísticos mídia e internet a fora.

Humilhados como foram, percebendo, desde antes, que a bunda de seu domínio sobre o mundo estava exposta, levando bicudo de tudo que era lado, vendo-se como o pai que apanhou em público do vizinho fracote e roto, os Estados Unidos da América não podiam se contentar com a banalidade de matar um monte de terroristas, e conterrâneos desses malvados, ou de tratorar uns dois ou três países não tão “democráticos como deveriam ser”, habitados por gente não tão civilizada assim. Isso era importante, mas não bastava. Nem de longe.

Os EUA haviam aprendido, com a já distante derrota no Vietnã, que só se ganhava uma guerra no mundo contemporâneo conquistando corações e mentes. E eles agora tinham experiência, e conheciam os instrumentos mais eficazes para empreender tal batalha. Essa parecia ser a tarefa. Lembro-me bem que, em paralelo ao turbilhão de imagens chocantes e declarações desencontradas, começaram, com o apoio de toda a mídia oficializada, a tentar relativizar o papel imbecil e a cara de babaca do Bush Jr ao receber, quase ao vivo, um cochicho na orelha anunciando a catastrófica notícia. E ele ficou não poucos instantes naquela postura, no mínimo pouco adequada, no caso, para o homem mais poderoso do mundo: a cara entre impassível e assustada, sentado numa cadeira baixinha enquanto o mundo parecia lhe cair sobre a moleira, tendo interrompido a historinha que contava, numa escola, para um grupo de crianças, ora perplexas.

Os EUA teriam também que conviver, mais que antes, com os paradoxos impostos por seus encantos e sua liderança. Como explicar, a si mesmos, a eficientíssima assessoria prestada ao bando de jovens terroristas por Mr. Gates & Cia? Vejamos. Se a perfeição absoluta do atentado, e de seus efeitos, não poderia ser imaginada nem por Alá, num momento de entediado devaneio, a chance da execução seria igual a zero sem as habilidades adquiridas através do Flight Simulador, da Microsoft, e outros softwares de alcance público. Aqueles modernos kamikazes muçulmanos nada tinham pilotado além de pequenos Cessnas, e detinham ralos conhecimentos próprios sobre o espaço aéreo norte-americano. Sentados diante de computadores, certamente americanos, eles passaram centenas de horas, durante dezenas de meses, provavelmente até se divertindo nas simuladas cabines de imensos Boeings, tirando rasantes sobre prédios, treinando a mira nos alvos gêmeos que pareciam marcar em definitivo a skyline nova-iorquina, e, quem sabe, antegozando o prazer sagrado de se esborrachar no Pentágono, símbolo maior da segurança ianque.

Mas, passados dez anos dos atentados, mesmo estando a mídia temerosa de perder uma pauta tão garantida e certeira quanto a trajetória de três daqueles quatro aviões, as homenagens e comemorações deixaram claro que uma lição ainda está por ser aprendida. Enquanto houver hierarquização dos sofrimentos e da dor, a paz será um alvo distante para olhares tão míopes. Como explicar a um iraquiano ou a um afegão que as centenas de milhares de mortos, civis em imensa maioria, em seus territórios, são banalizadas pela observação civilizada do mundo ocidental? Como compreender que os quase três mil mortos nos atentados, e os 6.300 soldados mortos no Iraque e Afeganistão, sejam reverenciados com placas e belos monumentos, e com o choro comovido do universo midiático, ao mesmo tempo em que os que perderam a vida do “lado de lá” são juntados nos desumanizados pacotões das estimativas imprecisas?

Como afirma a publicidade de algo que não me lembro o quê, são as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo. Quando o mundo do “lado de cá” se disporá a enfrentar as grandes questões do hoje, abrindo mão das respostas fáceis do nosso conforto? Quando descobriremos que é inviável a globalização baseada apenas na partilha dos ônus?

Tais são apenas outras perguntas. Banais, como tantas.

        Paulinho Saturnino Figueiredo
             Setembro de 2011

sábado, 14 de maio de 2011

Uns 1000 novos modos de me ver e ouvir.


De repente, bato o olho na coluna à esquerda de meu Facebook, e sinto um frissom gostoso, nada virtual. O mostrador me avisa: cara, você agora tem 1.000 amigos facebookistas, vê se toma juízo. É bom, mas é estranho para alguém criado com telefone de girar o dial, discos de vinil, mercearias onde se pegavam os cereais com conchas, direto dos sacos, e numa época onde os frangos ainda gritavam no quintal tentando adiar a morte inevitável, mas os almoços familiares domingueiros não podiam esperar. 1.000 amigos, boa parte dos quais nunca toquei, nem tocarei; nunca vi, nem verei, ao menos naquele modo antigo, no qual fui treinado, onde as telinhas de vidro não interrompiam o eventual percurso carinhoso de minha mão, um afago, um beijo amigo.

São novas abordagens, novas empatias, novos critérios de crença e lealdade. Os amigos se posicionando como se num organograma elástico, voluntário, pulsando em regras próprias, ainda meio desconhecidas, medos, confianças, atrações, repulsas, ofensas, elogios, tudo em busca de seu tom e de sua importância nessa ágora fantástica que vai se forjando no éter do espaço cibernético. Invejo, e como invejo os meninos de hoje que encaram tal realidade (e seria mesmo uma realidade?) com fluência e naturalidade. Eu sou só espanto e perplexidade, apesar do jeitinho natural com que tento me apresentar nessa cena.

1.000 amigos cibernéticos (muitos deles replicantes da vida real, se é que ainda se pode denominar assim) transitam com maior ou menor liberdade e intensidade por meu modem de banda larga. Como em episódio de uma boa novela, sempre existe algum deles à espreita, horário e distância pouco importando, pronto para reagir a qualquer manifestação que eu faça, curtindo, comentando, dando uma bronca mais ou menos merecida, decidindo entre verdade ou boato, achando ou não que seus princípios morais e éticos foram arranhados pela afirmação ou pela piada. Alguns deixam marcas, outros só espreitam, em silêncio tímido, preguiçoso ou predador.

Homenageio esses tantos amigos, e outros que ainda espero ter fôlego para conquistar. É bom sermos assim, sem maiores compromissos ou constrangimentos, adversários de nossas eventuais solidões, companheiros em nossas eventuais fantasias, parceiros, mesmo se eventuais e efêmeros, de causas e idéias que nos atiçam ou comovem. Bola pra frente, e obrigado.

terça-feira, 10 de maio de 2011

De espiões e assombrações.


Vivemos em um mundo onde as informações e os dados mais diversos circulam, e se juntam, de maneira inesperada, impensável e em relação à qual ainda tateamos impressões e compreensões. Só muita ingenuidade para não imaginar que estamos mergulhados num mundo de espionagens diversas, possivelmente competitivas entre si, e com um poder de integração entre elas mais complicado do que possa parecer.

A mais visível, ativa e cruel, é a espionagem comercial. Ela vem traçando perfis de cada usuário da rede, o que não seria necessariamente ruim. O danoso é que nos vemos progressivamente aprisionados a moldes, com frequência caricaturais e imprecisos, dos quais vai se fazendo difícil nos libertarmos. Tento explicar-me. Por exemplo, aquelas colunas que cada vez mais, e meio misteriosamente, vão surgindo ao lado de nossas telinhas, apesar da aparência aleatória e ocasional, são fruto de acurada pesquisa. Somos bombardeados com informações variadas sobre aquilo que eles lá, em algum lugar, concluíram que queremos ou, pior ainda, que necessitamos. Redirecionar tais perfis, ou expectativas, no sentido que nos interessa, informações de que realmente necessitamos, vai se tornando tarefa árdua, por vezes atormentadora. Jovem rebelde, mulherzinha, mulherão, gay, tímido, velhote metido a besta, por aí estão imaginando como chegar à sua mente, a seus desejos e, certamente, a seu dinheiro. Até o deficiente consumidor que sou (talvez mais um consumidor deficiente) é contemplado com uma chuva de tentações e apelos. Conspiração? Nem pensar. É a lógica de um velho e bem sucedido sistema econômico se reordenando, em clima de intensa competição, para te envolver e conquistar, você consumidor.

Se falarmos em espionagem política, aí as paranoias, por natureza gulosas, encontram campo fértil para encher a pança. Estou certo de que estamos mais expostos, e portanto mais fragilizados, que nunca, mas daí a estarmos sendo espionados com fins específicos vai um mundão de distância. Não imagino até onde uma tal pletora informativa, um tal jorro contínuo de dados diversos, advindos de culturas e contextos políticos variados, poderia ser pragmaticamente processada e utilizada por agências centrais do que quer que sejam. Para quê? Gerando quais ações? Não somos potenciais Bin Ladens, nem trocamos informações e impressões que, na quase totalidade dos casos, não possam ser obtidas por agentes competentes com relativa facilidade.

Temo que tais discursos temerários e grandiloquentes possam inibir nossa tarefa mais premente: participar ativamente da tomada e da ocupação da internet, a grande rede, levando à frente as idéias, as discussões, as piadas etc que nos pareçam relevantes, importantes, divertidas, seja lá o que for. Claro que somos minúsculos diante dos poderes da grande rede, mas ela não vive sem nós, não se ocupa com conteúdos próprios. A internet não é um mega meio de comunicação, ela é algo novo e desconhecido, uma rede que tem tudo para se firmar como um grande bem da humanidade, um lugar do exercício da liberdade, em especial no tocante à informação, como o homem nunca imaginara, seja nas redes sociais, ou não. 

O ordenamento político e tecnológico da internet ainda está em seus primórdios, a inibição de nossos impulsos e tesão de coloca-la ao serviço da maioria só pode interessar aos que hoje acreditam ter as rédeas da rede em mãos, e vivem o pânico de perde-las. Mesmo que aparente ou realmente bem intencionados, tais declarações sobre perigos e ameaças merecem ser ouvidos com respeito, mas também com desconfiança, cautela e reflexão.

sábado, 7 de maio de 2011

Velho em mim

.............................. 
Há muito suspeitei o velho em mim. 
Ainda criança, já me atormentava. 
Hoje estou só. Nenhum menino salta 
de minha vida para restaurá-la. 
.............................. 
E depois das memórias vem o tempo 
trazer novo sortimento de memórias, 
até que, fatigado, te recuses 
e não saibas se a vida é ou foi. 
.............................. 
Carlos Drummond de Andrade 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Rodando a vida

Há os que me vendo não me ouvem, e, se me ouvindo, em mim não crêem quando digo que a vida vem e se esvai sobre rodas.


                               foto de Dinu Mendrea, Israel


post dedicado à amiga Tchela (reproduzido de um antigo blog meu)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Gosto desse sucesso...

Estou insuportável, metido a besta. Na sexta-feira, 25/03, atendendo a convite, fui falar na aula inaugural dos "PerCursos Formativos em Docência do Ensino Superior", no auditório da Reitoria da UFMG. Além da honra e do prazer de voltar à Casa onde vivi minha vida profissional, e me aposentei, fui homenageado com o troféu "Docência: Sucessos do Ofício" (vide foto). Não fosse o marcapasso recém implantado, acho que um piripaque de emoção poderia ter me desmontado. Pensei com paixão nos ex-alunos, muitos dos quais reencontro nas quebradas da internet, e tive a certeza de que o prêmio pertencia a eles. Além de minha eterna gratidão.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dicas para ser um non (ou pouco) sense

...ter problema de auto-imunidade e aceitar beijo no coração...
...fazer a dança da chuva para nuvens de poeira...
...insistir em sexo oral com tubarão...
...coçar o saco com mãos de tesoura...
...beijar a morte e morrer de tesão...
...apostar sozinho na roleta da vida...

Azedou o caramelo.



A mídia se atropela em busca de furos, ou, ao menos, de um destaquezinho na cobertura da tragédia na área serrana fluminense. Tragédia de verão, como aquelas que há anos vêm quebrando o galho dos jornais, TVs e rádios nessas épocas de tradicional vácuo noticioso. O mico-mór dessa temporada, imbatível até agora, ficou por conta do tal cachorro Caramelo, aquele que teria ficado zelando pelo sono eterno de sua dona, deitado ao lado da sepultura cavada às pressas.


Rodolfo Júnior, voluntário que ajudava na tarefa urgente de se abrir as covas, levantou seu protesto. O cachorro que aparece na foto que comoveu o mundo é, em verdade, o John, fiel companheiro que o acompanha por toda parte, e ali estava só observando o seu trabalho. Parece que Caramelo até existe, mas sua história é outra. No Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim levantou o mico. Postei lá um comentário que reproduzo aqui:


Proponho um debate entre um representante da OAB, um das igrejas, um jornalista global, talvez o Merval, o governador Cabral (se prometer não fazer aquela ensaiada cara de choro), uma nutricionista (hoje quase não existem matérias sem a opinião da classe, e não me perguntem o porquê), e talvez um emocionável representante da tal comunidade. O tema? Caramelo é, ou não, portador de uma personalidade exibicionista? Caso o seja, que tipo de punição exemplar deveria ser imposta ao animal farsante? O momento é grave, a mídia não pode dar guarida aos que só querem aparecer.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Tema para uma insônia

"As ideologias nos separam.
 Os sonhos e as angústias nos unem"
                          E. Ionesco 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A hora é essa

Tutuca , dotado de raro espírito público, me avisa e convoca. É, enfim, chegada a hora. A luta dos cadeirantes chega a novo patamar. Chega de ver nossas vagas especiais usurpadas, acabou de vez essa sacanagem de insinuar que temos necessidades especiais. Seremos implacáveis com os pais babacas que se irritam com as criancinhas quando elas nos perguntam porque andamos assim, e passaremos com as rodas sobre os calos daqueles que se dirigem a cadeirantes como se conversassem com bebês, e dos mais retardadinhos. Negaremos gorjetas aos garçons e garçonetes que se dirigem a nossos acompanhantes perguntando o que vamos querer, e desprezaremos aqueles e aquelas que responderem a nossos olhares desejosos com sorrisos complacentes.


É apenas um começo.


Às armas irmãs e irmãos de rodas!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Revendo um velho amigo

Auspicioso 2011. Estava eu num domingueiro passeio pelo Diamond Mall quando, de repente, não mais do que de repente, bati o olhar sobre um amigo querido. A gente não se via de há muito, mas foi só chamá-lo, e os olhos de amizade rebrilharam, desconhecedores que são das ausências, mesmo as longas. 


Logo achegou-se a Laise, sua mulher, boa amiga, gente fina. Conheci Clara, sua neta, partilhei a mesa ainda com sua filha e seu genro. Foi um delicioso e comovido pequeno pedaço de tarde. Saí feliz com o reencontro, a cabeça revirando velhas histórias. Foi pouco? Parece. Hoje recebi email de uma amiga comemorando o texto que lera na última página do caderno de cultura do Estado de Minas. 


Ali, o poeta Fernando Brant, o tal querido e velho amigo, homenageava nossa amizade, e comovia esse velho admirador que ora vos fala com palavras de sua apurada lavra, pondo em encantado perigo esse coração que anda passando por provas, nem sempre tão doces. Orgulhoso da vida, reproduzo abaixo o texto da coluna publicada hoje:

REVENDO UM VELHO AMIGO



Estava de bobeira na esquina de um shopping, depois de dar uma olhada nas prateleiras de uma livraria e não me interessar por nada, quando ouço meu nome. Volto e dou de cara com a simpatia absoluta, o jeito de sempre, do Paulinho, movendo-se com naturalidade a bordo de uma cadeira de rodas. Ficamos às vezes um tempão sem nos encontrar com pessoas que valem à pena, que seguiram seu rumo, mas vivem na mesma cidade. Se não me engano, a última vez que abracei essa querida pessoa, foi durante a campanha presidencial de 1989. Lula foi à minha casa para ter uma conversa com o mundo cultural de Belo Horizonte. Houve Lula e eclipse da lua naquela noite.

Paulinho estava em minha lista e apareceu. Havia um porteiro que não queria deixar que ele entrasse. Ele dizia seu nome, Paulo Roberto, e não havia nenhum Paulo Roberto na lista. É que eu colocara ali o carinhoso, e estranho para muitos, apelido que lhe déramos: “Paulinho que acha ridículo andar de carro.” Vou explicar a alcunha. Observador, ele via as pessoas passando por ele, dentro de automóveis, e abstraía a existência do veículo. Assim, era engraçado imaginar os homens e mulheres falando e andando sentadas, passando diante dos pedestres e seguindo viagem. Com os ônibus era mais chocante. Dezenas de passageiros conversando, olhando a rua, se espremendo no espaço exíguo. Sem a carcaça do veículo era um espetáculo risível.

O fato é que ficamos ali, ele e sua mulher, eu e alguns dos meus, rememorando pessoas e fatos passados há muitos anos. Ele conserva o mesmo bom humor que o aproximava de todos. As dificuldades de locomoção que tem, ele as superou sem nunca se lamentar. Ao contrário, sempre fez o que projetou para si. Estudos, universidade, mestre durante anos na UFMG. Dele foi o primeiro carro que conheci (logo ele que achava ridículo etc) adaptado para quem não tinha todos os movimentos.

Encontrá-lo e abraçá-lo neste começo de ano, me deu força e alegria. Êta vida boa, meu Deus. Se o Paulinho existe, e se tantos amigos e amigas existem, se a cultura está aí para embelezar e pacificar a existência de todos, estamos salvos.

Confesso que guardo uma impressão de shoppings como lugar de encontro de outras gerações, não a minha. Tenho mania das esquinas ao ar livre, mas preciso admitir que isso foi caindo de moda, por causa da insegurança, poluição sonora e outros males das metrópoles. Para que tanto carro, tanta violência? Naquele começo de tarde, revendo e abraçando o amigo, eterno no sorriso e no bom caráter, vi que todo lugar é propício ao encontro. Necessário é que haja pessoas que valha a pena encontrar. Nisso eu sou rico.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bloguinho semi-novo, em estado de recuperação

O caro leitor desses precários bytes e bits talvez já tenha presenciado a cena de uma égua, movida pelos impulsos da maternidade, empurrando, com o focinho, seu filhote para os desafios da existência. Mais empreguiçado, ou menos, o potro acaba por se mexer, vacila, cambaleia, e acaba indo em frente.

Pois é o que meu valente xará (vide A Saga de Valente ) anda fazendo comigo, tentando empurrar, pra ver se pega no tranco, o meu emperrado blog. Nesse ano que vai chegando na curva, o blog ficou meio de enfeite, silencioso, guardando vaga no disputadíssimo espaço do converseiro cibernético. Motivos sempre haverão, mas o que conta, no fundo, é como e porque reagir a eles. E agora me vejo engajado, no susto que seja, entre os blogueiros em recuperação... na pior das hipóteses, em recuperação de blogs adoecidos.

Ainda na semana passada, uns apuros novos, e meio brabos, com a saúde, sacudiram meu sossego e minhas frágeis ilusões de eternidade. Como soe acontecer, do episódio arrancam-se coisas de aprender, coisas de rir e coisas de chorar. Poupado, como me encontro, nos hábitos do escrever, vou lançar mão, no relato que se seguirá, de trechos de dois emails que enviei, logo que saí do hospital, a um amigo, renomado médico. Preservarei com iniciais, por razões várias, as referências mais diretas.


Oi, tudo bom? Andei passando por uns apertos esses dias, e cheguei a pensar em te ligar em busca de uns conselhos. Mas, como a situação estava confusa, e parecia sobre controle, o tempo foi passando.
No domingo, 12/12, acordei ensopado por um suor gelado e tomado por uma sensação estranha. Passei a mão no meu oxímetro (que uso para monitorar minhas questões respiratórias) e me espantei ao ver que a frequência cardíaca não passava dos 22. A Unimed mandou rapidinho sua ambulância CTI, mas, como aquele menino pirracento que ensaia e ensaia, e na hora da festa emburra, quando eles me submeteram, aqui em casa, ao eletro e outros exames, os parâmetros pareciam normais. O médico achou melhor não me remover para o hospital, fez um diagnóstico de reflexo vagal e me aconselhou repouso. O dia correu normal.

Na 2ª feira, após o café-da-manhã, estava eu conversando com a Katinha e o Henrique (meu filho) quando, de repente, apaguei. Desmaio que parece ter demorado mais ou menos um minuto. De volta, vi que o oxímetro registrava 27 de frequência cardíaca. Dessa vez, mesmo com o trânsito mais apertado, a ambulância já veio com ordens de me rebocar de imediato. Dei entrada no Hospital Madre Teresa, onde trabalha o Mauro Vidigal, meu pneumologista, e que vem monitorando minha saúde. No P.A., onde minha frequência cardíaca ficava em torno aos 14, para admiração do médico, eu ainda falava muito, dava palpite e queria saber de tudo. Juntaram uma comissão por ali, e logo, logo, eu estava no bloco cirúrgico implantando um marcapasso provisório.

Um detalhe, que não tenho intenção de explorar, mas que me chateou ao ver a minicorporação médica local tentando abafar. Já terminando a implantação feita sob anestesia local, e coordenada pelo Dr. F. R., eu estava conversando com ele quando, sem mais nem menos, a vida apagou. Voltei, creio que logo depois, com o auxiliar me massageando o peito e dizendo "volta, Paulo... volta, Paulo". Foi quando o Dr. F., muito gentil por sinal, estava com 2 fios nas mãos e me disse algo assim: "desculpa, eu deixei encostar esses dois polos, e você teve uma ligeira parada cardíaca, mas está tudo bem", e logo, meio chateado, enrolou os fios num bom tanto de esparadrapo.

Fiquei feliz de ter retornado inteiro, e pra mim tudo estava de bom tamanho. O que me aborreceu foi que ao comentar isso, sem críticas, com outros profissionais, vi que queriam fazer de mim o doidinho da festa. "O que é que isso? Pode ter sido impressão devido ao estresse? Uma coisa assim o Dr. F. teria me comunicado"... e coisas do gênero. Chato, né?

Mas, voltemos ao que mais importa. Fiquei 5 dias na UTI, e me submeteram a um bom tanto de exames. Na 6ª feira, à noitinha, voltei à sala cirúrgica, então sob a coordenação de um tal Dr. A. (meio de sacanagem, já que senti que o assunto circulara por ali, pedi para separarem bem os fios, e que, se precisasse, eu podia ficar segurando um dos polos). Correu tudo muito bem, com muito carinho e eficiência, e saí dali com o marcapasso definitivo que agora carrego do lado esquerdo do peito, sob o escudo do meu glorioso América. Como diagnóstico final, pelo que consegui arrancar, eu estava com uma bradicardia intermitente, e com bloqueio elétrico total (minhas palavras leigas fazem sentido?). De meu marcapasso saem 2 eletrodos, um ligado ao átrio e outro ao ventrículo.

A ambulância me trouxe de volta na tarde de domingo, e aqui cheguei feliz e contente, sentindo-me muito bem. A limitação que ora se impõe está ligada a meu braço esquerdo, com o qual não devo fazer maiores esforços por 15 dias. Para um cadeirante, isso é quase o mesmo que o amarrar num poste, mas, tudo ótimo. O suspense restante, que parece ótimo para testar corações semi-novos, que nem o meu, está sendo feito pela Unimed (e como me internei através dela, o pedido do marcapasso não poderia, pelo que disseram, seguir outro caminho). O pedido ficou por bem uns 3 ou 4 dias com a auditoria da Unimed, e sem resposta. Decidi, então (e parece que muita gente anda tendo que fazer o mesmo), assinar um contrato pessoal de risco com o Hospital, assumindo todos os custos caso o pedido não seja aprovado. Foi o jeito para receber o marcapasso e cair fora da UTI. Até agora não existe resposta sobre a aprovação, ou não, do pedido, mas ficaram de me avisar. É uma bela grana, coisa de uns 10 mil reais, mas não creio que haverá problema com a aprovação... pode ser só um terrorismozinho burocrático. Sinceramente, só não entendo o que a Unimed pode lucrar com tal entrave, mantendo o paciente à espera na UTI, com diárias caríssimas. Vá saber, né?

Era tal a minha historinha pré-natalina.

O amigo, grande cardiologista que é, matou com acerto a charada: eu tivera um bloqueio AV total, e o marcapasso parecia mesmo o caminho certo. Constatou, ainda, em resposta, que as intercorrências do episódio foram lamentáveis, e discorreu sobre a complexidade atual da tecnologia, da atividade hospitalar e da corporação médica (que está meio perplexa com o contexto moderno da área da saúde). Quis ele saber, também, porque eu me referia seguidamente à Unimed, se somos, ambos, associados e fundadores da Casu (plano de saúde dos servidores da UFMG, dentre outros).

Foi o que tentei explicar no email seguinte:


Em primeiro lugar obrigado pela atenção e pelo carinho.

Perfeita sua definição. O que mais senti foi uma perplexidade, naquele universo intensivista da saúde, diante do novo, além do extraordinário elenco de opiniões e diagnósticos contraditórios, por vezes paradoxais. Nas prescrições sobre o uso do marcapasso, exemplificando, dependendo do conselheiro o candidato pode ir do inutilizado ao super-homem, num instante. Tento entender, e sempre me fascino com os redemoinhos que atravessam a vida atual dos profissionais da saúde, levantando poeira e embargando a visão do instante. E, como ensinou mestre Rosa, no meio dos redemoinhos mora o diabo.

Exemplo de meu fascínio: durante a implantação do marcapasso definitivo, tendo conseguido afastar um pouco o pano que me cobria a cabeça, fiquei espreitando na greta algo que não vou esquecer. No monitor, ao lado da mesa cirúrgica, aqueles fiozinhos se intrometendo no meu coração pulsante até serem ancorados no posto de suas missões, que espero longas e tranqüilas. Emoção sobre emoção.

Outra historieta hospitalar, essa tristemente engraçada, até folclórica. Na internação inicial, ao citar os remédios que vinha tomando, citei o Glifage XR, remédio para diabetes que minha médica otorrino vem prescrevendo na tentativa provisória de modificar minha curva de insulina, algo por aí. Mas não sou diabético, e nunca fui diagnosticado assim. Mas, vai provar. Fui mergulhado numa barafunda kafkiana, e, apesar dos tantos apelos e argumentos, acho que só deixei de ser considerado diabético na hora em que entrei na ambulância que me trouxe de volta. Não é brincadeira. Saí com as pontas dos dedos cheias de furos, pelos exames de glicemia bem umas 6 vezes ao dia; aguentei uma dieta mais insossa que a normal, as bandejas sempre etiquetadas "DIABETES", o dia terminando com um ralo e misterioso mingauzinho de aveia; e até uma injeção de insulina me foi aplicada na barriga, para meu espanto, já que só me informaram o conteúdo quando o embolo, apressadinho, terminara sua corrida.

Mas, o que me deixaria rindo de nervoso, ainda estava por vir. A técnica em enfermagem que cuidava de mim, e que me dera banho, entrou no meu box, quase descontrolada no seu riso. Descobriu os meus pés, olhou, e custou a parar de rir para me contar o ocorrido. No relatório da fisioterapeuta que me examinara se lia: "o paciente teve o pé esquerdo amputado". Não precisei de muito tempo, nem de especial acuidade dedutiva para matar a charada. Com o falso diagnóstico de diabetes estampado em minha ficha, a jovem fisioterapeuta se deixou impressionar por estatísticas que deve ter ouvido na escola, e decidiu dar por ausente o pé esquerdo que, aliás felizmente, estava só enrolado no lençol, e repousando sob a coxa da outra perna. Posso te assegurar que eu trouxe o pé comigo, e que, apesar de pouco eficiente, ele ainda está aqui, compondo meu leiaute. Perigo mesmo é me tornar, involuntariamente que seja, personagem heróico da regeneração orgânica, via células-tronco, ou congêneres.

Agora, abusando de sua paciência generosa, vamos ao caso UNIMED. Há uns três anos, talvez mais, vi se agravar um impasse diante do catálogo da CASU. Grande parte dos profissionais estavam localizados nas redondezas da área hospitalar, e o acesso, tanto para estacionar o carro, quanto para chegar aos consultórios, foi se fazendo mais e mais complicado. Não foram poucas as vezes em que, tendo marcado a consulta, e tendo ouvido das secretárias que o acesso se faria sem problemas etc, tive que voltar para casa sem ser atendido. Houve caso até mais pitoresco, como no consultório do Dr. F. C., urologista. Chegando lá, deparei-me com uma maca muita alta (a justificativa, que nunca entendi muito bem, e que a maca era também usada pela mulher dele, fisiatra se não me engano, que tinha necessidades específicas), naturalmente não consegui escalar o obstáculo, não havia quem desse uma mãozinha, e acabei saindo de lá com meia consulta feita, por exemplo sem toque retal e outros procedimentos.

Tentei, acho que em duas oportunidades, mas talvez carente de ousadia e habilidade, levar esse problema à CASU. Estive lá, deixei recado, prometeram retorno, o tempo foi passando, não deu em nada, e me acomodei. Eu tinha algumas sugestões a propor, como fazer constar no catálogo o símbolo internacional de acessibilidade diante dos consultórios e clínicas aptos a receber cadeirantes e outros pacientes com dificuldades de locomoção etc; como fazer constar nos contratos a necessidade de se buscar a adaptação ambiental; e outras coisinhas, algumas já banais em mundos mais desenvolvidos, onde o usuário já reuniu mais poder de fogo e reivindicação. E aqui é essencial controlar-se a ansiedade, mal que me assola e consome, pois tenho vivência bastante para saber que a lerdeza parece inerente a tais processos.

Daí, a idéia de associar-me TAMBÉM à Unimed, que tinha catálogo bem mais amplo e diversificado, foi se infiltrando como forma de amortecer o impasse, inclusive porque, à época, minha saúde passava por quadro de relativa instabilidade. O PIC propôs um pacote de associação coletiva à Unimed, com preços bem mais baixos que os praticados na venda a varejo. O corretor veio me visitar, e apesar de seus insistentes conselhos para que eu pintasse um quadro róseo sobre minha saúde no protocolo de adesão, fiz um relato extenso e detalhado sobre meus males passados e presentes, discriminei todos os medicamentos, não deixei nada em branco. A punição, como eu esperava, veio pesada. Eu pressentia que eles fariam de tudo para eu tomar a iniciativa de desistir do contrato. Viu-se bem que eles não conheciam esse caboclo pirracento que dona Regina, minha mãe, empurrou pro mundo.

Fui visitado, pouco tempo depois, por uma assistente social que me comunicou uma carência de dois anos, impedindo meu acesso a uma lista de procedimentos que cobriam um relatório de 32 páginas (isso mesmo, trinta e duas). Paguei penosamente as caras mensalidades, fazendo a contagem regressiva. Minha intuição não me deixava desistir, algo me dizia que aquilo era um investimento, e necessário. Tiro e queda. Em especial após aquela crise de hipoventilação e retenção de CO² que me levou ao CTI do LifeCenter, em março de 2009, tive que recorrer a serviços especializados e caros. Só o Bipap, ao qual passei a recorrer por bem umas 12 horas diárias, custava R$ 750,00 - hoje não se consegue por menos de R$ 1.000,00! - a título de aluguel MENSAL. Mais fisioterapia respiratória, mais acompanhamento etc.

Já caminhando o tratamento, e provando que o Universo conspirava a meu favor, como ele veio a me dizer depois, pousei nas mãos do pneumologista Mauro Vidigal (que posteriormente descobri ser filho de uma amiga que tive na adolescência... Oh!, Minas Gerais), e tudo começou a mudar. Ele atende no Hospital Madre Teresa, e também no Núcleo de Atenção à Saúde da própria Unimed. Após algumas tentativas generosas, e respectivas auditorias, ele fez com que a Unimed me encaixasse no Programa de Atenção Domiciliar, e facilitou minha vida. De cara, há uns 7 ou 8 meses, uma equipe multidisciplinar veio à minha casa ver minha situação e dimensionar minhas necessidades. O efeito mais imediato, e de maior impacto, foi que eles assumiram a responsabilidade técnica e financeira sob meu Bipap (minha economia com o fim do aluguel mensal era maior do que a mensalidade do plano de saúde). Fora isso, compareço a consultas bimensais com o Dr. Mauro e equipe multidisciplinar, recebo telefonemas regulares da assistente social, tive atendimento sem complicações do serviço de ambulância, e não sei o que mais pode vir, ou não, por aí.

Como o Dr. P. R., que se tornara meu cardiologista de uns 2 meses pra cá (e a quem procurei em especial porque ele atende as consultas no próprio hospital, onde consigo estacionar, subir de elevador etc), e atende pela Unimed, reservou para mim vaga na UTI do Madre Teresa naquela manhã brava, e como entrei na emergência através da ambulância da Unimed, o processo passou a correr naturalmente sob a chancela do plano. Te confesso que pensei nisso tudo, e me sentindo meio vingado pelos anos pagos em carência quase total, enquanto a ambulância zoava em disparada Avenida Antônio Carlos a fora.

Foi assim que cheguei ao fim da novela aguardando a autorização da Unimed. Hoje mantenho os dois planos. Fico, com mulher e filho, na Casu para o cotidiano, e na Unimed vou surfando nessas ondas que foram se abrindo além de minhas expectativas.

Peço perdão por estender tanto a conversa, mas, no fundo, a culpa é sua. Encontrar alguém que se deleita com a dificílima arte de saber ouvir, que anda sumida mesmo nas relações de amizade, vai se  fazendo coisa tão rara, mas tão rara nesse mundo ansioso e egocentrado, que quando a gente encontra uma vítima (e você sempre me parece um mestre nessa arte), acaba abusando.

O diagnóstico final que recebi, como mais provável, fora mesmo bloqueio total AV.
Obrigado,
grande abraço,
Paulinho

sábado, 20 de novembro de 2010

Imagem perdida

                                            Retrato
                                                                         Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Favor dirigir-se ao lado...

Fuçando umas quase velharias, aqui nos porões do meu desktop, encontrei uma mensagem que enviei, em 14/03 (embora pareça tão antiga) para o blog "Sonhos de Luciana", aquela mui interessante personagem tetraplégica da novela global "Viver a Vida". Eu andava curtindo a dinâmica inovadora daquele blog ficcional dentro da trama. A conversa da hora era a dificuldade de profissionais de atendimento ao se dirigirem a portadores de diferenças diversas, no caso cadeirantes. Dei meu palpite:

Pois é, grande Lu, entendo bem sua perplexidade e estranheza. Sou cadeirante, paraplégico desde bebê, tenho 61 anos e aposentei-me como professor universitário. Vivo em Beagá. Minha mulher, a Katinha, tem 51 anos, e vive brigando com garçons, balconistas no comércio, atendentes em geral, para que se dirijam a mim, e não a ela, como ocorre em 80% das vezes quando querem saber o que desejo ou o que estou achando das coisas. E olha que cultivo uma longa barba branca, e sei fechar a cara quando necessário. Minha mulher costuma brincar: "ele tem cara de besta, mas pensa, fala e tem vontade própria". E, quando sobra humor, costumo fazer uma pequena preleção para esses profissionais, tentando fazer com que eles vejam o ridículo da situação preconceituosa, com que eles percam o temor de abordar o diferente e a diferença. Não somos invisíveis, e temos que deixar isso bem claro. O fundamental é não abrir mão do humor, e nem se deixar abater por essas bobagenzinhas da vida. Beijão, e parabéns pela talentosa representação da "categoria".

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Lalau em Belô

Na década de 1960, Beagá foi honrada com a visita do Festival de Besteira que Assola o País (o Febeapá, de tão saudosa memória, por tão atual), crônica do inesquecível Stanislaw Ponte Preta, também dito Sérgio Porto.


Tire a Vaca do Elevador 

Em BELO HORIZONTE, ultimamente, têm acontecido coisas muito estranhas.  Ora é um movimento político, ora uma festa de caridade, ora um projeto-de-lei proposto pelos deputados mineiros. enfim, acontecem coisas estranhas. às quais a Pretapress dá o devido registro, na medida do possível.  Agora mesmo a leitora Vera Gomes envia recorte publicado no jornal "Estado de Minas", no qual o comandante da Limpeza Urbana, ou seja, o Diretor do Departamento de Limpeza, Sr.  Teófilo Ezequiel Adjuto Campos, faz saber , "Prefeitura de Belo Horizonte - AVISO AOS DONOS DE ANIMAIS EM BAIRROS E VILAS - Cientificamos aos senhores proprietários de cavalos, cabras, carneiros, bois e vacas, cuja criação é feita de maneira irregular, soltos pelas ruas, que sua retirada ou segregação deve ser feita no prazo máximo de dez (10) dias, sendo que a qualquer titulo é proibida a manutenção desses espécimes de animais em edifícios de apartamentos".  E segue-se a assinatura do zeloso diretor acima referido.  Isto, caros leitores uagaenses. prova que Belo Horizonte vai entrar nos eixos, em questão de animais.  Não pode mais ter boi, cavalo e vaca na rua e - o que é mais importante - a ressalva é clara ; sendo que a qualquer titulo é proibida a manutenção desses espécimes de animais em edifícios de apartamentos portanto, leitores belo-horizontinos, se algum de vocês mantém algum cavalo (ou mesmo égua) na área de serviço do seu prédio, se você tem algum boi sendo criado - digamos - no seu banheiro, ou alguma vaca no elevador, trate de se desfazer desses bichos. ainda que sejam de estimação.  A lei é para todos.  

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Um homem e a sua vida

Yehuda Amichai (1924-2000)
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro


Um homem não tem tempo na sua vida 
para ter tempo para tudo. 
Não tem momentos que cheguem para ter 
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes 
está enganado acerca disto. 

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante, 
de rir e chorar com os mesmos olhos, 
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras, 
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor. 
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer, 
de planear e confundir, de comer e digerir 
que história 
leva anos e anos a fazer. 

Um homem não tem tempo. 
Quando perde procura, quando encontra 
esquece, quando esquece ama, quando ama 
começa a esquecer. 

E a sua alma é erudita, a sua alma 
é profissional. 
Só o seu corpo permanece sempre 
um amador. Tenta e falha, 
fica confuso, não aprende nada, 
embriagado e cego nos seus prazeres 
e nas suas mágoas. 

Morrerá como um figo morre no Outono, 
Enrugado e cheio de si e doce, 
as folhas secando no chão, 
os ramos nus apontando para o lugar 
onde há tempo para tudo. 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

E poupai nossos tímpanos... amém!


Acurada pesquisa histórica acaba de demonstrar que a praga das vuvuzelas é muito mais antiga do que até agora se imaginava. No flagrante vê-se o tormento de um velho senhor frente a um ataque do malfadado cornetão.

domingo, 20 de junho de 2010

Mineirices

"Mulher com fome é um trem difícil". Frase mineiríssima de meu filho, hoje, em conversa à toa.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Claro que é amor

Concordo com quem disse que o Twitter, e por desdobramento o Facebook, é um serial killer do tempo ocioso. Mas, fazer o quê se ora ando me comovendo por seus dentes pontiagudos, penetrantes. Bom, num desses bate-bolas, no FB do Marcinho Borges, surgiu, a partir de antiga foto no Colégio Estadual, colégio da vida de muitos de nós, uma conversa sobre o Éder Simões, mestre-mór de não poucos. Raquel, sua filha e minha amiga, diz acreditar que seu pai teve com a gente uma relação que "pode ter sido amor". Marcinho, com quem partilhei aqueles tempos, confirma. Eu mato essa bola no peito, e tento chutar pra gol. Transplanto de lá o que escrevi, para registro:

Claro que é amor, posto que ainda pulsa e, agora mesmo, me cutuca naquela área das emoções máximas, não carentes de razões para existir. Vou no embalo. Se não abracei a escrita como ofício, foi porque não acatei o estímulo do mestre Éder.
Entreguei, meninote, ao Éder, uma redação de tema livre, a que dei o título de "Guevara: herói ou mito?" Li, e ouvi, como avaliação, palavras que abriram rumos, nortearam passos, e até hoje ecoam. Não compete aos mestres, e felizmente, saber o alcance de suas sentenças, nem se responsabilizar por elas. Viva a sabedoria!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu e as brisas


Corredores da Fafich-UFMG, bolsinha de pano pendurada, quase jovem professor, ainda na era das fieis muletas. Finais dos anos 70, por aí.