segunda-feira, 26 de abril de 2010

Comendo do bom e do melhor

Gosta de uma fodinha quente? Ou é mais chegado a um tique-taque no redondo? São opções, na certa gostosas, no cardápio do restaurante Os Telhadinhos, situado no Minho, Portugal. A informação foi pinçada no Blogstraquis, do Moacir Japiassu:

Cardápio do restaurante Os Telhadinhos, de Ponte de Lima, Minho:

- Fodinhas quentes (pataniscas de bacalhau)
- Escarrapachadas quentes (codornizes)
- Biquinhos de amor (caprichos do mar)
- Tique-taques no Redondo (coração de frango no prato)
- Vanico de Ronca (orelha de porco)
- Perigoso na Racha (Fígado de cebolada no meio do pão)
- Corno na Racha (prego no pão)
- Com Sola na Racha (panado no pão)
- Mamadeiras Quentes (coxas de frango)
- Mentirosos Quentes (bolinhos de bacalhau)
- Corninhos de Marcha Lenta (caracóis)
- Chupões de Molho Verde (polvo em molho verde)
- Cu de Galinha Recheado (atum, cebola e salsa)
- Saquinho Cheio (rissol)
- Charuto da Avó (pão misto com salsicha)
- Cociguinhas feitas à mão (punheta de bacalhau)
- Meia Queca (meia tigela de vinho)
- Queca Cheia (tigela cheia de vinho)

As fodinhas podem ser embrulhadas (no guardanapo), na racha (pão) ou no redondo (prato).
Todo o menu pode ser acompanhado por uma Putinha(malguinha) de "bom vinho de lavrador", garantiu a proprietária Márcia Abreu.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Salve Brasília! Salvemo-la...

Millôr Fernandes havia dito, n'A Bíblia do Caos: "Brasília é o desnecessário tornado irreversível". Acho e não acho. Dou a Brasília meu repúdio pelos danos que ela causou ao exercício do poder político entre nós, mas dou-lhe, ao mesmo tempo, minha paixão por aquele projeto urbanístico onde eu adoraria viver, talvez um olhar viciado de cadeirante, iludido pela planura e pelos amplos espaços públicos.

Há exatos 50 anos, lembro-me, menino, excitado com aquele dia da inauguração de uma cidade meio maluca que ocupava todos os assuntos e revistas ilustradas, como O Cruzeiro e Manchete, das quais eu era viciado leitor. Arquitetura revolucionária, Juscelino, festas badaladas da mais fina elite, lamúrias por um Rio de Janeiro usurpado em seus sentidos e vocações, cenas de um cerrado então exuberante, entrevistas com brasileiros que haviam acorrido de todos os rincões em busca da nova vida que a cidade prometia. Entre os tantos encantos da data, um, no entanto, amarrava especialmente minha atenção.

A TV Itacolomi (dos Diários e Emissoras Associados), canal 4, prometera integrar Minas Gerais ao link para a primeira transmissão de um evento que se ambicionava mostrar, de modo simultâneo, a pontos diversos de um país então imenso, por inalcançável à mesma imagem televisiva. Num ousado projeto, daqueles à la Chatô, aviões ficariam sobrevoando áreas diferentes no espaço aéreo entre o Planalto Central e as principais capitais do sudeste. O sinal da transmissão passaria por antenas situadas nesses aviões até pousar nos precários links já existentes. Vai dar certo? Chega, ou não chega? De repente, imagens meio piscantes, naquele preto e branco embaçado, inundaram nossas casas. Brasília estava sendo inaugurada ao vivo. Era a emocionante vitória de uma modernidade que desde sempre me envenenou.

Brasília vingou como cidade e como monumento tombado pela admiração mundial. Mostrou-se profundamente brasileira ao gestar nos seus entornos um cinturão de pobreza, mesmo de miséria, depósito daqueles a quem se reservou só despojos do sonho imenso. Nos rastros de sua breve história se arrasta uma dúvida insanável: o que teria significado a nova capital para nossa convivência política, para nossa vida republicana, se metade de sua existência não tivesse se passado sob os tacões da ditadura militar, com suas regras tão próprias para a organização do poder, para a distribuição de benesses e para cevar "lideranças" viciadas e carcomidas?

Penso Brasília como sonho e pesadelo. Linda sob aquele céu azul, emoldurada pelo infinito de seus horizontes, nela floresceram fartos espaços sombrios, aparentemente adequados à política safada e aos negócios escusos. O que lhe falta, não como cidade, mas como capital do Brasil, já que esse era seu desenhado destino? Porque, ali, parte preponderante dos agentes políticos sentem-se tão desobrigados dos temores devidos à pressão popular numa democracia que se queira moderna? Quando ela se tornar secular, quase adulta, os de vocês que porventura ainda pelejarem por aqui, talvez tenham arrancado dessa Brasília de todos nós alguma resposta, quem dera até alguma transformação positiva. Por enquanto, creio, o melhor a fazer é amá-la com cívica paixão, é ficar do bom lado nas lutas que ali se derem. Parabéns!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Memórias do amanhã


Hoje eu acordara meio enviesado, encarando a vida com olhar de "perro herido", como dissera o Neruda. Lembranças instáveis e vácuos esganando desejos e planos, tal uma madrasta malvada moída por ciúmes. Ando meio assim. É a fase, diriam uns; coisas da idade, rebateriam outros. Meu médico, descompromissado com meus devaneios sem valia, recomendaria um reforço no uso da maquininha que me ajuda a contrariar os truques malévolos do CO² preguiçoso que andou abusando da hospedagem que lhe dei.

Foi quando me chegou um email do amigo Pedro Paulo Cava, acompanhado de uma foto, pedindo ajuda na identificação dos personagens, coisa de um livro virtual de memória que ele pretende fazer. Putz, pensei, mais recuerdos, mais memórias num dia assim, desses que parecem sem amanhã. Mas, não. O coração deu uma sacudida de energia, a consciência estranhamente se alinhou rumo ao horizonte, o corpo reconheceu a postura do querer. Frágil mistério. Logo percebi que ali estávamos nós, naquele 1969, absolutamente certos de que o futuro dependia de nós. E era exatamente o onde e o como meu filho, Ique, hoje se encontra. A chegada da vida universitária prenhe de perguntas e esperanças, e acho que imbuído daquela mesma velha certeza sobre o futuro. Senti o quanto não devo, o quanto não tenho o direito de embaçar esse brilho em seus olhos.

domingo, 14 de março de 2010

Houve o dia do não ir

Armanda Alves

Pois é, desses aniversários comuns, dos quais me lembro em cada julho, já acumulei uns 61. Desses que se contam desde aquele dia, maldito para tantos, não pra mim, em que uma mãe sentencia: "chega, cansei, vá à luta". Vem o choro, e o calendário começa a piscar, implacavelmente. E a vida corre, em ritmos diversos, sob canções várias, até que a cortina despenque ante a cena. Aplausos? Sempre sobra algum.

O aniversário que comemoro hoje é de outra espécie, meio paradoxal, posto que começa de um fim imaginado, mais que isso, de um fim pressentido. Aniversário menos compulsório, desejado, não carente de comemorações. Aniversário que se basta na constatação. Há exatamente um ano a vida ameaçou parar. A respiração perdeu seus rumos, o CO² em ataques certeiros se apossou dos miolos e das entranhas. Pane e veneno. CTI às pressas, e a grande e longa batalha: vai, não vai... vou, não vou... vai, não vou... Meus amores na ante-sala pescrutando olhares e palavras de quem se dispusesse a contrariar as aflições. Não fui, fiquei, como se pode constatar com certa habilidade e percepção.

E esse ano, com jeitão de bônus, passou rápido, com brilhos novos. Vida meio replanejada, restrições que não chegam a aborrecer muito, o Bipap, maquininha fantástica, de aluguel caríssimo, velando por meu sono e por algumas horas do dia, insuflando-me ar nos pulmões, levando alento ao diafragma combalido. Hoje, qual uma mula vivida cerceada por antolhos, reaprendo a olhar em frente, a caminhar rumo ao adiante. E que assim seja. Ponto.

Alguns episódios daquele dia, e dos que seguiram,estão contados nos primeiros "posts" desse blog.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ave Glaucus!!!


Ai de mim! Ai de nós! Fim de meus devaneios eróticos, sempre girando em torno aos peitos de dona Marta, agora que ela morreu. O assassino babaca que hoje matou o Glauco ( e seu filho Raoni), matou muito mais do que conseguiria imaginar. Matou um bocado da nossa graça.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Delírios de uma paixão


Tutuca, velho sacana, sua obra-prima de 3º grau drenou as últimas gotículas que me restavam de auto-estima. Estou arrasado. Dei instruções à família para adicionar tal delírio gráfico ao que restar de mim na hora, que vou adiando, em que autoridades mais ou menos competentes, em consonância com suspiros derradeiros, derem a sentença: "cara, a festa é finda, chegou a hora da fogueirinha ..."

Em tempo: eu nunca, nem assim decadente, aceitaria posar com um top naquele tom de rosa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Nevada nas Geraes

Minas se aperfeiçoa nas trilha do provincianismo personalista, talvez se espelhando nas virtudes do Maranhão de Sarney. Se for embarcar no Aeroporto Presidente Tancredo Neves, você passará ao lado da Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Mas, no caminho, se sua saúde der pane, não se preocupe: você poderá ser atendido no Pronto-Socorro Risoleta Neves.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Levante sua Voz

Aos que carregam a ânsia de serem mais que meros consumidores de informações e opiniões alheias, aos que julgam valer lutar pelo que acreditam, aos que já descobriram que só numa sociedade democrática e justa encontraremos paz para viver, esse vídeo é mais que ilustrativo, é indispensável.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

De retenções e arrepios

Gosto muito de dirigir, em especial quando o chão é uma estrada. Sou motorista há quase 40 anos, época em que entregar uma carteira de motorista a um deficiente físico não era fato comum, tratado com a quase normalidade de hoje, conquistada com muita briga. Acumulei experiência, aprimorei o tino para a arte de conduzir o carro, sentindo-o como extensão tecnológica do corpo. Para mim, quase sempre, dirigir é liberdade e prazer.

Por razões diversas, há dois anos eu não enfrentava um bom trecho de estrada. Temi por minhas condições físicas atuais, cheguei a trocar uma idéia com o médico sobre a questão, mas bastou meia horinha de asfalto para me restituir a confiança. Sempre fui bom motorista de estrada, quando menino ser caminhoneiro era o sonho profissional que mais me estimulava. E lá fomos, Katinha, Ique e eu, para uma dezena de dias em Teófilo Otoni, nordeste de Minas, na dita "Pensão Ideal", também conhecida como casa de meus sogros, Seu Carrin e Dona Filhinha. Viagem tranquila, gostosa, apesar da estrada lotada e de uma retenção de uma hora, sob o sol do meio-dia, diante da obra de um gasoduto, coisa assim.

A volta se dava no mesmo ritmo e jeito, as retenções tendo passado de uma para duas. E foi na segunda delas que se deu o episódio que ainda me arrepia. Uma boa meia hora antes, numa subida forte, eu havia ultrapassado uma carreta, tipo cegonha, placa DPC-4846, que, sem carga, trafegava de modo tresloucado rumo a Belo Horizonte. Depois disso, era olhar no retrovisor e, quase todo o tempo, vê-la em sua desabalada carreira. Tentei, e consegui, abrir uma boa distância. Mas, aí, vem a segunda retenção, e me vejo posicionado, na fila parada, pouco depois de uma curva. Fui parando, mas todos os instintos se acenderam. Sem visibilidade de minha retaguarda, acho que fui movido pelo chacoalhar distante daquela carroceria vazia. Pedi à Katinha para acionar o pisca alerta, abanei o braço pela janela, na tentativa vã de sinalizar o perigo. Tudo num fiapo de segundo. Aumentou o chacoalhar do caminhão, enfiei o carro pelo acostamento estreito, onde havia algumas pessoas, e só deu para escutar a frenagem violenta, os pneus arrastados no asfalto.

Olhei para trás, a carreta estava quase atravessada na estrada, e ocupava exatamente o lugar onde estaríamos se não fosse aquela saída de emergência. Troquei olhares amorosos com minha mulher e meu filho, aliviados. Sabíamos que uma grande desgraça batera na trave. O motorista de outro caminhão, que estava ali parado, veio praguejar contra o colega de profissão e elogiar minha perícia na situação. Observou que meu carro era adaptado, e quis saber, solidário, se o tremor de minhas mãos se devia ao ocorrido, se eu estava em condições de seguir viagem etc. Agradeci, e disse que aquele tremor era meu mesmo, normal, o que era só uma meia verdade. Sempre tremo, ao menos um bocadinho nas horas calmas, mas ali minhas mãos refletiam o coração, que ainda parecia palpitar no gogó, perto da boca. Ainda sinto uns arrepios, só em contar o caso.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Lamas da memória num Ano renascido

Se existe, como existe, a memória afetiva, certamente existirá algo como uma, digamos assim, memória efetiva. O estímulo externo se intromete despretensioso, e, como se do nada, torna-se um soco no peito. Não produz o abafamento tão conhecido pelos apaixonados ou saudosos, mas traz de volta uma aflição medonha, como se um fato vivido, ou presenciado, ameaçasse se repetir, e sem nenhuma razão objetiva ou aparente. Algo como um pesadelo relâmpago que nos surpreende acordados ao ver, como no presente caso que me toca, imagens na TV e nos jornais.

Meados da década de 1960, lá fui eu com uns amigos de colégio, e adjacências, encontrar o mar. Não me lembro se foi meu primeiro ou segundo contato com o reino de Iemanjá, só sei que meu amor pelo mar se tornaria eterno e infinito, apesar dos tão, e cada vez mais, raros envolvimentos. No compartilhamento daquele final de adolescência, o grupo era puro ânimo e muita gentileza. Na certa, generosidade também não faltava, posto que minhas muletas e meus aparelhos ortopédicos certamente exigiam dos parceiros algumas constantes intervenções de apoio naquele ambiente adverso, e estranho para meus hábitos e treinamentos. Minha família não era afeita a férias e viagens, eu não tinha traquejo para tais convivências e enfrentamentos ambientais.

Ficamos instalados num velho casarão, secular, de largas paredes de pedra, porões, e piso de longas tábuas corridas que produziam aqueles ruídos singulares, ecoando os passos. As paredes brancas, as janelas e portais azuis, compondo a distinção devida naquele vilarejo habitado por pescadores e eventuais, mas não muitos, turistas. À pequena distância do mar, erguido numa pequena elevação, o casarão produzia na imaginação dos que por ali passavam reflexos de sua própria história. Logo atrás no vilarejo, a beleza da serra do mar num paredão íngreme, invadida por algumas extensas plantações de bananeiras, que, aliás, davam algum fôlego econômico à vida simples do lugar. Diziam que Monsuaba era uma corruptela do francês "bon soir!", e que fora assim que o lugarejo herdou tal nome, já que sua posição geográfica, como se na curva de pequena península, fizesse do sol da tarde o espetáculo inesquecível, e não do sol matinal, como na maior parte do nosso litoral.

O que aqui relato só brota dessa memória subitamente despertada em choque, na qual a imaginação e a fantasia podem ocupar lugar maior que o pretendido e desejado pelo relatante. O município que albergava tal paraíso era Angra dos Reis, RJ, e a tal localidade era bem vizinha dos estaleiros da Verolme, um monstro que parecia bem estranho aos pacatos rítmos da dita Monsuaba. Naquele verão, as chuvas intensas e persistentes arrasaram o vilarejo, as águas subiram, cobrindo e arrastando as construções em sua parte mais baixa, fazendo da praia um lamaçal, ao qual se misturavam restos de casas e de plantas, em especial de bananeiras que escorreram junto com parte do morro. Com a queda das pontes de acesso, o vilarejo ficou em completo isolamento, moradores e turistas dividiram, amontoados, espaço nas casas e lojinhas mais altas, e a comida ficou racionada até que ajuda mais efetiva chegasse, um ou dois dias depois, por mar. Lembro-me que todos lamentavam muito a morte de uma senhora, muita querida, vitimada por uma viga de sua casa desmoronada.

Naqueles dias de sol que antecederam a catástrofe, o que mais se ouvia no rádio era outro explosivo sucesso de Roberto Carlos, "A Namoradinha de um Amigo Meu". Porque me lembrar disso? É que, justamente, a música fazia uma crônica cruel do que se passava comigo, envolvido que eu estava, meio clandestinamente, com a namoradinha caiçara do amigo que me convidara para tais dias inesquecíveis. Ela, menina bonita e sestrosa, filha de pescador, que via no verão a chance de se ampliar no mundo; eu, com os charmes específicos que a deficiência física sempre fora ensinando, ostentanto um rabo-de-cavalo raro para a época, e usando um sorrisão como arma secreta, usufruindo do tempo extra de vagabundagem que eu gastava por ali mesmo, à sombra das árvores, enquanto a turma fazia passeios e caminhadas que não me eram acessíveis. Acho mesmo, e me perdoem a arrogância, que o ambiente encantado do lugar se compatibilizava mais com minha quietude que com a desperdício exacerbado de energias daquela rapaziada, mas, a chance de ser puro despeito não deve ser desprezada.

Era na casa de tal cobiçada donzela, a noite já tendo imposto seu manto, que eu estava quando a tempestade caiu de vez. Casa simples, de alvenaria, construída na beirinha da areia, quase sem diferença de nível com o mar. A água se infiltrando por debaixo das portas, e as imagens revêm com nitidez, marcou o primeiro alarme. Raios, estrondos, as águas não paravam de subir. Senti a barra ao ver o nervosismo na face daquele homem experiente, forte, domador dos medos da pesca. Ele decidiu que levaria a mulher e os filhos para a parte mais alta do lugar, e que voltaria com ajuda para me resgatar. Eu explicara a ele a dificuldade de meu deslocamento em tal situação, inclusive pelo peso dos aparelhos metálicos que me envolviam as pernas, e de minhas inseparáveis muletas, à época Sucupira e Rosa Amélia (posteriormente elas foram rebatizadas algumas vezes, inclusive homenageando mães de amigos). Tomou ele, ainda, a iluminada providência de me deixar em pé sobre a cama de casal, onde eu teria ao alcance das mãos umas peças de madeira para me sustentar, caso a coisa piorasse. E foi o que aconteceu.

É inacreditável como as catástrofes podem evoluir como se elidindo a dimensão do tempo, em especial para quem se surpreende diretamente no alvo. Os clarões que os raios produziam lá fora me faziam ver o quanto e quão rápido as águas e a lama subiam. A base da janela do quarto já sumira sob tal maré. A água envolvia minhas pernas, eu nem via mais a cama sobre a qual me mantinha. Achei que era o fim, e pelo que me lembro, talvez aqui a memória se predisponha mais ainda a dar ares dramático ao roteiro, senti-me calmo, ao menos desespero não havia.

Para os que, como eu, não transitam no sobrenatural, conto em paradoxo: vozes de anjos invadiram aquela solidão em que me encontrava. "Ei, companheiro, aguenta firme... fica calmo... a gente veio te buscar", e, felizmente, não eram vozes de nenhum além. Eram dali mesmo, de gente corajosa e solidária. Entrou o primeiro cara pela janela, amarrado a uma corda, e com outra para me amarrar. A gente só se via quando os raios faziam luz. Logo um outro se postou no vão da janela, estendendo a mão. Ao todo eram quatro ou cinco homens, gente dali. Quando ele passou a corda em volta do meu peito, pois não havia outro modo para enfrentar correnteza tão feroz, abracei-me às muletas com um dos braços, e deixei o outro ser puxado. Vem aqui, nesse ponto da lembrança, um tremendo turbilhão: os caras gritando entre si, água entrando boca e nariz adentro, as costas se escalavrando, sem profundidade, numa cerca de arame farpado que boiava entre grandes folhas. E puxa, e puxa, e vai, e grita, e puxa... e eis que de repente, não mais do que de repente (parafraseio o poeta...) terra mais ou menos firme sob o corpo. Fiquei um pouco deitado na escada de uma casa, sob chuva, agarradinho às muletas, sentindo-me mais inteiro que nunca. Aqueles homens comemoraram, me abraçaram, se abraçaram, e logo me carregaram para uma espécie de bar/mercearia, onde já estavam meus amigos de viagem, aflitos, e boa parte da população do lugar.

Mas a alegria, que era só minha, quase obscena em meio a tanta desgraça, não terminara. Pouco tempo depois, não sei quanto, eu ali me refazendo, tendo tomado uma pinga, comido algo que me deram, uma voz me conclama apavorada: "porra, olha lá o que virou...". O próximo relâmpago revelou a cena. Pelo que dava pra ver, apesar da distância não ser longa, daquela casa onde eu estava só sobrara a base, os alicerces. A luz no amanhecer seguinte tirou qualquer dúvida. Demorassem mais algum tempo, na certa pequeno, aqueles anjos caboclos a me buscar, e na certa me encontrariam nas misturas daquele lamaçal que só dias depois passou a ser revolvido. E essa lembrança agora me emociona, muito, me deixando em estado de fusão solidária com os que agora comemoram seus sobreviventes, ou buscam e choram seus mortos, talvez ainda sob a lama que invadiu a mesma Angra dos Reis, ou aquela que rasgou trágica cicatriz num dos paraísos da Ilha Grande. Na certa a entrada do Ano Novo, e esse tão especial pra mim, agravou esse aperto que agora sinto no peito.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Que venha 2010!!!

Laila, nossa gloriosa vira-latas (na foto com nosso glorioso Ique), que anda envolvida com uma gravidez psicológica (sério!), está ali fora, agora, demonstrando seu profundo desagrado com a quebra da rotina sonora.

Os sons do foguetório na lagoa da Pampulha, a poucos quarteirões daqui, chegam claros, sem restrições. A chuva deu uma meia colherzinha de chá. As imagens apenas pela TV Alterosa, patrocinadora da zoeira comemorativa. Katinha, meu amor, e eu estamos aqui, em respectivos pijamas azuis. Ela decretou que era a cor necessária, eu, ajuizado que só, acatei convicto. O Ique, embora concentrado para a retomada do vestibular na 2ª feira, foi comemorar com amigos.

Absorvo no peito parte desses ecos, num cantinho de indivisível intimidade. Em graves momentos desse ano que se foi, pensei que não teria a felicidade de mudar o calendário sobre minha mesa de trabalho. Pois acabo de colocar o calendário de 2010 em lugar de honra, e o estou contemplando cheio de planos, feliz da vida.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Bom era quando os imortais só cochilavam nas Academias

Acabo de assistir a 1ª parte da entrevista com o cientista Raymond Kurzweil. O brilhante Jorge Pontual vai arrancando dele as razões e os argumentos para crer que, num futuro não distante, uma fusão do homem com a máquina estará garantindo ao ser humano, e a ele mesmo, é óbvio, uma vida sem fim previsível ou necessário. Pelo que entendi, através de progressiva e ininterrupta reprogramação de nossos softwares, quais sejam nosso estoque de 23 mil genes. Mas, atenção, minha versão de suas reflexões, aqui, é precária, de primeira vista, e só razoavelmente confiável.

Ontem, antes do almoço, enquanto Katinha mui amorosamente ajeitava minha barbicha e minhas unhas, sintonizei, na mesma GloboNews da entrevista acima citada, uma envolvente mesa redonda coordenada pelo Pedro Bial (esse repórter de primeira, quando não está babando BBB). Discutia-se a tese de um cientista americano (inglês, talvez) com cara e jeitão de hipponga meia-idade, mas levado muito a sério pelos pares, que, atrevido que só, assegura que dentro de 30 anos o homem terá encontrado a vida eterna. Não, nada de místico ou esotérico, é mesmo a abolição da morte na vida terrena, ao menos por razões do que hoje chamamos saúde, e que, então, não sei que nome terá. Em torno à mesa, uns sete ou oito intelectuais, entre geneticistas, poeta, geriatra, quase todos deslumbrados com a perspectiva científica de abolir o fantasma do fim ainda para a presente geração. Afora uma ou outra pontada de bom senso, quase todos eles me pareciam mecanicamente fixados ao somatório de dias se oferecendo como anexáveis ao próprio futuro, fosse ele qual fosse.

É, a imortalidade está definitivamente em pauta, e agora, o que parece novo, podendo descartar as idéias e a dependência de transcendências diversas.

Não descarto a possibilidade de ser inveja, pois contemplo tais conversas com olhos de 61 anos, e com essa saúde meia boca que me sustenta, mas fiquei boquiaberto diante do que ouvi e vi. Baixou o desejo irresistível de pedir uma pinga, me encostar na conversa, e enfiar uma xeretagem vagabunda, uma mistura de filosofia e sociologia de botequim. Pensei, para o papinho inicial, em dois roedores vorazes, dentre tantos outros, que se infiltrariam para avacalhar essa fissura pelo sonho de escapar da morte, ela que era, ou é, a única e derradeira certeza do homem moderno. Cutuco, em breves relances, o ódio e o tédio.

Pensa-se nesse presente eterno sem se pensar que o homem é o predador do homem, e que o ódio disputa com o amor, em luta dilacerante e perene, o direito de dar sentido à vida. É, pode parecer piegas em tal contexto, mas a vida carece de sentido para ser vivida, e, se o sentido não se apresenta, o tédio suga as energias, por vezes inexoravelmente, mesmo dos corpos mais surpreendentes, inteiraços.

Como controlar meu ódio se o único horizonte que o acalma é a finitude de meu inimigo, meu desafeto? E buscar a calma é papel que o amor cumpre, ou finge cumprir. O amor fica para outro papo. Ser imortal é ter o direito de carregar, sem limite de vencimento, as benesses e os gozos de malefícios que porventura causei a outro. É muito, o outro não conseguirá tolerar, até o amor se verá impotente como desculpa ou perdão. O ódio, acho que a história humana mostra, exige a morte como resposta, real ou simbólica, e a idéia da imortalidade anula tais saídas.

Escorregando ainda mais na maionese, arrisco pensar que a imortalidade é incompatível com a civilização, ao menos como a conhecemos hoje. Tornadas imortais, as pessoas se matarão muito mais, por meios ora conhecidos, e por outros que com certeza serão inventados por um renovado, e na certa pulsante, mercado da morte. Meus 15 segundos de Nostradamus: as guerras de hoje, a Aids, os acidentes que conhecemos, são coisas que parecerão secundárias quando se apresentarem as grandes e definitivas batalhas entre os que podem e os que não podem se imortalizar, entre os que têm recursos e conhecimentos para determinar os que devem ou não devem morrer, e, por outro lado, os que, então desencantados da esperança de que a imortalidade se desse em outros planos, decidem que é aqui e agora que a igualdade deve deixar de ser bordão dos espertos e dos poderosos.

Harmonia? Impossível não é. Imortalidade, talvez um dia. Mas a sobrevivência coletiva, as melhores condições de vida, a vergonha diante da miséria alheia, o pudor ecológico frente à natureza (essa inexorável inimiga de toda imortalidade) terão que se sobrepor, nos horizontes hoje visíveis, aos projetos individuais, ou grupais, de negação da morte, e de encontro, aí, de algo que se assemelhe à felicidade eterna.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sobrevivemos

- Calma!
- Calma porra nenhuma!
- Já te dei... o que você ganha tent...
- Cala a boca, caralho. Você fala pra cacete. Só não fui com seus cornos, e chega.
- Pô, cara, os homens estão aí... você não vai...
- Fecha essa porra dessa boca. Mete o olho aí no cano do oitão. Ri, caralho...

O estampido rasga o ar em tons polifônicos. Meu rosto se retorce para o lado num vai e vem pausado, meus olhos se fecham instintivamente em súbitas piscadas. Tento firmar a vista, os óculos estão intransponíveis. A pasta vermelha e branca me cobriu o rosto, sangue e miolos. Retiro os óculos, passo a mão na boca, uma, duas vezes. Braços firmes me amparam e me afastam. Diz-se que o gosto e cheiro das mortes violentas são impregnantes, que seus resíduos se colam à memória como a tintura de iodo se entranha numa pedra porosa. Sei que aquele quase menino viverá pra sempre comigo.

- Ei, por favor, alguém aí já sabe o nome dele?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Luzes na boca do beco

Tom Stone

Para Tutukowski, que deu de encher minha bolinha americana

Aqui se morre um pouco de tudo. Fome. Tristeza. Frio. Doença.

A morte é gesto solitário, chega possessivo, mas aqui entre nós não é costume morrer-se só. Nem é hábito, nesses becos, morte de causa única.

Quando nos olham de lá, onde a vida corre, acreditam ver corpos rotos e mentes maceradas por saudades. Bobagem, a dor quando longa esfacela a saudade. Vida real é a seiva das saudades, e ela já não flui. Nem me lembro se há muito.

Divago entre calafrios. O sol já não me aquece, e do céu vai se apagando o azul que inda agora me acariciava os olhos marejados. O ar me enche os pulmões com uma intensidade desesperada, mas a calma é imensa, mesmo doce. Uma mão que reconheço se intromete em meus cabelos. Deve ser o derradeiro calor que sinto. E ele se mistura ao sopro que meu tímpano capta em estertor: "vai com Deus, meu amor!"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Lembranças não são pensamentos

Pois lembrar é quase só o que me resta. Era uma noite particularmente triste e lenta, a cabeça tão moída por dores e queixas que o corpo decidiu -já tentara antes!- abandoná-la.
Levou consigo a mulher amada, isenta de pudores.
Faz tempo.
Mas, quando chegam as algaravias dos finais de ano, a lembrança dói. Embora cada vez menos.

>>>a incrível escultura é do Ron Mueck<<<

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Somos singulares

Em 10/10/2003, publiquei no site SACI um dos "posts" de um antigo blog. Como ando, atualmente, meio embotado nas escritas, e para amainar as cutucadas rumo à produção que a Katinha, meu amor, não dispensa quando me vi assim, mais para o molenga, volto a publicá-lo aqui, contando com a condescendência dos que, por algum acaso, já o leram:

Fui honrado com um comentário, via email, do Renato, o Repórter SACI. Ele, que é tetraplégico, visita os lugares públicos de São Paulo, e relata, no site da Rede SACI, as condições de acessibilidade física. Um serviço bacana e que, com os repórteres voluntários, acabará se espalhando. Pois é, de modo arguto e direto, Renato disse a respeito de aspectos de meu texto ("Somos deficientes de tempos civilizados"http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=7665): "Mas olha que não estamos distantes de sermos sacrificados pela sociedade maluca. Você viu que os vereadores de BH querem que apenas 5% dos ônibus sejam adaptados?" E continua o Renato: "Isto acaba matando os deficientes de um outro jeito, não conseguimos sair de casa, ter uma vida normal. Infelizmente, este pessoal só aprende quando acontecer com eles..."

Não aprende não, meu amigo, inclusive porque essa é uma péssima forma de se aprender. E veja, se acontecer com eles, eles não serão mais eles, serão nós. E o cachorro louco volta a correr atrás do rabo. A esperança de uma transformação democratizante e inclusiva está, em parte, em instituições e em leis que nos apresentem no palco como cidadãos, mas está também, e principalmente, num paciente trabalho educativo. Trabalho capaz de expandir e infiltrar uma consciência de apreço e respeito às diferenças, uma consciência de que somos todos diferentes, mais que isso, singulares (o que nada tem a ver com individualismos). Trabalho que, por exemplo, você e a Rede SACI vêm desenvolvendo com maestria.

Somos singulares. A deficiência física é apenas um aspecto da vida de algumas pessoas, você, eu, Tchela, João, Maria, Abigail, Severino etc, e estamos até na moda: com a isenção de impostos para a compra do carrinho 0 Km tem muita gente nova tentando provar que sempre foi do clube. Somos todos singulares, andantes, muleteiros e cadeirantes, surdos e ouvintes, cegos e videntes, feios e bonitos, etc e tal, e, portanto - e isso é material para outros bons papos! -, não cabe falar em normalidade. E gosto de brincar com a idéia de normalidade, sempre a vejo como a realidade e os valores que são próprios aos dominantes e aos poderosos, e que eles tentam provar, por meios pacíficos ou não, que são a realidade e os valores de todos.

No outro texto, eu tratava de um deficiente que não existe, uma entidade quase abstrata. Ele só existe se conseguimos imaginar o somatório, e a junção, de parcelas das vidas de todos aqueles que têm a deficiência física como um dos aspectos de suas existências. Meio complicado, né? Quando falamos, por exemplo, nos deficientes físicos brasileiros, ou nos cegos do mundo, ou nos tetraplégicos de Guarulhos, estamos, ao mesmo tempo, falando de todos os concernidos e de ninguém. Você trouxe a voz do deficiente real, com desejos, raivas, esperanças, essas coisas, e eis o que mais importa, é aí que se dá a luta ou desânimo, a inserção ou a exclusão. Um deficiente passional, contraditório, querendo ser feliz, e que põe vida no meu "deficiente teórico", digamos assim, que é uma mera concepção, mas é útil por nos ajudar na tentativa de compreender as questões que não podem ser analisadas apenas sob o olhar e os interesses de um ou outro deficiente específico.

Está ficando meio longo, né? Vamos mais um pouquinho, prometo resumir. Wright Mills foi um cientista social que viveu nos meados do século passado, e foi um cara que sempre iluminou minhas singelas tentativas de compreender o mundo e a vida social. Ele dizia que a vida real, os fatos sociais, se explicam como cruzamentos da biografia com a história. É de alto risco tentar simplificar isso numa conversa assim rápida, mas vamos lá. As pessoas que vivem numa sociedade, maior ou menor, num determinado tempo histórico partilham esse painel de fundo, sobre o qual suas biografias se exercem, e só assim suas vidas poderão ser compreendidas Brinquei com essa idéia quando, no outro texto, afirmei que meu primeiro sentimento, por não ter nascido numa tribo do Xingú, era de alívio. E se o tivesse, minha biografia, na certa, seria curtinha, por imposição de um painel histórico, e cultural, em vigor.

Falemos da Tchela, nossa querida amiga comum. Ela prepara um livro onde descreverá um claro exemplo: a história de uma mulher deficiente física que seguia vivendo sua vida (biografia) quando, em determinado momento, dá de cara com o computador e a Internet (possibilidades históricas). O encontro redireciona sua própria vida, e vai nascendo daí uma escritora. Tivesse ela, ao se casar, mudado para um pequeno vilarejo, talvez o mundo visse surgir, dessa conjunção, uma boa doceira, uma requintada bordadeira, e eu não teria tido o imenso prazer de conhecê-la, mesmo que só virtualmente.

Ainda a Tchela, e que ela me perdoe pelo uso e pelo abuso do exemplo. No Maré, seu concorrido blog(http://tchela.blogspot.com/), ela nos encanta com pedacinhos bem contados de sua vida. Em algum momento das últimas décadas do século passado, ela (biografia) se encontra com o seu Benê (biografia), um homem que, por algum motivo biográfico, desenvolveu a liberdade pessoal e a segurança que não lhe impediram de se apaixonar por uma mulher numa cadeira de rodas. E tal fato foi possível por eclodir num tempo histórico em que um tal relacionamento é tolerado, talvez até aprovado. Tivesse tal amor desabrochado em famílias japonesas lá, mas também aqui, e o sofrimento estaria encomendado. Não sei se ainda hoje, mas até pouco tempo, numa família japonesa mais tradicional, a filha deficiente não poderia se casar e reproduzir, e, com freqüência, condenaria suas irmãs ao eterno celibato. E me deu grande saudade da querida Sueli, e fazem tantos anos que não a vejo, uma filha de japoneses, uma inteligência privilegiada que pôs a nocaute uma paralisia cerebral que se meteu em seu caminho.

Renato, peço a você, e ao eventual leitor, uma última gota de paciência. Contarei mais um pequeno episódio meu, tentando reforçar a idéia de que falar de deficientes é falar de pessoas específicas, com histórias específicas, que têm a deficiência como um aspecto que marca suas vidas de forma mais ou menos determinante, conforme o caso. E que cada caso só será compreendido percebendo-se como foram se construindo as possibilidades ou impossibilidades de uma vida, num determinado tempo histórico.

Chego eu na porta de um restaurante. Estaciono meu carro meio chic, cinza, automático, ano 2000, me transfiro para a cadeira de rodas e sigo em frente com minha mulher e meu filho, ambos aparentemente saudáveis e felizes. Por atração de estranho magnetismo, meus olhos se cruzam com os de um moço que, em surrada cadeira de rodas, vende chicletes no sinal (farol ou semáforo, em outras plagas). Negro, pobre, deficiente, maltratado pela vida. Pensei, de relance: "se ele for analfabeto e gay estará fechado o círculo da exclusão mais cruel e impiedosa". Tento um sorriso. Ele balança a cabeça, sem aliviar a tensa rigidez do rosto. Sinto o seu olhar percorrendo aqueles 30 ou 40 metros que nos separam, e sinto que, em alguma proporção que não consigo precisar, ele me contempla com uma expressão de admiração e mágoa, talvez uma pontada de ódio. Ele empinou a cadeira, deu meia volta e se afastou por entre os carros. Naqueles parcos segundos, ele não acreditaria, talvez pensasse em deboche, eu o invejei. Invejei suas habilidades com a cadeira, sua coragem pessoal, sua luta, que imaginei obstinada, pela sobrevivência.

Éramos ambos deficientes físicos, mas os outros aspectos ou faces de nossas respectivas existências haviam criado aquele abismo imenso. A solidariedade entre nós, para se estabelecer, teria que vencer vários obstáculos. A deficiência nos teria identificado não fossem tão opostos nossos mundos. Um dia desses, talvez, nos encontremos numa manifestação pelo rebaixamento das calçadas, ou na campanha de algum político deficiente físico, ou com base nas entidades representativas dos deficientes. O importante, Renato, é que se continue lutando pelas causas dos deficientes, esses entes envolvidos por direitos e deveres, mas que não percamos de vista um fato: eles só serão atraídos para a luta comum se sentirem os movimentos como capazes de penetrar e reordenar as próprias e específicas biografias.

sábado, 28 de novembro de 2009

Olha o juízo, moçada!!!

Há momentos, tal agora, em que me vejo tomado por uma espécie de fúria participativa. Como se a velha Pomba-Gira baixasse, sem regras nem tempos. Passou uma polêmica dançando, puxa a velha faca, enferrujada pelo pouco uso atual, e risco o chão (hoje em dia transferido para o ciberespaço). E dá-lhe comentários, protestos, emails e o que mais se puser ao alcance desse modesto teclado.
Ontem passei o dia tentando refletir sobre o episódio gerado pela publicação da coluna do César Benjamin, na Folha. O relato daquelas memórias continha muitos buracos, dúvidas que não deveriam existir (serem publicadas de imediato, sem checagem) no relato de uma suposta situação que envolvia a honra, e até a sanidade mental, do presidente da República, e, é evidente, o futuro político imediato da Nação. Não deu pra resistir. Lá se foi um email para o Carlos Eduardo Lins e Silva, a quem respeito, atual ombusdman do jornal.

Caro Ombudsman, sou professor aposentado do Curso de Comunicação Social da UFMG, e, talvez por vício, passo boa parte do tempo acompanhando os movimentos da mídia, em especial a nossa, também via internet. Sob a perspectiva tão complexa do que tenho visto, venho tentando resistir a formulações analíticas simplificadoras, idiotas e ressentidas com frequencia, tais PIG e outras menos votadas. Sou assinante da Folha desde sempre, coisa de várias décadas, e venho tentando manter, confesso que por vezes com certo esforço, a crença de que o projeto do Grupo é produzir um jornalismo limpo e de qualidade. Digo a você, a quem muito respeito, que o episódio César Benjamin, de ontem, conseguiu quebrar tal crença, temo que de maneira irreversível. Como crer que não haja um projeto polítíco na retaguarda, em especial na autorização editorial, de texto de temática tão delicada, arrancada evidentemente do limbo de uma memória machucada e doentia, e destinado a produzir óbvios e certeiros efeitos?